domingo, 27 de março de 2011

Post nº 32

A  LENTA  ASCENSÃO  DE  CÉSAR  AO  PODER  ABSOLUTO

Júlio César no auge do seu poder militar e político



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César nasceu no ano 100 AC no seio da aristocrática Gens Julia, uma das mais nobres e tradicionais de Roma. O ano é importante porque é também o da publicação do famoso poema de Lucrécio De Rerum Natura, primeira obra-prima da Literatura Latina e através do qual conhecemos a filosofia de Epicuro, pois nenhuma obra do filósofo grego chegou até nós. Na época, liderava Roma o ilustre general Mário, chefe do partido liberal e tio postiço de César, pois o general viera da Plebe e se tornara Patrício pelo casamento, tornando-se membro da Gens Julia. Ele partilhava com o general Cina a chefia do partido liberal (populare), defensor de reformas democráticas em oposição ao partido conservador (optimates) sob a chefia do general Sila, o qual insistia em manter o status quo social e político da República. É difícil dizer qual dos partidos era mais sanguinário, pois ambos se excediam na repressão tão logo obtinham temporária hegemonia, mas em meio as terríveis guerras civis os cidadãos comuns se esforçavam por dar curso normal às suas vidas e embora desse seu voto ao general Mário, seu parente adotivo, a família mantinha-se alheia às suas reformas e brigas políticas, nelas não se envolvendo. Quando Mário morreu, Cina continuou na chefia dos populare e casou sua filha com César, na época recém saído da adolescência e sobrinho do seu falecido aliado.

Os jovens nobres casavam assim que podiam procriar e César casou aos dezesseis
anos com a filha do então ditador Cina. Escultura romana "O Casamento"

Como todo jovem da alta aristocracia, César teve educação esmerada. A diferença é que ele era não só bonito e elegante como inteligente e estudioso. Além disso era bom desportista e se saía bem na equitação, natação e esgrima. Quando casou, dominava o latim, o grego e conhecia o que de melhor havia em história, filosofia e literatura. Sua simpatia, cultura e elegância trouxeram-lhe imediato sucesso social, e poucos anos depois do casamento ele jogou-se em turbilhão de aventuras galantes com damas da alta sociedade, fazendo-o ganhar o jocoso apelido de marido de todas as mulheres. Mas isso o prejudicou porque alguns maridos enganados ameaçaram processá-lo por devassidão e ele embarcou às pressas para uma longa viagem pelo Oriente, onde foi recebido como refinado príncipe romano pelos reis aliados de Roma. O luxo e a licenciosidade das cortes orientais o fizeram entregar-se à mais total libertinagem, que chegou ao ápice quando o belo e efeminado rei da Bitínia por ele se apaixonou e tornou-se sua “rainha”.

No Oriente não se dava importância à homossexualidade, mas em Roma era coisa grave e vergonhosa. Também não se descarta a possibilidade de que tudo não tenha passado de calúnia, pois devido à aversão que os romanos tinham à sodomia era usual eles se insultarem atribuindo aos inimigos a infame prática. Verdade ou mentira a história espalhou-se e o escândalo foi enorme, mas devido a sua fama de mulherengo ele apareceu como polo ativo da insólita "relação". Com isso não se conformaram os maridos enganados e espalharam que a verdade era outra: César é que se tornara a “rainha” do reizinho e não o contrário! Por isso ao seu apelido de marido de todas as mulheres adicionaram o de mulher de todos os homens! Diante do escândalo, a sua nobilíssima família ficou horrorizada e mandou que ele se recolhesse ao anonimato, indo estudar em alguma escola grega de filosofia por uns tempos.

Quando voltou, Roma passava por uma de suas habituais graves crises políticas e não havia tempo nem lugar para frivolidades. Os escândalos estavam esquecidos e César foi bastante esperto para reiniciar sua vida social com toda a discrição e sobriedade de que era capaz quando necessário, mas continuou sua carreira de incorrigível mulherengo, só que agora usando de máximo disfarce e prudência.

César ao redor dos trinta anos de idade no início de sua carreira
         
Quando seu pai faleceu, ele herdou-lhe a enorme fortuna e o cargo de senador. Seus novos colegas não lhe deram importância porque o julgavam apenas um jovem dissoluto e irresponsável, mas ele pensava diferente e jogou com a sua enorme simpatia e poder de sedução para obter livre trânsito entre conservadores e liberais. Também passou a discursar sobre assuntos do interesse geral e que não criavam dissensos, coisa que o tornou mais simpático ainda. Para surpresa de todos, César revelou-se ótimo orador e ambos os partidos passaram a disputá-lo, mas ele se manteve neutro e buscou eleger-se para um cargo público importante.

Por essa época caiu nas boas graças do nobre Crasso, detestado por sua avareza e crueldade, porém era o homem mais rico de Roma e com o seu auxílio César buscou um cargo que lhe desse projeção, mas que não fosse muito difícil de alcançar. O menos disputado era o de Pontifex Maximus porque além de não ter poder político forçava o titular a custear dispendiosas cerimônias religiosas em dias especiais. Por isso o davam como prêmio de consolação a algum velho e rico senador que prestara bons serviços ao grupo dominante e queria ser recompensado com uma nobre honraria. César, apesar de jovem e de não ter boa reputação, conseguiu o cargo sem grande dificuldade e logo lhe deu nova dimensão. Além de presidir com pompa as cerimônias habituais, ressuscitou outras esquecidas, o que lhe deu excelente conceito entre os conservadores por seu "apego às velhas tradições". Também passou a visitar os templos com vistosas vestes talares e brilhantes comitivas em dias de grande afluência popular, coisa que lhe deu visibilidade e prestígio entre o povo. Com habilidade botou os sacerdotes na linha e fiscalizou severamente as rendas dos templos, não só para custear as muitas cerimônias com o esplendor de antigamente como para manter e consertar templos em sério estágio de deterioração. Por outro lado o aumento das rendas religiosas lhe permitiu criar uma rede de assistência aos pobres, às viúvas e aos órfãos, de sorte que além de agradar os conservadores com o seu "amor à tradição" ganhou o aplauso do povo e dos liberais.

