domingo, 27 de fevereiro de 2011

Post nº 28 - LEÔNIDAS E OUTROS MITOS DA ANTIGUIDADE



Célebre quadro do pintor francês Davi retratando Leônidas nas Termópilas (século 18)


          Apesar do grande avanço feito pelos gregos na "ciência da história", cuja criação é geralmente atribuída a Heródoto, a história da antiguidade está recheada de exageros, lendas e mitos que se afastam muito da verdade histórica. Aqui escolhemos alguns dos mitos mais notórios para expor e comentar.

          1 – Os persas invadiram a Grécia três vezes no século 5º AC com exércitos de centenas de milhares de homens!


O exército persa era enorme e tinha recursos materiais imensos, mas não tinha o trinamento, a disciplina,
o armamento e a superior técnica de combate dos gregos


Os historiadores gregos, a começar por Heródoto, exageravam o número de soldados inimigos para exaltarem suas vitórias e justificarem suas derrotas. Números excedendo uma centena de milhares de homens são absolutamente fantasiosos porque não havia recursos logísticos na Grécia capazes de abastecer tanta gente e era dificílimo fazê-lo por mar. Mesmo assim, o exército persa nas três ocasiões era muito maior que o exército grego coligado, que nunca chegou a ter mais de uma dúzia de milhares de homens.

          2 – Na segunda invasão, comandada pelo rei Xerxes, os persas quase foram derrotados nas Termópilas por 300 espartanos comandados pelo rei Leônidas!


O exército grego era pequeno mas suas couraças, escudos, armamentos e técnicas de
combate eram muito superiores aos dos persas

O exército sob o comando de Leônidas tinha cerca de 6.000 homens, mas quando viu que a batalha estava perdida mandou seus aliados escaparem enquanto ele e os seus 300 espartanos detinham o inimigo por algumas horas. Porém os espartanos não foram os únicos que ficaram para combater até o fim, pois 700 guerreiros de Thespis e 400 de Tebas também ficaram. Portanto, o último baluarte dos gregos totalizava 1.400 homens e não apenas os "300 de Esparta". Como visto, os espartanos eram uma pequena minoria entre os últimos defensores, mas a história foi generosa com eles e preservou-lhes a memória, esquecendo os outros que também sacrificaram suas vidas na luta final. O ato foi de extraordinária nobreza porque espartanos, thespianos e tebanos deram suas vidas para que os demais sobrevivessem, mas não foram eles os únicos que enfrentaram com sucesso os persas durante a maior parte da batalha: a notável façanha foi de todo o exército grego de 6.000 homens. Os persas, porém, não estiveram a altura da ocasião e não demonstraram nenhuma grandeza, porque, ao invés de honrarem os seus valorosos adversários vencidos, jogaram seus corpos nus ribanceira abaixo no mar. Quanto a Leônidas, espetaram sua cabeça numa lança e crucificaram seu corpo decapitado, passeando entre as tropas com os despojos sangrentos do seu bravo inimigo para que a vil soldadesca o ultrajasse da forma mais baixa e indigna. Os persas venceram, mas não mereceram.
         

 3 – Atenas foi o berço da civilização grega!


Atenas atingiu seu apogeu econômico e militar no século 5º AC e tornou-se o centro cultural da Grécia. Antes ele estava nas cidades gregas das ilhas jônicas e do litoral da Ásia Menor.

O berço da civilização grega não foi a Ática, região que tinha Atenas por capital, mas a Jônia, região que abrangia as ilhas do mar Egeu e importantes cidades da Ásia Menor, como Mileto, Pérgamo e Éfeso. A antiga Grécia estava dividida em vários grupos populacionais ligados pela mesma cultura, religião, costumes e idioma, sendo os principais os Jônicos, os Áticos, os Beócios, os Macedônicos e os Dóricos, definidos em função das suas respectivas regiões. Homero, o 1º grande poeta, Sapho, a 1ª grande poetisa, Thales, o 1º grande filósofo, Hipócrates, o 1º grande cientista, e Pitágoras, o 1º grande matemático, eram jônicos. Só mais tarde, quando a Ática se tornou o centro econômico da Grécia no século 5º AC, é que Atenas se tornou o seu centro cultural.

          4 – A rainha Cleópatra descendia dos antigos Faraós egípcios!


Busto que julga-se retratar a rainha Cleópatra, mas não há certeza


Cleópatra não tinha qualquer relação com os antigos Faraós egípcios. Embora nascida no Egito, ela pertencia à família grega dos Lágidas e descendia do general Ptolomeu, nomeado por Alexandre Magno governante do Egito. Sua capital era Alexandria, cidade grega plantada no delta do Nilo por Alexandre e povoada por milhares de famílias trazidas da Grécia. O idioma oficial da cidade, assim como da corte, era o grego, embora as classes baixas falassem também a língua comum do país. Muito culta, Cleópatra aprendeu o idioma egípcio e escrevia e lia os hieróglifos. A fim de unificar o povo sob o seu cetro, ela se fazia passar pela deusa Ísis, o que fez os seus inimigos romanos a chamarem com desprezo de “A Egípcia”, mesmo ela sendo grega. A história diz que além de refinada e sedutora, ela era também muito bonita, mas não temos nenhum busto, retrato ou estátua sua de autenticidade comprovada. Após a avassaladora vitória sobre ela e Marco Antonio, o imperador Augusto, devido à desfeita que ela tinha feito à sua irmã Otávia, esposa legítima de Marco Antônio, negando-se a encontrá-la em Atenas e obrigando-a a voltar a Roma sem ver o marido, mandou destruir todas as suas imagens para extirpá-la da lembrança  dos pósteros e varrê-la da história. Como visto, falhou redondamente, pois destruiu a sua imagem mas eternizou a sua memória. 

