segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Post nº 53

A  LEGIÃO  ROMANA  FANTASMA
DE  YORK

Imagem idealizada da visão do jovem Harry Martindale dos legionários fantasmas de York

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York é uma das cidades mais antigas e mais bem preservadas da Inglaterra. Na Idade Média foi a segunda mais importante cidade do país e sua imensa catedral gótica, majestosas muralhas e prédios várias vezes centenários o atestam. Nos tempos romanos, a estratégica cidade de Eboracum (York é nome que os invasores anglo-saxões lhe deram na Alta Idade Média) era quartel de poderosa Legião que, por estar sediada no extremo norte do Império, era chamada “A Última Legião”. Ela fez jus ao nome quando os romanos retiraram-se definitivamente no século V, pois foi a última a sair da antiga Britannia. Além disso, foi em Eboracum (York) que faleceu o imperador Constâncio Cloro durante guerra contra os caledônios (escoceses) e o grande Constantino foi aclamado imperador no início do século IV. As ruínas do quartel da grande Legião onde fatos tão marcantes ocorreram foram descobertas e escavações vêm sendo realizadas por competentes arqueólogos com a atenciosa assistência de historiadores e intelectuais.

A antiguidade e a boa preservação da cidade têm feito com que ao longo dos séculos ela tenha sido palco de contos fantasiosos e aparições fantasmagóricas dos mais variados tipos, todos eles registrados pelos cronistas e, sobretudo, pela imprensa local no lucrativo intento de atender à sede do público por histórias extraordinárias. Todavia é um prédio moderno pelos padrões de York, pois foi construído em 1648, o palco das mais extraordinárias aparições: a Treasurer’s House! O prédio foi erguido sobre as ruínas da antiga Minster’s Treasurer ("Tesouraria da Catedral"), fechada um século antes durante a Reforma Religiosa do rei Henrique VIII. Sabe-se que o prédio anterior já gozava da fama de mal-assombrado há séculos, mas ninguém esperava que o mesmo ocorresse com o seu “moderno” sucessor. Porém, desde o começo estranhas ocorrências e aparições bizarras eram constantemente relatadas pelos visitantes e servidores da repartição do Fisco, a ponto de até mesmo guardas e vigias terem medo de passar a noite por lá. Curiosamente, os fenômenos tinham sempre caráter militar, pois eram geralmente ruídos surdos de homens marchando ao toque de tambores e clarins embora não houvesse quartel nos arredores e não estivesse ocorrendo desfiles na cidade. Os relatos das visões falavam sempre de homens envoltos em peles, portando lanças e usando saias, levando muitos a acreditarem tratarem-se de fantasmas de antigos soldados escoceses que por várias vezes ocuparam a cidade nas guerras da Idade Média.


Portão principal das muralhas de York, uma das cidades mais antigas da Inglaterra.  
Restauradas e acrescidas na Idade Média, elas datam da época romana.
          
Nos tempos modernos, tais histórias fantásticas foram esquecidas ou passaram ao folclore e sempre que algo estranho acontecia logo se descobria explicação “racional e científica” para o fato. Foi quando em 1953 um adolescente aprendiz de encanador, Harry Martindale, trabalhava no vasto porão com o seu mestre durante reformas que se fazia no prédio na ocasião. Devido à urgência dos serviços, os operários tinham entrado noite adentro e o mestre saíra em busca de ferramenta que esquecera, deixando Harry trabalhando sozinho. Eis que de repente ouviu passos próximos de homens marchando, produzindo ruído muito diferente dos ouvidos no local das obras. Embora não prestasse atenção no início e não se desviasse do que fazia, ficou de cabelo em pé quando o recinto foi inundado por estranha luz com tonalidades rosa, vermelha e verde. Assustado, correu para o lado oposto, de onde divisava todo o salão, e ficou petrificado ao ver sair da grossa parede ao lado cavalo montado por estranho soldado com capacete enfeitado e capa. Com a língua engrolada e incapaz de produzir sons ou mover-se, Harry viu que atrás do cavaleiro saiam da parede soldados mais estranhos ainda, usando armaduras, saiotes e portando esquisitos estandartes. Alguns se cobriam com peles de lobos ou de ursos a guisa de capote e estavam armados com lanças, espadas e escudos. À medida que cruzavam o salão sumiam na parede oposta, não sabendo Harry dizer depois quanto tempo durou a aparição, pois quando o seu mestre voltou, bem depois de ter saído, ainda o encontrou encostado à parede, paralisado. Harry só tinha instrução primária e nada sabia de História, mas, apesar da galhofa dos colegas mais velhos, manteve-se firme e o caso chegou aos ouvidos da imprensa, que não perdeu tempo e o publicou em manchete, dobrando as vendas e atraindo multidões ao local. Harry foi tão honesto que não ocultou detalhes que ninguém conseguia entender: o primeiro era que os soldados pareciam canhotos, pois levavam suas espadas no lado direito; outro era que as espadas eram muito menores que as atuais; finalmente, o mais estranho de tudo: as pernas dos cavalos e dos soldados só apareciam acima do piso a partir de cerca de um palmo abaixo do joelho! Segundo Harry, era como se marchassem com água no meio das pernas. Para isso não havia explicação, pois o piso era sólido e seco, não havendo indícios de que tivesse havido água no local.