Ao findar o seu mandato César era um dos políticos mais populares de Roma e o Senado lhe deu a incumbência de ir pacificar a Espanha, onde estavam ocorrendo graves distúrbios. Contam que lá vira uma estátua de Alexandre Magno e começara a chorar; quando lhe indagaram a causa do choro ele respondera: “Na minha idade Alexandre já conquistara o mundo, mas tudo que eu conquistei até agora foi um bando de mulheres e um cargo público de segunda classe”!

O cargo de Pontifex Maximus era importante, mas tinha significado apenas religioso.
Anos depois tornou-se privativo do imperador. Estátua de Augusto no seu exercício 

Ao voltar, decidiu que não havia mais tempo a perder, pleiteando e obtendo várias magistraturas, entre as quais o importante cargo de Tribuno do Povo. Em sua origem ele era privativo dos plebeus, mas com o passar dos séculos veio a ser exercido também por nobres simpáticos à plebe. O tribuno do povo não só podia vetar leis do senado referentes à plebe como podia fazer parar agressões que um nobre estivesse a praticar contra um plebeu; para tanto lhe bastava levantar a mão direita e a pena de morte era aplicada a quem o desrespeitasse. Por isso sua pessoa era sagrada! Seus poderes tinham sido diluídos porque, com o crescimento da cidade, agora havia vários tribunos do povo e o poder de veto só podia ser exercido por decisão unânime deles, mas a sacralidade de sua pessoa e o seu poder de parar agressões continuavam intactos. O grande problema era que o titular tinha que ser eleito pela plebe, mas para César isso não era difícil devido à sua popularidade e foi eleito. Ele fez o máximo para continuar com a sua política conciliatória, mas o cargo o obrigava a defender as reivindicações populares e isto o aproximou dos liberais, afastando-o dos conservadores.

O cargo de Tribuno do Povo era importantíssimo e seu titular era sagrado, mas era muito
perigoso porque defendia interesses populares opostos aos da aristocracia

Apesar de ser um genuíno membro da alta aristocracia, coisa que naturalmente o inclinaria para o partido conservador (optimate), ele optou pelo outro lado e em pouco tempo todos já o tinham como um dos líderes do partido liberal (populare), mas apresentava suas propostas com tanta simpatia e maestria que a maioria dos conservadores também as apoiava e ele vencia sem deixar mágoas. Por essa época tornaram-se célebres as suas disputas oratórias com Cícero, um dos maiores oradores de todos os tempos e líder dos ultraconservadores, o qual passou a ver em César um grande perigo, mas a gentileza deste sempre o desarmava e criava entre eles um ambiente bastante cordial.

Cícero era o maior orador da sua época e um dos maiores de todos os tempos, mas
não metia medo a César, que no senado o enfrentou de igual para igual

Suas relações com Cícero ficaram bastante tensas quando este era cônsul e ocorreu a revolta do senador Lúcio Catilina, apoiada pela ala radical do partido populare. Durante a fase preparatória da revolta vários partidários de Catilina foram presos, e em seu julgamento perante o senado Cícero pediu para eles a pena de morte. César apoiara Catilina contra Cícero nas eleições do ano anterior para o cargo de Cônsul, mas não se envolvera na conspiração e procurando apaziguar os ânimos fez veemente defesa dos acusados, alegando que represálias extremas só serviriam para tornar inevitável a iminente guerra civil. Por isso advogou pena mais branda, que não deixando impune o crime também não deixasse indefesa a República, mas suas sensatas palavras não foram ouvidas e os réus foram executados. Isto lhe serviu de advertência, fazendo-o afastar-se do turbilhão reinante, mas quando a revolta explodiu ele a desaprovou e ficou discretamente ao lado dos conservadores, caminho que também foi seguido por seus colegas liberais moderados. Isso não melhorou suas relações com Cícero, mas atenuou muitas das mútuas graves desconfianças até então existentes.

Passada a tormenta, tudo pareceu voltar ao normal, mas Cícero cometera graves arbitrariedades e foi chamado a responder por elas após findar seu mandato, sendo condenado ao exílio perpétuo na Grécia. Embora apoiasse o processo contra Cícero, César discordara da pena severa e advogara na surdina a anistia do grande orador. Quando ela foi aprovada, Cícero lhe ficou muito grato e passou a manter com ele relações bastante cordiais, tanto no campo intelectual como no campo político, embora o seu excessivo conservadorismo o mantivesse sempre em guarda contra o liberalismo de César, mesmo sendo ele moderado e bastante aceitável pelas elites.
            
César já era um dos políticos mais eminentes de Roma quando decidiu patrocinar a carreira política de um até então obscuro jovem senador ligado aos ultraconservadores. Anos antes tivera um ardente caso amoroso com a sua mãe, a nobilíssima viúva Servília, e o conhecera ainda menino, pois o jovem era dezesseis anos mais moço. César afeiçoara-se muito ao garoto, que muitos suspeitavam ser seu filho, pois não descartavam a hipótese de que César fosse mais velho do que dizia e seu romance com Servília datasse de antes da viuvez, somente se tornando público depois. Fato é que quando o rapaz chegou à maioridade e ocupou a vaga de senador do pai, César o manteve entre os seus íntimos. Depois o incentivou a participar ativamente da política e deu-lhe grande apoio, conservando-o junto a si como um dos amigos mais queridos.
         
O futuro grande guerreiro e estadista ainda não sabia, mas enquanto marchava para o poder supremo ele pusera ao seu lado perigosíssima serpente.