         5 – A república democrática era o regime político da Grécia!


Atenas atingiu o apogeu no século 5º AC durante o governo de Péricles

O regime político predominante na Grécia era a república aristocrática, geralmente disfarçada de monarquia, como no caso de Esparta, ou de tirania, como no caso da maioria das cidades gregas. Monarquias autênticas só existiram na Macedônia, e verdadeiras democracias apenas em meia dúzia de cidades, dentre elas destacando-se Atenas, onde o regime democrático foi criado. Mesmo assim a democracia teve altos e baixos em Atenas durante dois séculos, até se tornar meramente formal com o domínio de Alexandre no século IV AC e desaparecer de todo com a conquista romana no século II AC. A partir daí Atenas e as demais cidades gregas tornaram-se simples municipia romanas. A democracia só reapareceu 2.000 anos depois com a Guerra Americana de Independência no século XVIII da nossa era. Ainda hoje a democracia tem grandes dificuldades para se firmar no mundo, pois a maioria dos países continua a adotar a aristocracia ou a tirania como regime político.

          6 – A república romana era uma democracia que foi destruída por César e substituída pela ditadura imperial!


No último século da República (século 1º AC) explodiram furiosas guerras civis e as lutas políticas assumiram
a feição de autênticos conflitos sanguinolentos entre quadrilhas mafiosas


A república romana era uma ditadura aristocrática constituída pela rígida divisão de classes entre Patrícios e Plebeus. Mesmo quando os plebeus se revoltaram no século V AC e obtiveram as concessões estabelecidas na Lei das XII Tábuas, eles continuaram fora do governo. O Tribuno do Povo, mais alto magistrado plebeu criado pela Lei, gozava de absoluta imunidade e a sua pessoa era sagrada; quem o tocasse era condenado à morte e ele tinha poder de veto sobre qualquer lei votada pelo Senado; ao levantar sua mão direita qualquer patrício era obrigado, sob pena de morte, a parar o ato que estava praticando contra um plebeu, mas o tribuno do povo não participava do governo e nem sequer podia entrar no Senado; o máximo que se lhe permitia era ficar no vestíbulo esperando o fim das sessões, quando só então podia apresentar suas reclamações ou reivindicações aos senadores na porta do Senado. Com o tempo essa rigidez desapareceu, mas a separação de classes continuou e os conflitos sociais explodiram com inaudita violência no início do século 1º AC entre a própria elite dirigente, dividida entre os optimates, conservadores radicais que se opunham a qualquer reforma, e os populare, liberais que as defendiam como única forma de resolver os graves problemas econômicos e sociais que ameaçavam a estabilidade política da República. Correram rios de sangue, até que finalmente Júlio César, um liberal e reformista moderado, assumiu o poder supremo como ditador nomeado pelo Senado e implantou a paz. Para dar início ao seu programa de reformas, ele nomeou para o cargo de senador centenas de plebeus ricos e de altos oficiais do seu exército, tornando-os patrícios, e enfeixou em suas mãos os poderes dos mais importantes magistrados a fim de acabar com as disputas pelo poder e as constantes guerras civis que delas resultavam. Isto enfureceu os aristocratas, muitos deles seus amigos, que terminaram por assassiná-lo esperando readquirir o antigo domínio político. Porém o brutal e traiçoeiro assassinato foi em vão, pois o povo preferia um tirano único que assegurasse a paz ao invés de dúzias de tiranos que produziam anarquia, miséria e guerra civil. Muitos aristocratas sensatos viram que a "fórmula cesárea" era a melhor solução para assegurar a prosperidade e a fortaleza de Roma, e o regime imperial foi implantado com enorme apoio popular, embora sob o disfarce de “república”. O incrível sucesso do Império Romano durante séculos mostrou que César estava certo ao acabar com a insana “liberdade” dos aristocratas.