Finalmente grupo de eruditos, não tão descrentes dos fenômenos paranormais, concluiu que os prováveis fantasmas eram romanos e não escoceses, porque só os romanos usavam espadas curtas e as portavam do lado direito. Assim, o erudito grupo aventou a hipótese de que talvez ali passasse antiga estrada romana, tendo sido ela ocultada não só pelos séculos de abandono e acumulação de terra trazida pelo vento, mas também pelo rebaixamento que o solo sofre com o passar do tempo. Marchando as aparições por estrada abaixo do solo do porão, era lógico que seus pés e parte das pernas se movessem abaixo dele, ficando ocultos aos olhos de quem os visse. Obtida a autorização para escavar, removeram o velho piso e constataram que a hipótese era correta: cerca de 30 centímetros abaixo havia trecho intacto de milenar estrada romana pavimentada com largas pedras polidas!
A catedral gótica de York é uma das mais belas e maiores catedrais medievais da Europa. Substituiu
igreja cristã da época romana edificada sobre ruínas de um templo pagão
    
A estória virou verdade e o garoto Harry virou celebridade, mas, como sempre acontece, boatos maldosos surgiram dizendo que fora tudo uma farsa montada pelos intelectuais e jornalistas em conluio com a Prefeitura para escavarem o local e criarem sensacionalismo, pois há muito sabiam que ali passava antiga estrada romana. Por isso teriam subornado Harry e o instruído com a estória fantasiosa para em seguida faturarem com matérias jornalísticas, publicidade e turismo. O boato era absurdo, pois York é tão rica em edifícios antigos e vestígios arqueológicos que não seria a descoberta de simples trecho de estrada romana, de resto bastante comum na Inglaterra, que iria aumentar a atração que a cidade exerce sobre amantes da História e das coisas antigas.

De qualquer forma, modernos “caça-fantasmas” fizeram pesquisas no local com sofisticada aparelhagem e nada detectaram. Os fenômenos cessaram após as investigações e a única explicação que se tem é que talvez fantasma não goste de publicidade ou de shows para divertimento dos incrédulos. Mas para os que acreditam no sobrenatural fica uma pergunta: por que os fantasmagóricos soldados romanos insistiam em aparecer marchando naquele trecho da estrada desde remotas eras, como atestado por seculares relatos de fatos estranhos e bizarros não só nos séculos de existência do prédio atual como nos séculos de existência do que o antecedeu?

Como creio no sobrenatural, acho o seguinte: hoje se sabe que a marcha era em sentido oposto ao do quartel da Legião, mostrando que os soldados distanciavam-se dela seguindo para alguma missão. Portanto é possível que tenham caído em uma emboscada logo em seguida, na qual todos morreram, e estariam apenas reproduzindo os seus últimos passos na terra antes de se despedirem definitivamente da vida!

Pode não ser uma explicação, mas é uma boa hipótese.


Nota: York foi muito próspera durante o domínio romano, quando se chamava Eboracum e era a cidade mais importante do norte do Império. Com a retirada romana da Britannia no século V, ela foi assolada durante dois séculos pelos bárbaros pictos, caledônios e scots, que destruíram seus grandes edifícios e a reduziram a pouco mais que uma vila. Este longo período de brutal decadência explicaria o soterramento do grande quartel da "Última Legião" e das magníficas estradas pavimentadas que partiam dela em várias direções. Com a chegada em massa dos anglo-saxões, que já ocupavam há tempos o sul da ilha, ela recuperou parte do seu antigo esplendor e passou a chamar-se York. No século VIII foi assolada novamente por hordas vikings altamente destruidoras, mas no século seguinte (anos 800) o rei anglo-saxão Alfredo o Grande unificou toda a Inglaterra sob o seu cetro e fundou a 1ª dinastia de reis ingleses. Nos 200 anos seguintes York floresceu como nunca e no século XII era a 2ª cidade mais rica e importante do país, sede de um dos dois únicos Arcebispados da Inglaterra. Isto lhe possibilitou construir a maior catedral do norte da Europa e os duques de York passaram a ser tão poderosos quanto os reis, às vezes tomando-lhes o trono. No século XVI o centro econômico do norte mudou para outras cidades e York entrou em marasmo e decadência. Isto possibilitou que as suas características medievais ficassem admiravelmente bem preservadas até os dias atuais.



