quarta-feira, 27 de julho de 2011

Post nº 44

TEODÓSIO  -  O  IMPERADOR  ROMANO
QUE  DETEVE  O  AVANÇO  DOS
INVASORES  GODOS  

Santo Ambrósio proíbe o imperador Teodósio entrar na catedral de Milão e o manda
fazer penitência por seus crimes. Tela de Anthonis Van Dyck (1620)


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A conseqüência imediata da esmagadora derrota romana em Adrianópolis no ano de 378 DC foi o caos geral no Oriente, abalando a estrutura do gigantesco Império que desde o século II estendia-se do norte da Inglaterra ao sul do Iraque, do oceano Atlântico ao oceano Índico, das florestas da Germânia às areias do Saara e tinha o mar Mediterrâneo como um lago interior. Com o exército destruído, como poderia o seu domínio manter-se sobre tão imensa área?

Um dos maiores mistérios da História é entender como um Império com milhões de quilômetros quadrados, centenas de povos e dezenas de idiomas diferentes, pôde durar tanto tempo apesar de calamidades e largos períodos de anarquia político-militar, mas entre as várias explicações e fatores apontados para a solução do mistério está a eficiência do Exército. Mas ele agora sumira e ninguém tinha a mínima ideia de como ficariam as coisas sem ele. O resultado foi o pânico generalizado e as autoridades locais fazendo o que podiam para manter a estrutura do Estado e a segurança dos cidadãos enquanto aguardavam pelos acontecimentos. Porém, por incrível que pareça, o temível exército imperial logo se refez do desastre, possibilitando a sobrevivência do Império por mais um século. Como foi possível o milagre?

Vejamos. Muitos pensam que o Exército Romano era enorme, mas ele era incrivelmente pequeno. Seus efetivos eram em média de 180 mil homens, podendo às vezes subir para cerca de 200.000 ou baixar para cerca de 150.000, dependendo da conjuntura político-militar. Verifica-se, portanto, que tanto em seu tamanho máximo como em seu tamanho mínimo ou médio, os seus efetivos eram muito inferiores aos dos exércitos das grandes potências atuais, relativamente bem menos importantes e poderosas do que o antigo Império. Como podia, pois, um exército tão pequeno ser máquina de guerra tão temível?

A chegada em massa dos civilizados godos cristãos ao Império poderia ter sido sua salvação, mas a
incompetência dos romanos os fez principal agente da sua destruição

O segredo estava na organização e não no tamanho. Desde o imperador Trajano o Exército dividia-se em cerca de trinta Legiões, cada uma tendo, quando completa, um total de seis mil seiscentos e sessenta legionários comandados por um general-chefe auxiliado por um ou dois tenentes-generais. Ela dividia-se em dez coortes de seiscentos e sessenta e seis soldados, as quais eram postadas em locais estratégicos da zona sob sua jurisdição. Por sua vez a coorte dividia-se em seis centúrias, as quais se compunham de dez decúrias, a menor e mais coesa unidade do exército. Cuidando da logística da legião, havia cerca de mil auxiliares sem treino militar apropriado, mas que em casos extremos podiam ser chamados à batalha. Durante esta, cada unidade encaixava-se ou destacava-se da outra como peça de um mecanismo e os legionários moviam-se obedecendo apenas ao comando dos seus oficiais, com frieza e sem gestos precipitados.

Com tão extraordinária organização e eficientes táticas uma legião podia assegurar o domínio imperial em vastos territórios com um mínimo de soldados, porém deve ser dito que seus efetivos, armas, formações e táticas de combate variaram bastante no decorrer do tempo, e no século IV raro era a Legião com mais de três mil homens e Coortes com mais de trezentos. Isto explicaria o fato dos romanos, embora lutando em Adrianópolis com cerca de cinquenta mil homens, perderem  trinta e cinco generais e dezesseis Legiões.