Virgilio Campos4 comentários

domingo, 20 de fevereiro de 2011

CONSTANTINO  -  A  POLÊMICA  ORIGEM  FAMILIAR
 DO  GRANDE  IMPERADOR

 Estatua do imperador romano Constantino o Grande

          Poucos grandes imperadores romanos tiveram uma ascensão tão tumultuada e uma origem familiar tão controversa quanto Constantino. Uns dizem que ele era bastardo, outros que era ilegítimo, sendo legitimado depois, e um 3º grupo diz que era legítimo! A única coisa certa que sabemos é que sua mãe Helena era filha de um modesto estalajadeiro e ajudava o pai como garçonete. A estalagem ficava em alguma parte da Europa oriental (Romênia, Bulgária ou Sérvia). Era muito freqüentada por militares em trânsito e a bela garçonete deve ter sido alvo de gracejos e “avanços” de galantes oficiais, todos eles repelidos com digna respeitabilidade porque ela e sua modesta família eram cristãos devotos.
          Um dia passa por lá o nobre oficial Constâncio Cloro e os dois se apaixonam, da sua relação nascendo Constantino. É aí que começa a polêmica: os detratores radicais dizem que Cloro era casado, coisa que fazia Constantino filho adulterino e impedia sua posterior legitimação; os adversários moderados dizem que Cloro era solteiro, mas sendo um brilhante oficial não arriscaria seu futuro casando-se com alguém inferior como Helena; já os seus partidários dizem que Cloro casou com Helena porque a família era cristã, sendo nela inconcebível qualquer relação ilegítima de um dos seus membros. Deve ser lembrado que na época não havia registro civil nem registro eclesiástico e casamentos, nascimentos, óbitos e batizados eram coisas que se provavam apenas pela publicidade e depoimentos orais. Por isso não poderia haver nenhuma prova escrita do casamento de Cloro com Helena ou de qualquer outro casamento na época. Tudo se baseava na publicidade da cerimônia e na honestidade das testemunhas. Fosse como fosse, pai e filho se tornaram muito ligados e enquanto Cloro chegava ao pico da carreira, Constantino se distinguia como um dos mais talentosos oficiais do exército.
          Foi quando o velho imperador Diocleciano, vendo que o Império era grande demais para ser governado por um só, o dividiu com 3 dos seus melhores generais e criou a Tetrarquia. O oriente seria governado por ele com o título de Augusto e por seu genro Galério com o título de César; o ocidente seria governado por Maximiano com o título de Augusto e por Constâncio Cloro com o título de César e que deveria também se tornar genro de Maximiano. Fosse Cloro solteiro, casado com Helena ou com outra, fato é que ele deixou Helena definitivamente, pois já estavam separados há tempos, e casou com a filha do Augusto Maximiano para se tornar César. A subordinação do César ao Augusto não tinha efeito prático, pois ambos governavam seus territórios como bem entendiam. Assim, o César Constâncio Cloro tornou-se o soberano absoluto da Gália, da Espanha e da Britannia, e quando Diocleciano e Maximiano aposentaram-se, nomearam os Augustos que os sucederiam: Galério no oriente e Severo no ocidente! Porém o César Cloro ignorou solenemente o Augusto Severo e proclamou-se Augusto do ocidente em seu lugar, desencadeando a fúria de Galério, que resolvera ser o Imperador dos Imperadores e não ia admitir que Cloro o impedisse.
          Mas foi o que aconteceu. Ao contrário de Galério, que era autoritário, brutal e cruel, Cloro era o contrário e por isso era queridíssimo pelo povo, pelo Exército e pelos cristãos, que a essa altura já constituíam uma poderosa influência na sociedade. Apesar de pagão, Cloro mantivera a área sob sua jurisdição livre das terríveis perseguições ordenadas por Diocleciano, Galério e Maximiano (creio que em homenagem à sua antiga amante ou esposa Helena) e isto lhe valeu a gratidão dos cristãos não só em seu território, mas também em todos os territórios do Império, coisa que futuramente seria de fundamental importância para Constantino.
          Descrever a confusão que se seguiu ao rompimento entre os vários imperadores da época cansará o leitor, mas resumiremos dizendo que o jovem general Constantino, que servia sob as ordens de Galério no oriente, fugiu para o ocidente e uniu-se ao pai na Gália, tornando-se seu lugar-tenente. Quando os caledônios que habitavam o que hoje é a Escócia invadiram a província romana da Britannia, Cloro e Constantino atravessaram o canal da Mancha e os expulsaram após derrotá-los numa grande batalha no norte da atual Inglaterra. Sentindo-se doente, Cloro recolheu-se ao QG da legião sediada em York e lá faleceu. Então os pesarosos soldados aclamaram como novo César do ocidente o valoroso filho de Cloro, general Constantino, no que foram seguidos pelas legiões da Gália e da Espanha. Os Augustos Severo e Galério não foram consultados e ficaram furiosos com a indisciplina das tropas e a audácia de Constantino, jurando depor o usurpador. Como arma psicológica, eles levantaram a questão da ilegitimidade do novo e poderoso inimigo.
          A confusão então ocorrida entre Constantino e os 3 outros imperadores foi ainda maior do que a ocorrida com o seu pai, bastando dizer que houve um momento em que havia 6 imperadores disputando o trono, dos quais o único que tinha a dedicada simpatia dos cristãos era Constantino.
          A sua longa caminhada para a conquista do poder absoluto e a legalização do Cristianismo estava apenas começando!

NOTA: este post, e os 3 que virão, foi motivado por alguns leitores manifestarem ao autor insatisfação pelo post anterior resumir tanto a epopéia de Constantino, a ponto de tornar banal uma jornada épica com profunda influência na história da humanidade. Vi que tinham razão e decidi ampliar o assunto, mas devo dizer que o grande problema de um blog sobre história é o dilema entre se escrever um artigo, tão resumido que vire um verbete de enciclopédia, e um outro, tão extenso que vire um ensaio. Atingir o equilíbrio é difícil e por isso peço que me perdoem omissões, e até equívocos, motivados pela necessidade de resumir.  