O nome do jovem senador era Brutus!



domingo, 20 de março de 2011

Post nº 31

PANORAMA  POLÍTICO-SOCIAL  DE  ROMA  ANTES  DA  ASCENSÃO  DE  CÉSAR


Fundada em cerca de 700 AC, Roma se torna grande potência militar ao derrotar Cartago e os seus batalhões de elefantes em 202 AC na batalha de Zama. Tela de Cornelius Cort (1567)


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As origens de Roma são lendárias, mas calcula-se que tenha sido fundada por volta do ano 700 AC por algumas dúzias de famílias rurais que viviam perto umas das outras e periodicamente reuniam-se em um campo às margens do Rio Tibre para trocarem seus produtos e socializarem. Pessoas de outras partes vieram juntar-se aos locais para comerciar e algumas ergueram casas, logo fazendo do local próspero vilarejo. Com o seu rápido crescimento, surgiu a necessidade de se organizarem politicamente criando um Senado, composto pelos chefes das famílias chamadas Patrícias por serem as “fundadoras da pátria”, e um Rei eleito pelo Senado, sob cuja supervisão exercia o Poder Executivo. Várias famílias vindas de lugares mais distantes estabeleceram-se na vila e, por serem abastadas e terem boas relações com os moradores mais antigos, receberam o status de patrícias e os seus chefes foram eleitos senadores.

A lenda diz que Roma foi fundadada pelos irmãos gêmeos Rômulo e Remo, abandonados em um
                                                             bosque pela mãe e criados por uma loba que os adotou como filhos

Em um século o dinâmico povoado virou próspera cidade e em aproximadamente 600 AC as famílias patrícias já eram mais de uma centena, muito ligadas entre si e enfrentando problemas comuns a todos, os quais tornavam clara a necessidade de reformar a estrutura social e política da pátria. Assim, de acordo com o maior ou menor grau de parentesco, as famílias foram agrupadas em Gens e estas em Tribos, reunindo-se cada Tribo em assembléias chamadas Comícios onde eram eleitos os magistrados da cidade.

Com a reforma proibiu-se aos que chegassem dali em diante serem admitidos no Senado e as suas famílias listadas no rol das famílias patrícias mesmo que fossem ricas e poderosas, de sorte que os novos moradores passaram a constituir uma classe inferior destituída de direitos políticos e que recebeu o nome de Plebe. Todavia os plebeus também eram “cidadãos” por morarem na cidade, mas por não terem direitos políticos não participavam do governo, embora gozassem da proteção da lei e tivessem os mesmos Direitos Civis comuns a todos os cidadãos.

Por essa época Roma já crescera bastante e possuía cerca de dez mil habitantes, sem contar os escravos, e tivera que enfrentar o seu primeiro conflito político sério. Desde a sua fundação ela fora governada por um Rei que, embora eleito pelo Senado e a ele teoricamente submetido, transformara-se em monarca absoluto, pois os Senadores viviam mais em suas fazendas e somente se reuniam quando havia assuntos muito importantes. Isto tivera pouca importância enquanto a cidade fora pequena porque os serviços administrativos eram mínimos e as guerras eram conduzidas pelos próprios cidadãos, que se organizavam em exército e elegiam os seus oficiais, mas quando a cidade cresceu e a necessidade de serviços administrativos aumentou o cargo de Rei tornou-se proeminente. Porém numa cidade onde todos os membros da classe dominante se julgavam igualmente importantes, um rei autoritário e arrogante era inadmissível. Assim, revoltaram-se e extinguiram a monarquia, substituindo-a por dois Cônsules eleitos pelo senado anualmente e fazendo do poder monopólio senatorial, criando dessa forma um sistema republicano aristocrático.


Por volta de 500 AC os nobres romanos depuseram o rei Tarquínio o Soberbo e criaram uma república
          aristocrática cujo órgão supremo era o senado vitalício e hereditário

Passando por numerosas crises devido ao sempre subjacente conflito entre patrícios e plebeus, o sistema republicano funcionou bem durante quatrocentos anos porque os aristocratas foram flexíveis para reformá-lo nos momentos de grave necessidade social e política, mas no dia a dia conflitos pessoais eram resolvidos por um sofisticado sistema de regras jurídicas, conhecidas por todos a partir da publicação da "Lei das Doze Tábuasem aproximadamente 400 AC, e os conflitos sociais por engenhosos expedientes políticos, tipo admitir no Senado um plebeu rico e influente, inscrevendo sua família no rol das famílias patrícias. Tratavam o assunto com grande solenidade, proporcionando ao novo senador e à sua família enorme orgulho, ao mesmo tempo em que faziam ver aos demais plebeus tão ricos quanto o escolhido que qualquer deles poderia ser nobilitado desde que fosse amigável e se entrosasse bem com a classe dominante. Também criaram um colchão amortecedor constituído por uma nobreza intermediária chamada Ordem Eqüestre”, na qual admitiram como “Cavaleiros todos os plebeus importantes. Embora não participassem do Senado, os cavaleiros e seus familiares podiam exercer altas magistraturas e casar com membros da Ordem Senatorial”, faculdade negada aos plebeus comuns. Entretanto, lhes foram dados muitos direitos, fazendo com que por volta de 100 AC o conflito entre patrícios e plebeus perdesse importância face a novos graves problemas que ameaçavam a estabilidade da República.

Aníbal o Cartaginês cruzou os Alpes com seus elefantes em 219 AC para atacar Roma e ela se tornou
                             grande potência militar para enfrentá-lo. Gravura de autor anônimo (séc. XIX)

O primeiro fora a transformação de Roma em gigantesca potência militar após a sua decisiva vitória sobre Cartago na batalha de Zama (202 AC). A derrota da sua poderosa rival permitiu-lhe dominar quase toda a bacia do Mediterrâneo, exceto Gália e Egito, mas as nações do Oriente Próximo tornaram-se suas aliadas e em pouco tempo nada mais eram que protetorados. Roma, portanto, tornara-se riquíssimo e poderoso Império, mas isto custara-lhe grave sangria nas hostes da nobreza e da plebe, que ela corrigiu preenchendo os claros da Ordem Senatorial com a Ordem Eqüestre e os desta com membros importantes da plebe. Esta, por sua vez, preencheu seus claros com gente vinda de todas as partes da Itália em busca de uma vida melhor na capital do Império.