domingo, 4 de dezembro de 2011


Post nº 52

AS  ORIGENS   DA  CAVALARIA  MEDIEVAL

Belo auto-relevo mostrando o imperador Marco Aurélio partindo para a guerra. Por ele se
vê que o estribo não existia na antiguidade


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Importa detalhar melhor a evolução da cavalaria através dos séculos para entender as razões pelas quais ela se tornou predominante na Idade Média, a ponto de constituir uma elaborada instituição não apenas militar, mas sobretudo social e política. 
             
Como efetiva arma de guerra ela começa a ganhar importância no século IV AC com a vitória de Alexandre Magno sobre Dario na batalha de Gaugamelas, atinge o apogeu no século XII DC durante as cruzadas com as batalhas na Terra Santa entre o rei Ricardo Coração de Leão e o sultão Saladino, findando no século XV DC com a esmagadora vitória da plebeia infantaria inglesa sobre a fidalga cavalaria francesa na Batalha de Agincourt. Temos, portanto, uma "Cavalaria Antiga", que marca a Idade Clássica Greco-Romana, e uma "Cavalaria Medieval" que domina a Idade Média Europeia.
             
Três coisas diferenciam a Cavalaria Antiga da Cavalaria Medieval: a) aquela não conhece o estribo e esta não existiria sem ele; b) a primeira é basicamente arma de guerra e acessoriamente categoria social; já a segunda é o contrário; c) por ser basicamente arma de guerra, a Cavalaria Antiga é usada taticamente dentro de contextos teórico-militares onde atua como auxiliar da infantaria de exércitos a serviço de países, mas por ser basicamente categoria social a Cavalaria Medieval é usada estrategicamente em contextos teórico-militares onde a infantaria é mero auxiliar de exércitos a serviço de grupos de interesses.
             
Porém a própria Cavalaria Antiga tem a sua origem, pois ela não surgiu apenas porque existiam cavalos, mas porque foram inventadas novas táticas de combate por gênios militares. No caso da Cavalaria o gênio militar que a inventou foi Alexandre Magno durante a conquista do Império Persa, pois antes dele a arma que reinava soberana no Oriente Médio era o carro de combate, equivalente ao moderno tanque de guerra. Todos os grandes impérios anteriores a Alexandre possuiam grandes esquadrões dessa arma letal, na época considerada eficiente e moderna.

Carro de combate hitita do século XII AC

Há evidências de que seus inventores foram os Egípcios, mas não há certeza. Até onde sabemos, os Egípcios, Hititas, Assírios e Babilônios os usaram amplamente. Os últimos foram os persas, cujos esquadrões sobre rodas foram destruídos por Alexandre que os substituiu por esquadrões de cavalaria altamente treinada. O grande mérito de Alexandre não foi descobrir que os carros eram inúteis em terrenos acidentados, pois de há muito os gregos sabiam disso, embora alguns príncipes como Aquiles os tivessem, porém os tinham mais por exibição de riqueza e prestígio do que por utilidade bélica, pois a Grécia era pobre em pastagens e por isso cavalos eram raros. O mensageiro que levou a Atenas a notícia da vitória de Maratona contra os persas correu 42 km a pé, mostrando que cavalos na Grécia quase não existiam e apenas os muito ricos os tinham.

            O carro militar egípcio era mais leve e veloz que o hitita. Todos os impérios antigos o tiveram como
                 arma principal dos seus exércitos, mas no século IV AC Alexandre o substituiu pela cavalaria
             
Como ela não era um país no sentido moderno do termo, cada cidade grega gozava de soberania absoluta e tinha o seu próprio exército, formado apenas por cidadãos voluntários que desde a adolescência treinavam táticas de combate e tinham em casa seu próprio equipamento para usos eventuais, geralmente guerras contra cidades rivais. Tais exércitos raramente tinham mais de três mil homens e mesmo no auge da Guerra do Peloponeso os exércitos de Atenas e Esparta jamais chegaram a cinco mil soldados cada um. Toda a coalizão grega que enfrentou os persas na Batalha das Termópilas tinha cerca de seis mil combatentes, mas o hoplita (guerreiro grego de infantaria) tornara-se célebre em todo leste do Mediterrâneo e muitos viraram mercenários a serviço de poderosos reinos estrangeiros, como o egípcio e o persa. A obra de Xenofonte, A Retirada dos Dez Mil, narra o regresso de milhares de mercenários gregos que serviam ao rei da Pérsia e com ele romperam, sofrendo enormes vicissitudes no árduo caminho de volta.