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Post nº 27

CONSTANTINO - A POLÊMICA ORIGEM DO GRANDE IMPERADOR  ROMANO

Estátua do imperador Constantino em York na Inglaterra, próxima às ruínas do quartel da legião que o
aclamou imperador em 306 DC. Ela o retrata ainda jovem no início do seu reinado


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Poucos grandes imperadores romanos tiveram uma ascensão tão tumultuada e uma origem familiar tão controversa quanto Constantino. Uns dizem que ele era bastardo, outros que era ilegítimo, sendo legitimado depois, e um 3º grupo diz que era legítimo! A única coisa certa que sabemos é que sua mãe Helena era filha de um modesto estalajadeiro e ajudava o pai como garçonete. A estalagem ficava em alguma parte da Europa oriental (Romênia, Bulgária ou Sérvia). Era muito freqüentada por militares em trânsito e a bela garçonete deve ter sido alvo de gracejos e “avanços” de galantes oficiais, todos eles repelidos com dignidade porque ela e sua modesta família eram cristãos devotos.
Um dia passa por lá o nobre oficial Constâncio Cloro e os dois se apaixonam, da sua relação nascendo Constantino. É aí que começa a polêmica: os detratores radicais dizem que Cloro era casado, coisa que fazia Constantino filho adulterino e impedia sua posterior legitimação; os adversários moderados dizem que Cloro era solteiro, mas sendo um brilhante oficial não arriscaria seu futuro casando-se com alguém inferior como Helena; já os seus partidários dizem que Cloro casou com Helena porque a família era cristã, sendo nela inconcebível qualquer relação ilegítima de um dos seus membros. Deve ser lembrado que na época o registro civil era precário e só existia nas cidades, destinando-se tão somente à nobreza. Ainda não havia registro eclesiástico, pois o cristianismo era ilegal e paróquias não funcionavam publicamente; casamentos, nascimentos e óbitos dos pobres eram provados apenas por depoimentos orais às autoridades municipais, o mesmo sucedendo com os batizados cristãos. Por isso não poderia haver nenhuma prova escrita do casamento de pobres na época, como era o caso de Helena, pois tudo se baseava na publicidade do ato e na honestidade das testemunhas. Fosse como fosse, Cloro e Helena viveram juntos e ele encaminhou o filho adolescente à carreira militar. Ambos eram muito ligados e enquanto Cloro chegava ao pico da carreira Constantino se distinguia como um dos mais talentosos oficiais do exército, servindo na corte imperial e convivendo com os mais importantes personagens da época, o que lhe seria de grande valia no futuro.

"Diocletianus Augustus" (284-305). Vendo que o Império era muito grande para ser governado por um
só, o dividiu com seus três melhores generais, cabendo a Constâncio Cloro a Europa Ocidental
          
Foi quando o velho imperador Diocleciano, que apreciava bastante o jovem oficial, vendo que o Império era grande demais para ser governado por um só, o dividiu com 3 dos seus melhores generais e criou a Tetrarquia. O Oriente seria governado por ele com o título de augusto e por seu genro Galério com o título de césar; o Ocidente seria governado por Maximiano com o título de augusto e por Cloro com o título de césar, mas sob a condição de tornar-se genro de Maximiano. Fosse Cloro solteiro ou casado, deixou Helena definitivamente e casou com a filha do augusto Maximiano para se tornar césar. A subordinação do césar ao augusto não tinha efeito prático, pois ambos governavam seus territórios como bem entendiam. Assim, Constâncio Cloro tornou-se o soberano absoluto da Gália, da Espanha e da Britannia, mas quando Diocleciano e Maximiano se aposentaram nomearam os augustos que os sucederiam: Galério no oriente e Severo no ocidente. Porém Cloro ignorou solenemente o augusto Severo e proclamou-se augusto do Ocidente, desencadeando a fúria de Galério, que resolvera ser Imperador dos Imperadores e não ia admitir que Cloro o impedisse.

Diocleciano ficou magoado por Cloro não perseguir os cristãos como ordenado
e não o fez "Augusto" do Ocidente ao aposentar-se em 305
          
Mas foi o que aconteceu. Ao contrário de Galério, que era autoritário, brutal e cruel, Cloro era liberal, gentil e generoso; por isso era querido pelo povo, pelo exército e pelos cristãos, que a essa altura já eram poderosa influência na sociedade. Apesar de pagão, Cloro mantivera a sua área livre das terríveis perseguições ordenadas por Diocleciano, Galério e Maximiano (creio que em homenagem à sua antiga amante ou esposa Helena) e isto lhe valeu a gratidão dos cristãos em seu território e em todos os demais territórios do Império, coisa que futuramente seria de fundamental importância para Constantino.          
Descrever a confusão que se seguiu ao rompimento entre os vários imperadores da época cansará o leitor, mas resumiremos dizendo que o jovem general Constantino, que servia sob as ordens de Galério no Oriente, fugiu para o Ocidente e uniu-se ao pai na Gália, tornando-se seu tenente-general. Quando os caledônios, que habitavam o que hoje é a Escócia, invadiram a província romana da Britannia, Cloro e Constantino atravessaram o canal da Mancha e os expulsaram após derrotá-los numa grande batalha no norte da atual Inglaterra. Sentindo-se doente, Cloro recolheu-se ao QG da legião sediada em York e lá faleceu. Então os pesarosos soldados aclamaram como novo césar do ocidente o valoroso filho de Cloro, no que foram seguidos pelas legiões da Gália e da Espanha. Os augustos Severo e Galério não foram consultados e ficaram furiosos com a indisciplina das tropas e a audácia de Constantino, jurando depor o usurpador. Como arma psicológica, levantaram a questão da ilegitimidade do novo e poderoso inimigo.