No decorrer do século II AC todos os italianos tornaram-se cidadãos romanos, de sorte que não houve problema de falta de cidadãos. Isto fez com que a cidadania romana passasse a ser concedida com grande parcimônia aos vindos de fora da península itálica e ela se tornasse uma grande honraria para estrangeiros ansiosos por adquirirem as boas graças dos novos senhores. A súbita mobilidade social enfraquecera a velha estrutura política criando sérios problemas, pois, ao mesmo tempo em que os recém-chegados eram acolhidos no seio da sociedade romana, os seus costumes e cultura diferentes faziam o seu patriotismo duvidoso e visto com grande suspeita dado a alta dose de oportunismo que motivara a sua recente inclusão nos quadros sociais da República.

O segundo fora a criação do exército profissional, pois um exército patriótico e voluntário de cidadãos não era mais possível face às novas realidades. Sendo um corpo altamente organizado, cuja independência da sociedade só não era total porque os oficiais vinham da nobreza e eram nomeados pelo Senado, a fidelidade do exército a alguns chefes passou a ser importante no jogo do poder.

O terceiro fora a questão eleitoral. Calcula-se que em 100 AC havia cerca de quatrocentos mil cidadãos romanos sui juris (independentes da autoridade paterna), sendo cem mil na cidade e o restante na península italiana. Dos citadinos só um décimo era nobre (senador ou cavaleiro) e podia ocupar altos cargos, mas como os plebeus comuns votavam, embora não pudessem ser votados, eles passaram a votar em quem pagasse mais ou fosse mais popular, de sorte que uma enorme disputa por popularidade se criou dentro da nobreza e o vencedor foi Mário, ótimo general e político popularíssimo. Ele era um cavaleiro vindo da plebe rica que se tornara patrício ao casar com uma tia de César, pertencente à nobilíssima Gens Julia, e fez várias reformas liberais, tornando-se odiado pelos conservadores e tendo que enfrentar terríveis guerras civis. Quando morreu, foi sucedido por seu aliado Cina, mas algum tempo depois os ultra-conservadores, liderados por Sila, tomaram o poder e anularam a maioria das reformas, causando guerras civis ainda mais cruéis e sanguinárias.

Mário, tio de César, foi um dos mais populares generais e líderes de Roma. Suas
                     políticas eram odiadas pelos conservadores e muito influenciaram César

O quarto fora o grande aumento do número de escravos, resultante das várias guerras ao fim das quais os inimigos prisioneiros eram escravizados e vendidos como mercadoria, gerando grandes lucros para o Erário, para os captores e para os intermediários. Patrícios, cavaleiros e plebeus ricos envolveram-se no torpe negócio e ganharam rios de dinheiro, mas o número exagerado de escravos causou revoltas, como a do gladiador de Spartaco em 72 AC que abalou as bases da República. 

                          O grande conflito social nos primeiros séculos de Roma fora entre patrícios e plebeus, mas
                                                                      no II século AC ele foi eclipsado pelo conflito agrário

O quinto e último fora o mais grave de todos: pequenos proprietários rurais que não podiam concorrer com os grandes por não possuírem escravos em número suficiente para produzirem em grande escala e a baixo custo! Em conseqüência, vendiam suas pequenas propriedades aos vizinhos maiores e emigravam para a metrópole onde iam viver miseravelmente como plebeus pobres. Por outro lado, os proprietários ricos se tornavam donos de imensos latifúndios, cultivados por exércitos de escravos, e com a riqueza adquirida logo se cansavam da vida rural e punham um administrador à testa do negócio, indo viver luxuosamente nas cidades.

O resultado da concentração da propriedade da terra na mão de poucos e da ida destes para a cidade foi a vertiginosa queda da produção agrícola, criando escassez, carestia e agravando as duras condições de vida dos cidadãos despossuídos. Dessa forma, com a classe alta e a classe baixa reduzidas à ociosidade na grande metrópole, uma no luxo e a outra na miséria, Roma parou de produzir e passou a viver como parasita à custa da exploração das nações dominadas, ao mesmo tempo em que as lutas pelo poder no seio da aristocracia aprofundavam ainda mais o fosso entre ricos e pobres, pondo em risco a estrutura sócio-política do Estado.

        Ao virar Império Roma enriqueceu e sua classe alta trocou casas simples por mansões ricamente
                                          decoradas como esta achada nas ruínas de Pompéia (século I DC)

O resultado de tudo isso foi que Roma, apesar de rica e poderosa, degradou-se social e moralmente, fazendo com que os mais sábios e prudentes percebessem que estavam sobre um vulcão que a qualquer momento explodiria levando tudo pelos ares. Todavia, os nobres conservadores, satisfeitos com a ótima vida que levavam, não viam por que mudar algo que lhes era tão benéfico e perseguiam ferozmente os nobres liberais que estavam sempre pregando a necessidade de reformas, clamando para que se as fizesse antes que o próprio povo tomasse as rédeas nas mãos e as fizesse por conta própria. A nobreza, portanto, estava severamente dividida entre liberais (populare) que queriam reformar a sociedade e conservadores (optimates) que queriam manter tudo como estava. Por enquanto o povo era apenas espectador, mas as coisas logo poderiam mudar. 

Nos anos 90 do século I AC o vulcão explodiu e Roma mergulhou em tremenda guerra civil, tendo de um lado os populare, liderados por Mário, e do outro os optimates, liderados por Silla. A luta foi impiedosa e massacres de parte a parte tornaram-se comuns. Os ferozes inimigos travaram batalha após batalha, vencendo umas e perdendo outras, ao mesmo tempo em que alternavam-se no poder por breves períodos. Estes eram sempre seguidos de terríveis matanças de adversários, o que fez correr rios de sangue em Roma, na Itália e nas províncias. Após uma década de luta, todos estavam enlutados, exaustos e empobrecidos, ansiosos para por um fim à tragédia, e esta terminou quando os líderes inimigos Mário e Silla morreram em um intervalo de poucos anos, firmando-se uma paz precária nos anos 80 AC. Mas as causas do sangrento conflito não tinham sido solucionados e por baixo das cinzas da aparente calmaria as brasas dos antagonismos continuavam a arder. Mais cedo ou mais tarde um novo incêndio voltaria a alastrar-se, e foi nesse cenário social e politicamente explosivo que César começou a sua extraordinária carreira.