Porém, o mais importante durante a crise que se seguiu à batalha de Adrianópolis foi o fato da antiga localização estratégica dos quartéis, sede das tropas que tinham partido para a guerra, ter sido conservada e os quarteis terem permanecido ativos, com toda a sua estrutura burocrática em pleno funcionamento. Por isso, bastou um rápido recrutamento de novas tropas, fácil de ser obtido dado os altos salários pagos aos militares, para que as legiões destruídas fossem refeitas, mantendo-se a unidade e a segurança do Império.

Em decorrência dos alicerces sobre os quais era edificado, o exército romano era capaz de renascer rapidamente das próprias cinzas e voltar a ser a mesma máquina de guerra invencível de antes, salvo quando ocorriam circunstâncias fatais ou erros crassos de comando como em Adrianópolis. Por isso é que a esmagadora derrota causou tanta surpresa, levando todos a julgarem “o fim do mundo”. Mas como uma desgraça nunca vem sozinha, várias outras menores, porém não menos terríveis, ocorreram em seguida por todo o Império, pois gente apavorada sempre joga sua raiva em “inimigos” indefesos. E foi o que ocorreu com milhares de “bárbaros” que viviam pacificamente no Império, massacrados em casa e na rua por multidões furiosas que bradavam insultos homicidas contra os godos miseráveis! Houve mesmo um general que executou centenas de soldados godos há muito servindo lealmente em suas tropas.

Os godos recuaram diante das imensas muralhas de Constantinopla e abandonaram
 o seu projeto de tomar a capital do Império Romano do Oriente
         
Mas enquanto reinava o caos nas cidades do Império, o líder godo Fritigerno saqueou e incendiou os quartéis imperiais fora das muralhas de Adrianópolis, só não a tomando porque julgou ser muito esforço para pouco ganho. Assim, marchou sobre Constantinopla, que pensava estar indefesa, mas enganou-se: uma feroz legião árabe recém chegada, e os poucos oficiais sobreviventes do massacre, armaram os civis e simularam serem uma “grande força defensiva”! As imensas muralhas “fortemente guarnecidas” fizeram-no desistir e ir para o rico interior saqueá-lo sem maiores dificuldades; para aumentar o caos, milhares de famílias góticas cruzaram a indefesa fronteira do rio Danúbio e ocuparam as muitas fazendas desertas, ao mesmo tempo em que os seus jovens, inflamados pela vitória, iam engrossar as fileiras rebeldes.

A gravíssima situação tornou urgente a escolha de um novo Imperador, pois Graciano, Imperador do Ocidente e herdeiro do trono, estava certo da  vitória final dos godos no Oriente e resolvera voltar a Itália a fim de organizar a defesa contra uma provável marcha dos vitoriosos para o oeste. Vendo-se abandonados por Graciano, os pouco generais sobreviventes, incapazes de elegerem novo imperador um dos seus pares devido à rivalidade entre eles, escolheram um antigo colega que deixara saudades ao se demitir do Exército há alguns anos para cuidar de suas propriedades na Espanha: Teodósio!

De família nobre e riquíssima, era filho de bravo general e ilustre ministro do imperador Valentiniano I. Isto o ajudara a fazer rápida carreira no exército, mas o seu pai caiu em desgraça durante a sucessão do imperador falecido e foi executado por ordem do novo imperador Graciano. Face à desgraça, o jovem Teodósio achou prudente se afastar e ir cuidar dos seus negócios na Espanha. Estava lá quando recebeu a notícia da sua escolha para envergar a púrpura imperial, mas antes exigiu que o imperador Graciano, legítimo herdeiro de Valente, a referendasse, o que foi difícil porque havia intensa antipatia entre os dois. Com ou sem o decreto no bolso, viajou com um grupo de nobres generais espanhóis seus amigos e fixou sua capital em Salônica, ponto estratégico para a guerra em curso. Sua primeira providência foi recriar o exército, e o conseguiu em prazo breve. Após um ano de combates e intensa diplomacia, conseguiu botar ordem no caos e mudar-se para Constantinopla, de onde habilmente comandou a guerra atraindo os adversários mais receptivos e derrotando os mais recalcitrantes.