Moeda romana com a efígie de Constantino (século IV DC)

A confusão ocorrida entre Constantino e os três outros imperadores foi ainda maior do que a ocorrida com o seu pai, bastando dizer que houve um momento em que havia seis imperadores disputando o trono, dos quais o único que tinha a dedicada simpatia dos cristãos era Constantino. Ele não se abalou e deu uma jogada de mestre casando com Fausta, irmã bem mais nova de sua madrasta viúva e também filha do ex augusto Maximiano, que apesar de aposentado continuava prestigiado no Exército. Já sendo sogro do falecido Cloro, tornou-se também sogro de Constantino e este o instigou a romper com Severo, novo augusto do Ocidente e seu oponente. Tudo indica que querendo ver o circo pegar fogo enquanto se fortalecia na Gália, incitou o sogro a botar o filho Maxêncio no lugar de Severo, causando uma guerra tendo de um lado Maximiano-Maxêncio e do outro Severo-Galério. Os dois primeiros derrotaram os outros dois enquanto Constantino "apoiava na retaguarda" o sogro e o cunhado. Mas logo estes brigaram e Maximiano se exilou junto ao genro na Gália, onde foi muito bem recebido. Aí a história se torna um mistério, pois Maximiano apoderou-se do poder enquanto o genro combatia invasores germânicos na fronteira do Reno. Mais que depressa ele voltou, derrotou e executou o sogro, começando assim o longo rol de matanças dos seus próprios familiares.          
Nenhum historiador esclarece bem o acontecido, mas acho que a briga do velho Maximiano com o seu filho Maxêncio foi uma burla para que ele chegasse à Gália insuspeitado e pudesse tramar contra o genro, pois o plano deles seria o primeiro voltar a ser augusto do Ocidente tendo o  segundo como césar no lugar de Constantino. Só que este era muito mais querido pelas tropas e pelo povo do que eles imaginavam e ninguém apoiou o golpe, deixando a cabeça de Maximiano à mercê da espada do genro, que não perdoou a traição do sogro e do cunhado. A partir daí a batalha decisiva pela supremacia no Ocidente entre Maxêncio e Constantino era apenas questão de tempo.   
A sua longa caminhada para a conquista do poder absoluto e a legalização do Cristianismo estava apenas começando.




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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Post nº 26

CONSTANTINO  -  O  IMPERADOR  ROMANO
QUE  LEGALIZOU  O  CRISTIANISMO

Constantino derrota Maxêncio na batalha da Ponte Mílvia. Tela de Pieter Lastman (1613)


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Constâncio Cloro era um jovem nobre oficial quando conheceu a modesta garçonete Helena. Muito bonita, mas de família humilde, não se sabe ao certo se ambos casaram ou se ela tornou-se sua amante, apesar de ser cristã devota. Casados ou não, passaram a viver juntos e quando ela lhe deu um filho, de nome Constantino, a relação se fortaleceu. Tempos depois separaram-se, mas Cloro continuou muito apegado ao filho e o encaminhou à carreira militar, na qual ele logo se destacou como excelente oficial. Quando Cloro foi nomeado César do Ocidente pelo imperador Diocleciano e casou com a filha do seu superior, o Augusto Maximiano, o jovem Constantino continuou servindo no Oriente, mas na primeira oportunidade foi juntar-se ao pai na Gália e tornou-se seu tenente-general.

Bravo, simpático e habilidoso, Constantino já era maduro e tinha um filho adolescente quando casou com a bela Fausta, irmã mais nova de sua madrasta e também filha do aposentado augusto Maximiano, tornando ainda mais sólida a sua aspiração à púrpura imperial. Com este objetivo em mente, ele tratou de ganhar a simpatia do povo e dos soldados, tornando-se popularíssimo no Ocidente. Em 306 foi com o pai combater uma invasão dos caledônios (escoceses) no norte da Britannia, derrotando-os e expulsando-os, mas Cloro adoeceu gravemente, morrendo em York pouco depois da vitória. Tão logo foi divulgada a notícia do falecimento do querido imperador, as legiões britânicas aclamaram o seu não menos querido filho César do Ocidente, no que foram seguidas pelas legiões espanholas e gaulesas, mas as legiões italianas aclamaram o seu cunhado Maxêncio, filho do seu sogro, o ex-augusto Maximiano. Este, embora aposentado, passou a conspirar em favor do filho, chegando a tentar um fracassado Golpe de Estado contra o genro. Apesar do parentesco próximo, Constantino não o perdoou e, demonstrando toda a dureza do seu caráter, o prendeu e o executou. O sogro seria apenas o primeiro de uma longa lista de parentes próximos cuja deslealdade ele puniria com a morte.

Constantino ainda jovem, no início do seu reinado - 309 DC

O seu cunhado Maxêncio tinha o apoio do Senado Romano e depusera Severo, o augusto que assumira o posto do aposentado Maximiano, mas Constantino não se intimidou e, após alguns anos de contemporização, rompeu com o cunhado e marchou contra ele, que possuía um exército bem mais poderoso que o seu. Mas Constantino sempre fora muito astuto e atento ao que se passava no exército e na sociedade, não lhe passando despercebido o enorme crescimento do cristianismo apesar das ferozes perseguições dos imperadores Diocleciano e Galério. A seita dos cristãos se espalhara e agora boa parte do exército e do povo professava a sua doutrina secretamente.