             Após derrotar os carros de guerra persas e subjugar o seu império, Alexandre derrotou os elefantes de
                                                 guerra indianos e fundou um reino grego no noroeste da Índia
             
O mérito principal de Alexandre foi criar táticas que derrotaram os soldados sobre rodas e deram supremacia à infantaria, pois o seu exército era pequeno e quase não tinha cavalaria. Por isso teve de elaborar modos inovadores para vencer os carros de combate nas planícies da Ásia Menor, onde eram senhores absolutos. Suas geniais táticas os aniquilaram, permitindo-lhe destruir a infantaria persa, muito inferior à grega, como evidenciado nas Guerras Médicas 150 anos antes. Com a fartura de cavalos capturados, seu segundo maior mérito foi abolir de vez o carro de guerra, substituindo-o pela cavalaria e marchando velozmente até os confins do mundo conhecido na época. Com o cavalo, ele tornou-se o único general até hoje que conseguiu dominar o Afeganistão. Depois conquistou o Paquistão e invadiu a Índia, derrotando os elefantes do rei Poros na batalha do rio Indo e fundando um reino grego no noroeste do subcontinente indiano.

                Alexandre foi o primeiro Grande Rei a combater a cavalo e substituiu os esquadrões de carros por
                     esquadrões de cavalaria. Com a nova arma ele conquistou todo o mundo conhecido na época 

Apesar de mesmo com Alexandre a cavalaria não ser a arma principal e funcionar apenas como valioso auxiliar da infantaria, vê-se que utilizando-a inteligentemente ele não somente derrotou grandes esquadrões de carros como também grandes esquadrões de elefantes, o que é quase inacreditável. As suas façanhas militares não têm igual na História e nos deixam ainda mais abismados ao sabermos que ele, assim como todos os generais dos mil anos seguintes, conseguiu usar a cavalaria como eficiente arma de guerra sem contar com um apetrecho equestre essencial ao bom manejo do cavalo: o estribo!
             
Embora não saibamos onde e quando o estribo foi inventado, nem quem o inventou, sabemos que no final do século V surgiram na Europa as primeiras pinturas de cavaleiros usando-os. Assim, é provável que os seus inventores tenham sido os hábeis cavaleiros das estepes russas, onde o cavalo era abundante, e tenha sido trazido ao Império pelos godos no final do século IV, quando emigraram em massa para o seu território fugindo dos temíveis cavaleiros hunos, mas isso é muito duvidoso porque não há evidências de que hunos usassem estribos. Também não está excluída a hipótese de que os próprios romanos o tenham inventado no mesmo período, pois, embora não possuíssem o dom da originalidade, eram práticos e criativos quando se tratava da arte da guerra, mas disso também não temos provas.

Estátua equestre do século II DC mostrando o imperador
                           Marco Aurélio a cavalo sem o uso de estribos

O que sabemos de concreto sobre o papel da cavalaria no final do Império Romano é que devido à anarquia política e militar do século III o Império ficara empobrecido e a famosa Legião Romana, com seus milhares de homens agrupados em esquadrões de infantaria, teve os seus efetivos reduzidos. Isto trouxe a necessidade de adaptá-la aos novos tempos, compensando maior fraqueza com maior mobilidade, o que só poderia ocorrer com o uso mais intensivo do cavalo. Aos poucos, as coortes a pé foram substituídas por coortes montadas e no final do Império a cavalaria finalmente se tornou mais importante que a infantaria no exército romano, embora não tanto quanto se tornaria na Idade Média.

                     A legião romana era constituída basicamente pela infantaria. Só no último século
                                do Império foi que a cavalaria sobrepujou a importância da infantaria

No final do século IV, no reinado de Teodósio, o exército era bem menor do que fora no reinado de Trajano três séculos antes, mas um terço dele estava montado a cavalo e era muito mais ágil do que no passado. Devido à nova importância da cavalaria, não é de se duvidar tenham os práticos fabricantes de arreios criado o estribo para torná-la mais eficiente, mas não há certeza. Tudo que sabemos é que o ótimo equipamento eqüestre não existia antes, pois não há pinturas, gravuras ou esculturas mais antigas onde ele esteja presente. Os gregos e os romanos não cultivavam o gênero estátua eqüestre, só o fazendo muito raramente. A única que nos chegou é a do imperador Marco Aurélio, esculpida no final do século II, na qual o estribo não aparece.
             