NOTA: Chamam-se "Guerras Púnicas" as travadas entre Roma e Cartago pela supremacia do Mediterrâneo Ocidental. Elas começaram em meados do século III AC e terminaram em meados do século II AC com a derrota e destruição de Cartago, cujo povo de origem fenícia chamava-se "Púnico". As suas ruínas ficam nos arredores da atual cidade de Tunis, que na antiguidade também chamou-se Cartago depois da destruição da grande metrópole. Ela trocou de nome na Idade Média.

 


           

terça-feira, 15 de março de 2011

Post nº 30

O  ASSASSINATO  DE CÉSAR
Roma era uma república aristocrática governada por um senado de nobres hereditários, mas suas sessões
às vezes eram tumultuadas e violentas. César foi assassinado durante uma delas

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César foi assassinado com vinte e sete punhaladas em plena  sala de sessões do Senado Romano por um grupo de conspiradores, entre os quais estavam vários amigos e protegidos seus. Ele dispensara a guarda regulamentar e chegara acompanhado apenas de senadores que secretamente conspiravam e que o tinham ido buscar em casa para matá-lo no senado logo que chegassem, dando ao crime conotação política. Tudo ocorreu como planejado. Assim que chegou à sala de sessões outros conspiradores o cercaram fingindo apresentar-lhe petições para distraí-lo e enquanto conversavam um deles o apunhalou pelas costas. Ferido, tentou defender-se, mas os outros sacaram dos punhais e o golpearam repetidas vezes até matá-lo. Havia cerca de duzentos senadores presentes e eram seus partidários na grande maioria, mas tomados de surpresa e desarmados, pois era proibido entrar com armas no senado, correram ou ficaram petrificados em seus lugares ouvindo os discursos dos assassinos enquanto o cadáver de César jazia aos pés da estátua de Pompeu, seu falecido rival.


Ao dar início à conquista da Gália aos 42 anos de idade César
ainda era um homem bonito e sedutor
      
O ditador estava com cinquenta e seis anos e ocupara todos os cargos relevantes da República. Era um fino e simpático aristocrata, muito sedutor, elegante homem de sociedade, talentoso escritor, hábil político, brilhante orador e, o mais importante de tudo, grande general e extraordinário estadista. Por suas vitórias militares o senado lhe dera quatro vezes as honras de desfiles triunfais e o título honorífico de Imperator (Imperador), que significava general vitorioso que impera sobre os inimigos da República. Sua enorme popularidade o elegera e reelegera várias vezes para os mais importantes cargos, dentre os quais destacavam-se os de Pontifex Maximus, autoridade religiosa suprema a quem competia fiscalizar os sacerdotes, cuidar dos templos e presidir as festividades religiosas, Tribuno do Povo, porta-voz dos reclamos populares com poder de veto sobre decisões do senado e cuja pessoa era sagrada, Consul, suprema autoridade executiva civil e militar, e finalmente Ditador, cargo que o dispensava de qualquer controle senatorial. Mas mesmo como ditador César fazia questão de despachar em público e discutir as decisões com os colegas, de forma  que ao serem adotadas elas tivessem o respaldo da maioria. Só quando o dissídio era profundo é que ele usava dos seus poderes supremos e impunha a sua vontade aos recalcitrantes, mas isso raramente acontecia e o seu modo de governar conquistara a todos, fazendo-os se pouparem do trabalho de reelegê-lo ao fim de cada mandato nomeando-o de uma vez por todas Ditador Vitalício.

Todos se sentiam satisfeitos com o popular imperator porque povo e aristocracia estavam cansados de cinquenta anos de guerras civis e disputas pelo poder que só tinham produzido morte, destruição e miséria. Ele trouxera de volta a paz e a prosperidade, o que agradava aos senadores e ao povo, pois tinham na sua falta de arrogância, simplicidade, competência e generosidade a garantia de que não usaria o poder absoluto de forma tirânica e abusiva, mas apenas para o bem da República. A prova disso é que o cargo não alterara o seu procedimento simples e cordial, pois andava pelas ruas de Roma com os amigos sem qualquer aparato, a não ser a guarda regulamentar, saudando as pessoas e sendo por elas saudado, muitas vezes com grandes efusões bajulatórias, coisa que não o agradava.  Quando lhe vinham com petições ele as passava a um assessor dizendo gentilmente que logo teria uma resposta.

Apesar de ditador e membro da alta aristocracia romana, César não hesitava
estar com o povo e assistir o carnaval nas ruas de Roma
              
No carnaval romano, ocorrido um mês antes do crime, apesar de não ser carnavalesco ele fora assistir a brincadeira nas ruas em companhia de amigos. Foi nessa ocasião que o inveterado farrista Marco Antônio, seu amigo íntimo, passara com um bloco de foliões fantasiados de bode e quisera coroá-lo “Rei do Carnaval”. Educadamente recusara a ridícula “coroa” e os foliões se foram, bebendo, troçando, estalando chicotes e entoando canções pornográficas. Mais tarde criou-se a lenda de que ele queria ser “rei” e mandara Marco Antonio oferecer-lhe a “coroa” durante os festejos, mas “os protestos do povo” o tinham feito recusar.

Porém em meio à satisfação geral alguns aristocratas invejosos e descontentes tramavam, alegando que as antigas Leis da República não previam o cargo de “Ditador Vitalício”. Portanto o mesmo era “inconstitucional” e uma ameaça às “liberdades dos cidadãos”, provando apenas a insaciável sede de César por mais poder. Na verdade, o que eles temiam eram as reformas que estavam sendo discutidas, tais como a redistribuição de terras ociosas públicas ou particulares em mãos de latifundiários que as usurparam ou as possuíam apenas para especular. Outras seriam a redução e tabelamento dos aluguéis urbanos e dos juros; o abatimento dos pequenos débitos e o razoável parcelamento dos grandes; a extinção das hipotecas sobre pequenas propriedades rurais e modestas casas residenciais; a impossibilidade de reduzir o cidadão à condição de escravo por dívidas, etc.