Maxêncio também ainda era jovem quando foi derrotado
e morto por seu cunhado Constantino

Deve ser dito que dos quatro imperadores da época, pois Diocleciano criara a chamada “Tetrarquia” e dividira o império com três dos seus generais, Cloro fora o único que não perseguira os cristãos, pois a sua antiga esposa ou amante Helena era cristã devota, mas ele e o filho tinham continuado pagãos. Fosse como fosse, ambos gozavam da admiração dos cristãos e Constantino percebeu que se os cortejasse isto em nada incomodaria os soldados pagãos e ainda lhe traria o apoio dos soldados cristãos do exército de Maxêncio. E foi o que aconteceu, pois habilmente entusiasmou às tropas dizendo-lhes que tivera uma visão onde aparecia uma grande cruz no céu seguida da frase “com este signo vencerás”!

Constantino diz a seus soldados ter visto no céu uma mensagem convidando-o  aderir ao cristianismo

Os legionários cristãos foram tomados de grande fervor que contagiou a todos e Constantino mandou que pintassem a cruz e a frase em seus escudos. Assim, à medida que cruzava a Itália, a notícia se espalhou e o ânimo das tropas de Maxêncio baixou assustadoramente. Quando os dois exércitos se chocaram na batalha da Ponte Mílvia, os soldados cristãos desertaram ou passaram para o lado de Constantino, que obteve esmagadora vitória. Maxêncio morreu na luta e o resto do seu exército aderiu ao vencedor, que entrou em Roma sob delirantes aplausos e bajulação dos oportunistas senadores que antes haviam apoiado o seu rival. Em agradecimento pelo apoio recebido dos cristãos, baixou decreto permitindo-lhes o culto de sua religião em todas as partes do Império sob sua jurisdição e continuou sua campanha contra os rivais do Oriente, pois resolvera extinguir a “Tetrarquia” e tornar-se imperador único. O fenômeno ocorrido na Itália repetiu-se em toda parte e em poucos anos ele derrotou os adversários, unificando o império sob o seu poder.

Mas, antes que o sucesso lhe coroasse os esforços, a nova situação do Cristianismo não era sólida, pois os pagãos conspiravam e Constantino  sofria forte oposição de Licínio, imperador do Oriente que casara com uma das suas irmãs e odiava o cristianismo. Parece que a sua sina era a de guerrear os cunhados e na primeira oportunidade romperam, fazendo a guerra civil eclodir e de novo abalar o Império. Após muitas tentativas de reconciliação, Constantino pela segunda vez  esmagou um cunhado e somente o poupou devido às súplicas da irmã, que lhe implorava não deixasse os seus filhinhos órfãos. Licínio foi condenado a viver  com a família em confortável prisão domiciliar na Grécia, mas tudo indica que continuou conspirando e Constantino mandou executá-lo sumariamente em casa, indiferente ao choro dos sobrinhos pequenos e das maldições da irmã desesperada.
Depois disso tornou-se implacável e mandou executar parentes invejosos que o insultavam pela sua origem “ilegítima” e conspiravam contra ele. Resolvidas as questões políticas, voltou-se para os problemas religiosos, elevando o cristianismo da posição de “religião permitida” para o de “religião autorizada”, mas permitindo que os cultos pagãos fossem praticados livremente. Com o novo status dado à Igreja, graves dissensões dogmáticas surgiram e ele convocou os bispos para um grande Concílio na cidade de Nicéia, por ele presidido pessoalmente, pois resolvera exercer os poderes imperiais de Pontifex Maximus, decidindo matéria doutrinária, criando Dioceses e nomeando Bispos, inclusive os de Roma e de Constantinopla, no que foi seguido por seus sucessores no Oriente e que os historiadores denominaram "Césaro-Papismo". A maioria do Concílio de Nicéia, em decisão apoiada pelo imperador, declarou válido o trinitarismo dos Ortodoxos e herético o unitarismo dos Arianos; porém, tal como fizera com o paganismo, Constantino permitiu aos arianos praticarem livremente sua doutrina, a qual veio a se tornar dominante nos quarenta anos seguintes à sua morte, até a ascensão ao trono do ortodoxo Teodósio.

Batalha da Ponte Mílvia. Tela de Rafael no Vaticano (séc. XVI)
    
Pouco tempo depois do célebre Concílio, uma tragédia familiar fustigou Constantino e estarreceu a todos: o jovem príncipe herdeiro Crispo, filho do seu primeiro casamento, belo, valente e popular general, foi acusado de traição e executado! Passados poucos meses, a jovem, bela e orgulhosa imperatriz Fausta sua segunda esposa, filha do infeliz Maximiano e irmã do não menos infeliz Maxêncio, foi julgada por falsamente denunciar o seu inocente enteado Crispo de uma conspiração imaginária e também executada. Um frio de terror percorreu o Império e a velha imperatriz-mãe Helena, que era muito apegada ao neto Crispo e tinha grande amizade à nora Fausta, muito mais jovem que o marido, partiu em peregrinação à Terra Santa em busca de perdão para o filho por ter ele morto tantas pessoas da sua própria família. Lá ela mandou construir a suntuosa igreja do Santo Sepulcro, que existe até hoje. Quando voltou, morreu tranquilamente na fé que abraçara desde a juventude.