Devido à pobreza artística dos séculos posteriores, muitos argumentam que as poucas gravuras supostamente da época são bem mais recentes e que o estribo só apareceu na Europa no século VII ou VIII, final da Alta Idade Média, o que nos parece bem mais provável, pois é só no século VIII que surgem grandes exércitos inteiramente a cavalo e travando importantes batalhas, como a de Poitiers entre cristãos e muçulmanos no sudoeste da França.
                                           O pesadamente couraçado cavaleiro medieval não poderia ter existido
                                                                           se não fosse a invenção do estribo

Após as invasões bárbaras e a queda do Império Romano, a invenção do estribo permitiu que a cavalaria se tornasse a principal arma de guerra durante a Idade Média, mas o alto preço das sofisticadas armaduras do cavaleiro e do cavalo a tornaram privilégio dos nobres ricos. Um nobre que não tivesse suficiente fortuna jamais poderia ser cavaleiro, pois aos custos das couraças e armas somavam-se as despesas com cavalos, escudeiros, pagens, demais criados e todo o necessário aparato ao seu cuidado e manutenção.

 A Cavalaria Medieval nascerá e viverá à sombra dos castelos de poderosos senhores
          feudais, sedes do poder temporal na Europa após o fim do Império Romano
            
De sua origem modesta no século IV AC como veloz transporte de tropas e excelente auxiliar da infantaria pelas mãos de Alexandre, a Cavalaria evoluiu de simples arma de guerra para tornar-se categoria sócio-militar no século VIII DC e reinar suprema como máxima expressão militar da nobreza européia durante toda a Idade Média, só vindo a eclipsar-se às vésperas do seu final no século XV.



segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Post nº 51

NASCIMENTO  E  MORTE  DA
CAVALARIA  MEDIEVAL

Cavaleiros Medievais avançam para a batalha. Cena do filme sueco "Arn - O Cavaleiro Templário"

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O que chamamos de “Cavalaria Medieval” foi um fenômeno social e político que ocorreu sob forma militar e que, a grosso modo, nasceu no século IX e morreu no século XV. Todavia nossas pesquisas mostram que suas raízes são bem mais antigas, pois suas sementes foram plantadas  ainda no século IV AC por Alexandre Magno. Já sabemos, mas não custa repetir que até então a arma principal dos grandes exércitos era o “carro de guerra”, veículo tosco sobre duas rodas puxado por cavalos e dirigido por hábil cocheiro; junto deste ia um arqueiro de elite disparando flechas contra inimigos à direita e à esquerda, rompendo as linhas adversárias e pondo-as em fuga; depois as perseguia e as aniquilava. Quando as fileiras eram muito compactas, desfilava à sua frente em grande velocidade atirando-lhe flechas e as rodeava para atacá-las pela retaguarda, forçando-as a sair da sua sólida formação de batalha. Só então a infantaria avançava e terminava o serviço. A Ilíada se refere ao carro de guerra no episódio da luta entre Heitor e Aquiles: ambos lutam a pé, mas quando Aquiles sai vencedor ele ata o cadáver de Heitor ao seu carro e o arrasta triunfalmente em torno da cidadela inimiga. Tal como os anteriores grandes impérios da antiguidade, os persas o tiveram como principal arma dos seus exércitos e é com a sua final derrota frente aos gregos que o carro de guerra desaparece. Existe uma famosa pintura mural nas ruínas de Pompéia retratando com alta dose de simbolismo o decisivo momento da História Militar em que a cavalaria sobrepuja o carro de combate como arma de guerra: no meio da batalha, Dario em seu sofisticado carro foge de Alexandre que o persegue em seu simples cavalo!

             Neste famoso mural preservado pelas cinzas do Vesúvio em Pompéia, o rei Alexandre da Macedônia
                                              em seu cavalo persegue o rei Dario da Pérsia em seu carro de combate

A partir de Alexandre os esquadrões de carros foram substituídos por esquadrões de cavalaria, mas cavalos eram também de aquisição e manutenção dispendiosas; por isso a cavalaria era formada quase que somente por nobres e o seu papel sempre foi acessório até o último século do Império Romano. Na barafunda do período seguinte, chamado de Alta Idade Média, os exércitos regulares sumiram no Ocidente e somente voltaram no século VIII com Charles, rei dos francos, mais tarde elevado pelo Papa à dignidade de Imperador Romano sob o nome de Carolus Magnus (Carlos Magno) e chamado pelos franceses de Charlemagne. Seu exército possuía grandes esquadrões de cavalaria, pois os invasores bárbaros dos séculos V e VI tinham trazido vastos rebanhos de cavalos do leste europeu, tornando-os abundantes no Ocidente. Assim, os seus melhores cavaleiros ficaram famosos, formando uma elite de guerreiros chamados de Pares de França pelo povo, ou seja, companheiros do Rei tão bravos e nobres quanto ele!