Teodósio era de riquíssima família espanhola e foi o último imperador a governar os
Impérios Romanos do Oriente e do Ocidente unificados (378-395 DC)

O seu golpe de mestre foi receber com grandes honras o velho chefe godo Atanarico, que por muitos anos guerreara os romanos e se afastara bem antes da batalha de Adrianópolis por política, velhice e doença. Embora não tivesse mais poder algum, era muito respeitado por seu povo e as grandes atenções que Teodósio lhe deu, tratando-o como seu igual, não só o comoveram, como também aos seus antigos liderados, facilitando a paz definitiva. Quando meses depois Atanarico faleceu, Teodósio o homenageou com funerais suntuosos, dignos de um imperador, e isto facilitou ainda mais as coisas, permitindo que no final de 382 um Tratado de Paz fosse celebrado. 
         
Porém, apesar de Teodósio dar aos godos boa parte do que exigiam, sobretudo terras, subsídios, ingresso no exército e na burocracia, o que mais influiu no acordo foi serem eles cristãos romanizados, ansiosos por fazerem parte do Império. Isto ajudou bastante, mas o fato de serem cristãos da "Seita Ariana”, fanaticamente combatida pela "Seita Católica”, dominante em Constantinopla, na corte e na região por eles ocupada, causou muitos empecilhos. O próprio Teodósio era um fiel Católico e isto certamente influenciou sua conduta dúplice depois do Tratado, conduta que daí em diante condicionaria os romanos a lidar com os godos sempre de forma traiçoeira e desonesta. Ademais, o extremado Catolicismo de Teodósio o levaria não só a hostilizar os Arianos, como a proibir o Paganismo, introduzindo no Mundo Antigo um conceito até então desconhecido: Intolerância Religiosa! Ao fazer isso, deflagrou o processo que findaria a Idade Clássica e iniciaria a Idade Média.

De qualquer forma, o novo imperador conseguira superar a grave crise e salvar o Império de uma catástrofe que a todos parecera inevitável. Apesar da arrogante incompetência do seu antecessor e desvairada bandalheira da burocracia, Teodósio realizara uma proeza notável: injetar vida nova a um Império moribundo e salvar Roma.
        
Pelo menos por enquanto.


Nota: a palavra bárbaro entre os romanos não tinha o sentido que lhe damos hoje, significando na época apenas "povo estrangeiro ignorante", que não sabe Latim e fala "bar-ba-bar-ba-bar-ba". Foi a piada o que deu origem à palavra. Todavia, povos civilizados ou com elites civilizadas, como cartagineses, gregos, egípcios, armênios, árabes e persas, não recebiam esse apelido depreciativo. Após a expansão do Império por quase todo o mundo conhecido, bárbaros eram apenas os povos além-fronteiras do norte e nordeste que não sabiam ler e escrever. Depois que o notável bispo godo Úfila  converteu seu povo ao cristianismo ariano em meados do século IV, dando ao seu idioma uma escrita e para ele traduzindo a Bíblia, tornou-se extremamente inapropriado chamar os godos de bárbaros. O fervor com que eles abraçaram a nova religião fez surgir em seu meio muitas paróquias com escolas, pois todos queriam aprender a ler os ensinamentos do Senhor no Livro Sagrado. Só por incrível arrogância e despeito é que os romanos continuaram a chamá-los de bárbaros após a catastrófica derrota que eles lhes impuseram em Adrianópolis, cujos antecedentes mostram que no caso bárbaros eram os romanos e não os godos. Mais do que pela competência de Teodósio, os romanos foram salvos por serem os godos cristãos devotos e preferirem confraternizar com inimigos também cristãos a destruí-los. A sua generosa atitude lhes traria muito sofrimento e decepção, mas por fim infligiriam aos romanos um castigo que eles jamais esqueceriam.     


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