Sentindo-se às portas da morte, Constantino pediu ao seu amigo e conselheiro espiritual, o bispo ariano
Eusébio, para batizá-lo e absolvê-lo dos pecados. Tela de Rafael (séc. XVI)

Velho, doente e desgostoso com os infortúnios da sua vida particular, o ortodoxo Constantino por incrível ironia recebeu o batismo das mãos do eminente bispo ariano Eusébio, seu amigo e conselheiro espiritual. Assim, assistido por um sacerdote ariano, ortodoxo Constantino deixou a vida para ingressar na galeria dos maiores estadistas de todos os tempos. Como se a contradição o perseguisse até depois da morte, foi sucedido por Constâncio, filho da infeliz Fausta, o qual, ao contrário do pai, adotou o arianismo ao invés da ortodoxia.
          
Notas:  

   1) O conflito entre arianos e ortodoxos nos séculos IV e V, teve a mesma magnitude teológica e política do conflito entre protestantes e católicos nos séculos XVI e XVII.

   2) Os Ortodoxos julgavam o Pai, o Filho e o Espírito Santo uma única pessoa (Santíssima Trindade) e por isso Jesus não era o Filho de Deus mas o próprio Deus. Já os Arianos julgavam o Pai e o Filho pessoas autônomas, sendo o Pai superior ao Filho e devendo este prestar obediência àquele, tal como ocorre nas corretas relações entre pai e filho. Portanto Jesus não era Deus, mas o Filho de Deus, como declarado pelo próprio Jesus em diversas passagens dos Evangelhos. Em resumo: para os Ortodoxos Pai e Filho eram idênticos numa relação "substancial"  de igualdade; para os Arianos eram semelhantes numa relação "consubstancial" de subordinação.

   3) É surpreendente que tendo tanto dos Evangelhos em seu favor os Arianos tenham perdido para os Ortodoxos a disputa no Concílio de Niceia, e que gozando o eminente bispo ariano Eusébio da amizade pessoal de Constantino, tenha este aprovado a decisão do Concílio. Três séculos depois sua decisão teve funestas consequências para o Cristianismo, pois auxiliou o avassalador alastramento do Islamismo por todo o Oriente Médio e norte da África. Isto ocorreu em grande parte pela adesão em massa dos perseguidos cristãos arianos à nova religião Islâmica, graças aos pontos comuns às respectivas teologias.

   4) O ponto básico em comum era o da unicidade e supremacia de Deus. Apesar dos muçulmanos não aceitarem a doutrina ariana de ser Jesus filho de Deus, o aceitaram como enviado de Deus e lhe deram o 3º lugar de importância entre os profetas, logo após Maomé e Moisés. Deram também a Maria lugar de grande destaque no Khoran e a fizeram a mulher mais venerada do Islã. A brutal perseguição dos Cristãos Ortodoxos aos Cristãos Arianos empurrou estes para o Islamismo, dando à nova religião uma força que de outra forma ela não teria, sobretudo no fácil domínio do norte da África cuja população, quase toda Ariana, sofrera horrores no século anterior nas mãos dos Ortodoxos do imperador Justiniano. Para a conversão em massa dos Cristãos Arianos ao Islã pesou mais a natureza única de Deus do que a dupla natureza de Jesus. 



  

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Post nº 25
BATALHA  DE  AQUILEIA  -  MISTÉRIOS  E  INDAGAÇÕES

Aquileia era uma das mais ricas e importantes cidades do norte da Itália, mas sofreu uma das
destruições mais completas da história e praticamente nada dela restou


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A batalha de Aquileia e sua completa destruição por Átila em 452 DC têm suscitado através dos tempos várias questões que tentaremos responder com as poucas evidências que conseguimos colher ao longo de muitos anos de estudo e pesquisa sobre o assunto.

A primeira é sobre a veracidade histórica da emigração antecipada das cegonhas alojadas nas torres da grande metrópole, fazendo Átila acreditar que a sua queda era iminente e as aves deixavam o lar porque previam que ele seria destruído. Se Átila acreditou ou não no “oráculo” ninguém sabe, mas o fato é que habilmente o utilizou para incutir ânimo nos seus guerreiros e vencer a batalha. 

Quanto a veracidade do episódio, alguns historiadores o omitem, mas outros o relatam, embora divididos em dois grupos: o primeiro acha que foi um oráculo divino, mas que, ao invés de deuses pagãos falando aos hunos, eram santos dizendo aos cristãos que a cidade ia cair e eles a deixassem antes que fosse tarde demais. O segundo grupo é menos místico: diz que a emigração fora de época foi causada por um fato natural qualquer e devemos concordar, pois as evidências são de que a revoada das cegonhas foi verídica e a sua razão teria sido o ataque de uma horda de ratazanas famintas. O motivo da fome seria a fuga da população civil, deixando os roedores sem a sua habitual fonte de nutrição: restos de comida jogados no lixo! Privados de alimentos, os enormes ratos esfomeados atacaram os ninhos das cegonhas para devorarem os seus ovos e filhotes, obrigando-as a fugirem para lugares mais seguros.