      O imperador Carlos Magno, maior dos soberanos medievais e criador da cavalaria como
                               instituição social e política. Tela de Louis Felix Amiel (séc. XIX)

Mesmo na antiguidade os cavaleiros geralmente eram soldados nobres e os romanos haviam criado uma categoria chamada de Ordem Eqüestre, cujos membros, denominados cavaleiros, situavam-se logo abaixo da Ordem Senatorial, formada pelos patrícios. Mas o que no Império Romano era apenas uma categoria social de segunda classe, no Império Carolíngio tornou-se uma casta militar e uma categoria social de primeira classe. O título de cavaleiro se tornou mais ambicionado que o de conde ou barão, pois muitos destes não o tinham e por isso não gozavam da mesma estima e prestígio por mais ricos que fossem. Mesmo o poder sobre seus vassalos ficava enfraquecido se não o tivessem, e por isso não era raro ver-se príncipe querendo adquirir o status, que somente conseguia após realizar grandes façanhas militares e passar por uma pomposa cerimônia religiosa. Claro que havia consagrações indevidas onde o prestígio político pesava mais que as façanhas exigidas, pois ser “sagrado cavaleiro” passou a ser a ambição de todo nobre desejoso de fama, popularidade e sucesso com as damas.

        Ser sagrado cavaleiro era a maior ambição do jovem nobre

Quando em 1176 o futuro rei da Inglaterra Ricardo Coração de Leão se fez sagrar cavaleiro em Paris, apesar de já ser duque reinante da Aquitânia e guerreiro famoso, nenhuma dúvida restou mais na cabeça dos aristocratas de que ser sagrado cavaleiro era essencial ao guerreiro nobre por mais importante que ele fosse! Todavia não é demais lembrar que o cavaleiro medieval com a sua pesada armadura só se tornou possível graças à revolucionária invenção do estribo no século VII da nossa Era. Hoje nos parece inacreditável que um tão óbvio apetrecho para quem quer montar e andar a cavalo não existisse antes, entretanto, por mais absurdo que pareça, era sem ele que as pessoas tinham cavalgado e a cavalaria tinha sido militarmente utilizada durante séculos. A partir da invenção do estribo cavalgar e lutar passou a ser muito mais fácil e militarmente eficaz, possibilitando ao cavaleiro, que até então tinha de usar couraça leve para montar e desmontar, usar pesadas armaduras para combater. Porém necessitava de um escudeiro para vesti-lo e levar seu armamento, ajudando-o na complicada tarefa de montar. Só depois é que o escudeiro lhe passava o escudo e a lança. A difícil operação repetia-se na hora de desmontar e o alto custo do sofisticado aparato e de posuir um escudeiro tornava a condição de cavaleiro impossível para quem não fosse das classes altas. Assim, a cavalaria tornou-se privilégio dos mais nobres entre os nobres. Por outro lado, cavaleiros e cavalos pesadamente couraçados permitiram a criação de grandes esquadrões de cavalaria blindada, coisa que tornou o seu ataque irresistível e deu à cavalaria medieval absoluta supremacia sobre a infantaria no campo de batalha.

        As batalhas das cruzadas foram travadas principalmente entre batalhões de cavaleiros
                          cristãos e muçulmanos. A infantaria foi acessória. Iluminura medieval

No século XI a cavalaria tornou-se uma espécie de carreira militar-aristocrática. Para chegar à dignidade de cavaleiro percorria-se um longo caminho, como se fosse um curso escolar, e adotava-se um modo de vida específico. A criança nobre era entregue aos sete anos de idade aos cuidados de um cavaleiro e da sua nobre família para servi-lo como pajem por outros sete anos; se tivesse aptidão e disciplina, passava a escudeiro aos qutorze, podendo portar lança e espada; ao mesmo tempo cuidava da armadura e do armamento do seu mestre, ajudando-o a vestir-se, armar-se, montar e desmontar. Os escudeiros tinham sob suas ordens os pajens e os cavalariços, cujo trabalho era fiscalizado com rigor para que nada saísse errado. Após sete anos como escudeiro, caso fosse aprovado por seu mestre, tornava-se cavaleiro em solene cerimônia religiosa e militar após passar a noite anterior orando na capela do castelo. Ao amanhecer confessava-se, assistia missa e comungava; ao final o sacerdote abençoava suas armas, fazendo-o jurar de joelhos fidelidade à Igreja, ao seu senhor e a lutar pela justiça em defesa dos fracos e necessitados; em seguida seu mestre tocava-lhe com a espada o topo da cabeça inclinada em contrita oração e declarava-o cavaleiro; seguia-se um torneio onde demonstrava ao público suas habilidades e o seu dia inesquecível terminava com banquetes e danças. Porém o que mais enobreceu a instituição na Idade Média foi a criação de um rígido Código de Conduta, no qual não era admitido ao cavaleiro qualquer tipo de comportamento vulgar ou desonroso. Além de cristão devoto, ele devia ser humilde, honesto, bravo, leal e, sobretudo, generoso com os fortes e os fracos.