César estava no ápice da carreira e planejava grandes reformas políticas
e sociais quando foi assassinado pela oposição conservadora
          
Após o carnaval começaram a circular em Roma boatos de que um golpe de estado estava em andamento. Adivinhos profetizavam que uma grande desgraça iria acontecer, pois um cometa surgira no céu, um flamejante meteoro cruzara o espaço, ocorrera uma chuva de estrelas, etc. Augures sacrificavam animais e liam em suas entranhas sinistros presságios sobre a morte violenta de um grande romano, possivelmente o “pai da pátria”. Poucos dias antes do crime, quando o ditador passava na rua em sua liteira, um augure lhe gritara “César! Cuidado com os idos de março”, o que significava “cuidado com o dia 15 de março”. Isto mostra que a conspiração se tornara um segredo de Polichinelo, pois quase todo mundo sabia e só quem parecia não saber era César.

Na madrugada do dia 15 de março de 44 AC a sua esposa Calpúrnia acordou assustada com os trovões e relâmpagos de uma chuvarada que caía sobre Roma e lhe disse que tivera um horrível sonho, no qual o via cheio de ferimentos e ensangüentado. Suplicou-lhe que não saísse naquela manhã e ele a atendeu, mandando informar ao Senado que estava adoentado e não iria à sessão. Porém logo depois um grupo de “amigos”, todos conspiradores, o visitou pretextando “saber da sua saúde” e disseram-lhe que um mero incômodo não justificava ao “grande César privar os amigos da sua presença no debate de importantes matérias que seriam depois submetidas à sua aprovação”.

Ele finalmente aquiesceu à insistência dos “amigos” e resolveu ir desarmado e sem sequer vestir uma cota de malha sob a toga. Para completar, dispensou a guarda e foi sozinho em sua liteira, acompanhado apenas dos “amigos” que o seguiam a pé conversando animadamente. No caminho, um cidadão anônimo aproximou-se e lhe entregou um documento, que ele não abriu e nunca leu.

Depois do crime o acharam na liteira onde ele o deixara ao chegar ao Senado: era a denúncia por escrito da conjuração, detalhando o plano sinistro e listando os nomes de todos os conjurados!


Nota: a maioria dos historiadores nega a César o título de 1º imperador de Roma, apesar do Senado lhe ter conferido o título vários vezes, e o atribuem ao seu sobrinho Augusto. Mas os poderes deste não eram superiores aos daquele e os imperadores romanos não eram chamados de Imperador, mas de César, fazendo do seu nome latino "Caesar" título. Dele derivaram Czar em russo e Kaiser em alemão, ambos significando imperador. Por isso sustento ter sido César o 1º imperador romano.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Post nº 29

CLEÓPATRA  E  OUTROS  FAMOSOS  PERSONAGENS  DA  ANTIGUIDADE

VERDADES  E  MENTIRAS

Cleópatra se suicida fazendo-se picar no seio por uma serpente. Detalhe
de tela de Hans Makart (1875)

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É comum circularem versões errôneas e fantasiosas sobre episódios e personagens históricos importantes que, por serem muito populares devido às mídias antigas e modernas, especialmente as atuais mídias cinematográfica e televisiva, produzem na pessoa uma falsa visão do passado e danificam a solidez da sua cultura. Ademais, destroem a validade da História como mestra da vida, tornando-a vulgar e superficial. Por isso chamamos essas falsas versões de MENTIRAS CÉLEBRES e aqui mostraremos algumas dessas falsidades que povoam o imaginário popular e até mesmo os nossos conhecimentos de História. Vejamos:

1ª MENTIRA - Cleópatra é a egípcia mais famosa da história!

Cleópatra é uma das mulheres mais famosas da história, mas apesar de ter nascido no Egito e de ter reinado sobre o país ela não era egípcia e nada tinha a ver com o povo e com a cultura do Egito! Na verdade ela era da família grega Lágida e a língua oficial da sua corte era o grego, tendo governado o Egito como membro da dinastia grega dos Ptolomeus, entronizada no poder pelo conquistador grego Alexandre Magno dois séculos e meio antes dela. Sua capital Alexandria, fundada pelo conquistador, era uma cidade grega plantada na foz do rio Nilo onde a língua e a cultura dominantes eram o grego, pois era habitada pelos descendentes dos milhares de famílias que foram trazidas da Grécia voluntariamente ou a força para construir a cidade. No decorrer do tempo muitas famílias egípcias para ela também emigraram e nela se estabeleceram, mas adotaram o idioma e a cultura grega por imitação ou conveniência, seja porque tratava-se de cultura mais avançada, seja porque ela lhes dava melhores condições para subir na escala social, econômica e política dentro da situação reinante. Mas para mérito de Cleópatra deve ser ressaltado que ela foi uma das únicas soberanas da sua dinastia que não tratou o Egito como terra conquistada e procurou ser sua rainha em toda plenitude, ao invés de ser apenas a líder de uma força de ocupação. Por isso não só estudou e aprendeu o idioma egípcio como aprendeu também a ler e a escrever os hieróglifos, introduzindo os deuses egípcios na sua corte e ela própria identificando-se para gregos e egípcios como sendo a deusa Ísis, acrescentando o poder divino ao poder majestático. Por isso mandou esculpir muitas estátuas e entalhes retratando-a no papel de Ísis, o que lhe deu enorme poder e popularidade perante a população nativa.             
2ª MENTIRA – Cleópatra se suicidou fazendo-se picar no seio por uma serpente! 