A segunda questão é sobre a resistência heróica do comandante Jorgius na catedral de Aquileia. Alguns indagam não só se a epopéia de Jorgius relaciona-se com a lenda de "São Jorge e o Dragão", como também se alguns dos soldados lograram escapar. A pergunta é interessante e bastante singular, pois há grandes semelhanças simbólicas entre o "fato" e a "lenda". Acontece que todos os fatos pós-entrada dos hunos em Aquileia estão envoltos em "lenda", não havendo certeza histórica sobre nenhum deles, nem sequer sobre a luta dentro da cidade e o tempo que ela teria durado.

Átila usando uma coroa de louros como se fora um príncipe romano de feições
orientais. Gravura de Fredrik Sanders (séc. XIX)

Também não há certeza se o último baluarte foi a catedral nem, tampouco, se o nome do seu comandante era Jorgius, pois há relatos dizendo que o seu nome era “Fúlvio”. Neles se diz que o comandante Fúlvio escapou com vários soldados, muitos civis e alguns sacerdotes, sendo mais tarde morto pelos hunos durante a fuga pelos pântanos.

Todavia é preferível a versão que apresenta Jorgius como o último defensor; é mais bonita e simboliza melhor a fé e o heroísmo dos legionários romanos. É possível que os relatos de uma resistência até o fim tenham sido criados para incutir no povo e no exército coragem para enfrentar o bárbaro invasor, mas não há certeza. A única certeza é a de que os aquileianos lutaram com excepcional bravura, detendo Átila por três meses e dando tempo a Aetius para organizar melhor a resistência.
O atraso causado pelos defensores de Aquileia aos planos de Átila determinou a sua retirada da Itália alguns meses depois sem conquistar Roma, pois marchou para lá em pleno calor do verão e o seu exército foi assolado pela peste. Se prosseguisse, o outono o alcançaria, matando os seus cavalos de fome com a secura dos pastos; em tais condições seria massacrado por Aetius durante a retirada; melhor, portanto, seria retirar-se antes da chegada do outono. Claro que outros fatos contribuíram para o seu recuo e nós os relatamos no nosso livro “O Senhor dos Dragões”, mas a causa principal da sua final derrota foi a heróica resistência da infeliz cidade.
Aquileia é um dos poucos casos na história de “derrota decisiva”, ou seja, uma grande derrota que é a causa de uma grande vitória para os derrotados no final!

A basílica de Aquileia foi palco de dois Concílios antes da destruição da cidade. A torre à esquerda foi
adicionada na Idade Média, mas o prédio principal é o mesmo que foi incendiado por Átila

A indagação sobre a possível relação entre a história do comandante Jorgius e a história de São Jorge nos remete ao reino da fantasia. Ninguém sabe direito quem foi o guerreiro São Jorge nem o porquê da lenda dele lutando com um dragão para libertar uma virgem presa em um grande edifício. Os cristãos consideravam os hunos demônios e os dragões eram tidos como seres demoníacos, de forma que associar hunos a dragões era plausível aos devotos cristãos da época.
A história de Jorgius em frente a uma catedral (grande edifício), tendo na mão esquerda a imagem de Nossa Senhora (virgem), e na mão direita a espada para lutar com os hunos (dragões) constitui analogia perfeita com São Jorge enfrentando o dragão em defesa da virgem em perigo. Todavia, não há indícios sugerindo qualquer relação da história, possivelmente lendária do comandante Jorgius, com a história certamente mitológica de São Jorge.

O entulho conservou durante séculos o belo piso da Catedral de Aquileia. Suas
paredes e colunas foram restauradas e hoje ela é quase toda original

A indagação sobre se Aquileia foi reconstruída há que ser respondida com uma negativa, embora no lugar hoje exista uma pequena cidade com o mesmo nome. Todavia, a majestosa cidade romana de Aquileia cheia de templos, palácios e edifícios imponentes foi destruída para sempre pelos hunos. Durante muito tempo o local foi considerado mal-assombrado devido à carnificina ali ocorrida, mas aos poucos camponeses pobres estabeleceram-se nas proximidades das ruínas e na Idade Média surgiu a um quilômetro delas um vilarejo que deu origem à pequena cidade de hoje. Por sorte a antiga catedral fica exatamente nesse sítio e foi reconstruída ao longo dos séculos. A sua torre, por exemplo, é do século XII, mas todo o resto da rica metrópole, que na antiguidade foi palco de dois grandes Concílios da Igreja, desapareceu sob as patas dos cavalos hunos, dando veracidade à perversa jactância de Átila: “Onde o meu cavalo pisa a erva não torna a crescer”! 
Resta saber o destino dos refugiados no pântano, e a resposta é que eles fundaram Veneza!



Os aquileanos refugiados nos pântanos fundaram Veneza, uma das mais belas cidades do mundo

Do insalubre lugar em que estavam, marcharam pela pantanosa costa do mar Adriático e chegaram a uma vasta laguna. Viram que as suas ilhotas eram excelentes como esconderijos e lá ficaram enquanto os hunos assolavam o norte da Itália. Construíram rústicas habitações e quando o perigo passou decidiram que não fazia sentido voltarem aos lares destruídos nem irem para outros lugares menos seguros, pois a fraqueza do Império fazia-os prever que outras invasões ocorreriam em breve. O melhor seria ficarem lá definitivamente. E foi o que aconteceu.
Assim, pode-se dizer que a morte de Aquileia foi das mais gloriosas, porque salvou Roma e causou  a final derrota de Átila. De quebra, propiciou a fundação de Veneza, uma das mais belas cidades do mundo!