       Combater vilões e monstros para defender os fracos, sobretudo damas indefesas, é
                        obrigação primordial do cavaleiro. Tela de Burne Jones (séc. XIX)

Embora isso fosse mais teoria que prática, com a dura realidade sempre se impondo sobre os princípios éticos, uma auréola de respeitabilidade e estima públicas se estendeu sobre a cavalaria. Em tempos de paz o mais sofisticado divertimento eram os torneios que os cavaleiros disputavam sob o patrocínio de reis e príncipes, assim como as estórias e poemas celebrando os seus feitos guerreiros e proezas galantes. As aventuras misturavam o real com o maravilhoso em um mundo de magia povoado por santos, vilões, bruxas, magos e seres fantásticos que o cavaleiro precisava vencer no cumprimento de sua nobre missão em defesa da justiça ou do amor.

              Dos séculos XI a XIV a cavalaria dominou as batalhas. O príncipe vencedor era sempre o que tinha a
                                                seu serviço os melhores cavaleiros. Tela de Sir John Gilbert (séc. XIX) 

 A literatura elevou ainda mais o prestígio da Cavalaria Medieval, que  alcançou o seu maior esplendor nos séculos XII e XIII quando as cruzadas chegaram ao auge e as ordens religiosas militares foram criadas. Foi também o período da 1ª Renascença, espalhando por toda a Europa Ocidental as universidades e as catedrais góticas. Nas primeiras décadas do século XII apareceu em forma escrita o poema popular Chanson de Roland, celebrando os feitos do bravo cavaleiro de Charlemagne, e o bispo Geofrey de Monmouth publicou a sua História dos Reis da Inglaterra, apresentando o lendário Rei Arthur como real personagem histórico. A obra foi o primeiro best seller da história e o bispo ficou rico e famoso. Porém o mais importante foi que o seu livro de história provocou um enorme movimento ficcional que podemos tomar como marco criador do gênero romance para os latinos e novel para os anglo-saxônicos.

 Rolland viveu no século VIII, antes do apogeu da cavalaria, mas é o maior
      dos cavaleiros medievais. Gravura de Alphonse de Neuville (séc. XIX)

Em um século tão rico de fervor religioso, intelectual, literário, artístico e guerreiro, na cavalaria militar destacaram-se o rei cristão Ricardo Coração de Leão e o sultão muçulmano Saladino como os maiores representantes dos seus nobres ideais de bravura e cavalheirismo. Para coroar o apogeu da aristocrática instituição, o poeta francês Chrètien de Troyes criou o gênero literário Romance de Cavalaria e de Amor Cortês, onde a lenda do Rei Arthur e dos cavaleiros da távola redonda adquiriu caráter romanesco, povoando de fantasias os corações apaixonados e aventureiros.

         Todo jovem aristocrata sonhava com os combates e as glórias da cavalaria, pois só assim teria o prestígio
                                     das cortes e o amor das mulheres nobres. Tela de Charles de Steuben (séc. XIX)

Outros talentosos escritores exploraram o filão descoberto por Chrètien, temperando o brutal panorama social e político da época com livros onde o fantástico e o maravilhoso misturavam-se em altas doses com o romance e a poesia. Assim, supriram com lindos poemas e emocionantes estórias de belas damas e galantes cavaleiros um mercado ávido de fantasiosas aventuras e amores apaixonados, fazendo da Cavalaria Medieval rendosa indústria e popular gênero midiático até os dias atuais.

                 Em 1415 os infantes ingleses com o arco longo derrotaram os cavaleiros franceses e a cavalaria
                                                            entrou em declínio. Tela de Sir John Gilbert (séc. XIX)

Mas no século XIV a Cavalaria entra em declínio com o fim das Cruzadas e a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos sofre graves derrotas em suas guerras contra os príncipes russos, fervorosos cristãos ortodoxos, e a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários é expulsa pelos muçulmanos de quase todas as suas bases no leste do Mediterrâneo. À adversidade militar junta-se a adversidade natural na figura tétrica da terrível Peste Negra que assola a Europa em meados do século. Calcula-se que um terço da população pereceu, os servos fugiram e os campos ficaram desertos, obrigando os senhores feudais a contratarem camponeses livres a alto preço para lavrarem suas terras. Com isso as classes baixas se fortaleceram e as classes altas se enfraqueceram, o que fez parcela significativa do poder militar e político transferir-se para os burgos e os seus moradores, chamados de burgueses.