Morte de Cleópatra segundo a lenda. Tela de Reginald Arthur (1896)
   
Nenhum historiador da época descreve o modo como Cleópatra se suicidou. A versão de que o suicídio se deu pela picada de uma serpente surgiu anos depois para dizer que sendo ela tão perigosa quanto uma serpente fez-se matar pela picada de uma delas. A lenda também pode ter derivado do fato da coroa dos reis do Egito ter na fronte figura de venenosa serpente em posição de ataque. Um século após sua morte, a lenda assumira foros de verdade e Plutarco, historiador grego que escreveu século e meio depois dos fatos, a consagrou como fato histórico verídico. Quinze séculos mais tarde, Shakespeare baseou-se na versão de Plutarco para escrever a peça Antônio e Cleópatra, conferindo-lhe excelente efeito dramático. Nos séculos seguintes, pintores famosos pintaram quadros retratando o episódio, popularizado no século XX pelos filmes de Hollywood. Mas além de inverídica, tal versão é absurda. Serpentes são seres repulsivos e uma mulher sofisticada como Cleópatra jamais poria as mãos numa delas para deliberadamente sofrer a dor de uma picada fatal! Creio que ela suicidou-se como qualquer mulher refinada de alta classe faria: recostada languidamente em luxuosas almofadas e bebendo uma taça de vinho finíssimo, temperado com algumas gotas de veneno rápido e indolor.


3ª MENTIRA – Péricles, que deu a Atenas a época de seu maior esplendor, governou em paz e era idolatrado pelos atenienses!

Péricles era hábil político e ótimo administrador, mas sofria forte oposição por seus excessivos gastos. Com
o dinheiro arrecadado de todas as cidades gregas (Liga de Delos) construiu o Paternon
         
Péricles governou sob grande pressão e só se manteve no poder porque era um político habilíssimo. A oposição era forte e aguerrida, chegando a processar sua erudita amante Aspásia porque ela recebia intelectuais em sua casa para brilhantes reuniões, coisa que em Atenas era vedado às mulheres. Ela só escapou porque Péricles fez de tudo para absolvê-la. O mesmo aconteceu a Fídias, o arquiteto que construiu o Parthenon. Visando atingir Péricles, acusaram Fídias de roubar o ouro destinado ao Templo e ele quase foi condenado. A oposição era liderada por um curtidor de couros populista que acusava Péricles de gastar o dinheiro do povo em extravagâncias como o Parthenon e de covardia perante Esparta. Quando veio a guerra e houve derrotas, Péricles quase foi derrubado, mas ficou no poder até morrer durante uma epidemia. O curtidor de couros tomou o seu lugar e Esparta derrotou Atenas.
          
4ª MENTIRA – Por ser Atenas uma democracia, suas mulheres gozavam de maior liberdade e autonomia do que em outros lugares da Grécia!

Pintura mural antiga representando Sapho, princesa da ilha de Lesbos
na Grécia jônica. Foi a mais célebre poetisa da antiguidade.

Atenas era uma das cidades gregas onde as mulheres eram mais maltratadas. Em Esparta, que era uma ditadura aristocrática, as mulheres gozavam de muito mais liberdade e autonomia. As espartanas quase se igualavam aos homens, pois recebiam a mesma educação e treino para a guerra. As grandes poetisas gregas, como Sapho e Corina, eram da Jônia, onde as mulheres eram melhor tratadas que em Atenas.
         
5 ª MENTIRA – Sócrates era um sábio, mas também era devasso e blasfemo, pois foi condenado à morte por corromper a juventude e insultar os deuses!

Quadro célebre sobre a execução de Sócrates. Enquanto ele dá sua última aula de filosofia aos chorosos
discípulos, extende a mão para a taça de cicuta que lhe é apresentada pelo carrasco
Sócrates tinha vida morigerada, era bem casado e embora a esposa o acusasse de malandragem trabalhava duro como parteiro e até como pedreiro. Era uma figura popular nas ruas e praças de Atenas, pois nas folgas perambulava conversando, discutindo e vexando seus interlocutores para divertimento dos demais. Quando um jovem rico e erudito o conheceu, disse aos amigos que “descobrira um gênio”! Todos foram vê-lo e ficaram convencidos, tornando-se seus discípulos. Logo ele virou comensal das mansões ricas, mas recusava dinheiro por suas lições. Tudo indica que os novos amigos o davam à sua esposa, pois ela parou de se queixar e concedeu ao marido o tempo que dele exigiam. Foi aí que surgiram os problemas, pois com a fama vieram as invejas e calúnias. Embora não fosse político, ele criticava as instituições e os governantes, sobretudo depois da sucessão do refinado Péricles pelo grosseiro curtidor de couros que levara Atenas ao desastre. Por fim, seus inimigos o levaram à Justiça por “zombar dos deuses e perverter os jovens com idéias subversivas”. A acusação era descabida, mas ele ofendera muita gente e o tribunal o condenou a morte, mas reduziu a pena à pesada multa, concedendo-lhe a faculdade de fixá-la de acordo com a sua alegada alta sabedoria. Ela seria paga mesmo sendo ele pobre, pois tinha ao seu dispor o dinheiro dos discípulos, mas Sócrates ridicularizou o tribunal fixando a multa em valor ínfimo. Os indignados juízes voltaram atrás, ordenando a execução que ele aceitou de bom grado, dizendo que queria descansar e se ver livre de tanta burrice.
          
6ª MENTIRA - A obra de Sócrates revolucionou a Filosofia!

Sócrates, considerado o homem mais sábio da sua época, nada escreveu, mas o
seu discípulo Platão expôs a filosofia do mestre em seus famosos "Diálogos" 

Sócrates não escreveu obra alguma; tudo que sabemos dele deve-se ao rico e nobre Platão, que além de seu discípulo era também seu amigo íntimo, chegando mesmo a oferecer-se para subornar os guardas da prisão e financiar a sua fuga para o estrangeiro, não obstante os riscos que enfrentaria depois. Sócrates recusou o oferecimento do dedicado amigo dizendo que fugir seria desrespeitar a lei, o que mostra o absurdo da pena que lhe fora aplicada por “subversão”. Anos mais tarde, Platão escreveu os seus magníficos Diálogos onde expõe a sua filosofia como sendo as lições que Sócrates ministrava aos alunos. Deve-se elogiar a lealdade e o apreço de Platão ao seu velho amigo, mas é evidente que ele elege Sócrates personagem central dos Diálogos visando obter o máximo de efeito pedagógico e literário para as suas próprias lições, pois a obra tem grande beleza e é de agradabilíssima leitura. Todavia, é inegável que ele deve a sua iniciação filosófica a Sócrates e com ele aprendeu a arte da dialética, que foi incorporada à Pedagogia e à Filosofia com o nome de Método Socrático. Este método é o grande legado de Sócrates à civilização e o que verdadeiramente lhe deu a imortalidade pela pena genial do seu fiel amigo Platão.
          
7ª MENTIRA - César foi assassinado porque queria se tornar Rei de Roma!

Marco Antonio, amigo íntimo de Cesar, era farrista e saía no carnaval com um bloco, bebendo, tocando e cantando. No carnaval de 44 AC ofereceu ao amigo o título de"rei da folia", mas este recusou a "coroa" e nasceu o mito.
           
            Não existe nenhuma evidência histórica de que César quisesse o vazio título de “Rei”. Quando foi assassinado, ele era mais poderoso do que qualquer rei da sua época na Europa ou na Ásia. O vazio título nada acrescentaria ao seu poder ou à sua biografia, pois era ridículo aos olhos dos romanos ilustrados e contrário às tradições de Roma. Como homem culto, hábil político e notável estadista, César sabia que o título lhe traria prejuízos e somente um idiota arrogante o pleitearia. Ele não era idiota e arrogância era uma palavra que não existia no seu dicionário, por que então quereria tal título? Na verdade, tudo não passou de uma tola tentativa dos assassinos de justificarem sua covarde atrocidade: matar um alto magistrado desarmado e sem guardas no recinto sagrado do Senado onde era proibido entrar com armas ou com soldados. César obedeceu à Lei ao ir à sessão desarmado; os assassinos, que diziam defender a "lei" contra a “tirania”, foram com os punhais escondidos sob a toga.

8ª MENTIRA – A prova de que César queria ser Rei está no fato de Marco Antônio lhe oferecer a coroa e ele demagogicamente a recusar para agradar a multidão!


César usava toga púrpura e coroa de louros, mas para simbolizar glória e
poder, não realeza. Após sua morte tornaram-se símbolo dos "Césares"

O fato aconteceu nas Lupercálias, carnaval romano durante o qual os brincalhões elegiam o Rei da Folia, tal como nós elegemos o Rei Momo. César não era carnavalesco, mas assistia a folia nas ruas com seus amigos. Já Marco Antônio saía com um bloco de farristas seminus ou fantasiados de bode, bebendo, tocando bombos, soprando cornetas e correndo atrás das mulheres estalando chicotes, pois se dizia que se fossem atingidas engravidariam. Já bêbado, ele quis coroar César rei da folia", brincadeira que o ditador recusou pelo ridículo da coisa. O fato entrou para o folclore e século e meio depois o historiador grego Plutarco, por ignorar as maluquices do carnaval romano, pensou que o episódio burlesco era coisa séria e o incorporou à biografia de Brutus como uma das razões que o levaram a conspirar contra César. A versão foi popularizada pela peça Júlio César de Shakespeare e o que era falso passou a ser tido como verdade.
          E agora, só para desopilar e contrabalançar as grandes mentiras antigas, vejamos uma grande mentira moderna, hoje disseminada no mundo inteiro pela poderosa mídia americana:
          
9ª MENTIRA - O avião foi inventado pelos irmãos Wright!


Euro-americanos não hesitam mentir para atribuírem-se grandes invenções feitas por outros, como é o caso do dirigível e do avião inventados por Santos Dumont. Aqui vemos o Zeppelin chegando ao Recife em 1932
          
Não existem provas documentais que demonstrem terem os irmãos Wright inventado o avião. Nem mesmo uma pequena notícia de insignificante jornal ou uma ata de Rotary Club da pequena cidade americana onde eles alegam terem feito o primeiro voo com um avião. Todas as provas documentais existentes referem-se ao vôo do brasileiro Santos Dumont no aeroporto de Paris em outubro de 1906 perante multidão que o carregou em triunfo. O extraordinário fato foi amplamente noticiado pela imprensa francesa e mundial, inclusive pela imprensa americana. O Aero Club de França lavrou ata registrando o feito realizado em concurso por ele instituído, promoveu grandes solenidades para homenagear Santos Dumont e ele tornou-se uma das figuras mais populares de Paris. Só depois disso foi que os irmãos Wright apareceram dizendo terem voado primeiro, mas quando fizeram uma demonstração viu-se que o avião não decolava por seus próprios meios, precisando deslizar sobre trilhos e ser impulsionado por uma catapulta que o lançava ao ar. A etapa mais difícil de um vôo com avião é a decolagem e a imprensa ridicularizou os pretensos inventores dizendo que até uma locomotiva voaria se lançada ao ar por uma catapulta. Em resumo: o aparelho voador dos Wright era apenas um “planador com hélices movidas por motor”, as quais o permitiam ficar no ar durante mais tempo! Para piorar as coisas, viu-se que o propósito deles não era o bem da civilização, mas obter lucros com as patentes que tinham conseguido nos Estados Unidos. Os aeronautas europeus da época eram idealistas que não visavam o lucro, mas o aplauso público por contribuírem para o progresso da humanidade, tal como fez Santos Dumont ao doar o seu invento ao povo para uso de todos. Ele recusou-se a comparecer perante a comissão do Aero Club de França criada para decidir sobre o pedido de primazia dos Wright, dizendo que não discutiria com “mercadores da ciência”. O mesquinho interesse empresarial deles os fez alvo de geral desprezo e a comissão indeferiu o pedido por absoluta falta de provas, mas o governo dos Estados Unidos os reconheceu, os premiou e os promoveu ao posto de “inventores do avião”. A poderosa mídia americana fez o resto, tornando verdade o que não passa de uma das maiores mentiras de todos os tempos.