Sempre carentes de dinheiro e soldados, em troca deles os reis outorgaram aos burgos grandes privilégios, fazendo os ricos mercadores, especialmente os dos grandes burgos comerciais, tornarem-se mais importantes que os outrora poderosos barões dos grandes feudos rurais. Com a sua decadência econômica e política, agravou-se a decadência militar dos nobres cavaleiros medievais, seus pares.

      No século XIV a Peste Negra matou um terço da população e os servos abandonaram os campos.  O declínio                                                                    econômico dos senhores agravou o declínio militar dos cavaleiros. Gravura do século XIX

Finalmente, no começo do século XV, a plebéia infantaria de camponeses ingleses, armados com o prosaico porém mortífero “arco longo” que usavam para caçar nos bosques, esmagou a nobre cavalaria francesa na histórica batalha de Agincourt. Mortos a flechadas os cavalos, os couraçados cavaleiros que escapavam das flechas tinham dificuldade de se levantar e eram implacavelmente degolados pelos ágeis camponeses ingleses, que assim eliminaram dois terços da alta nobreza da França.

                                  Após setecentos anos de hegemonia, a nobre cavalaria é esmagada pela plebeia
                                                        infantaria em Agincourt. Tela de Sir John Gilbert (séc. XIX)

A matança em Agincourt da fina flor da cavalaria francesa, a mais brilhante e poderosa da Europa, é um golpe que faz a instituição agonizar e morrer. Em poucos anos ela desaparecerá de todos os exércitos europeus como principal arma de guerra e o nome de cavaleiro tornar-se-á apenas um título nobiliárquico vazio de qualquer conteúdo ético ou guerreiro. As tentativas do Rei Sebastião de Portugal para ressuscitá-la no século XVI terminam em desastre e todos que ainda com ela sonham são ridicularizados por Miguel de Cervantes em seu Dom Quixote de La Mancha. 

            Cervantes ridicularizou no Dom Quixote o que sobrara da Cavalaria
                                 Medieval. Gravura de Gustave Dorée (séc. XIX)

A cavalaria ainda ensaiará tímido retorno em meados do século XIX na Guerra da Crimeia e na Guerra Civil Americana. Nesta tornou-se lendária A Carga do General Pickett da cavalaria do Sul contra a infantaria do Norte e naquela ficará mundialmente famosa A Carga da Brigada Ligeira da cavalaria inglesa contra a infantaria russa graças ao popular romance escrito por Alfred Tennyson alguns anos depois. Mas apesar de heroicas as famosas cargas foram rechaçadas e massacradas pelo nutrido fogo inimigo, mostrando que não havia mais lugar para elas nas grandes batalhas campais onde a arma de fogo reinava soberana. Porém o que mais nos impressiona nos dias de hoje é que, embora morta no mundo real como suprema arma militar e ideal ético há mais de seiscentos anos, a Cavalaria Medieval continua viva no mundo dos sonhos e da fantasia de uma imensa legião de admiradores.

Vai ser difícil tirá-la desse mundo encantado!


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Post nº 50


O  IMPERADOR  GRACIANO  REALMENTE
NOMEOU  TEODÓSIO  IMPERADOR
ROMANO  DO  ORIENTE ?

Efígie de Graciano em moeda do século IV. Era bom político e talentoso general que teria feito
ótimo governo se não fosse assassinado aos vinte e quatro anos de idade por um traidor

Mapa da região central do Império Romano do Ocidente elaborado para a edição inglesa
do meu livro "intimate Memories of Flavius Marcellus Aetius"

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A história está cheia de "verdades oficiais" que se tornam bastante duvidosas se os fatos forem examinados com lógica simples. Uma dessas "verdades" é a de que, após a esmagadora vitória dos godos sobre os romanos orientais na grande batalha de Adrianópolis em 378 e a resultante morte do imperador Valente, o seu sobrinho e herdeiro Graciano, imperador ocidental, mandou chamar na Espanha o hábil e popular general Teodósio e o nomeou sucessor do tio falecido. Com o geral apoio dos seus antigos colegas, altos oficiais remanescentes do semi-destruído exército oriental, o competente Teodósio teria conseguido salvar o Império da total catástrofe contando com o decidido apoio de Graciano, que tivera o bom senso de nomeá-lo co-imperador naquela hora decisiva.
         
Essa versão, partilhada pelo grande historiador inglês Edward Gibbon, é muito duvidosa porque Teodósio e Graciano eram mais inimigos do que "amigos", pois havia fundadas suspeitas deste ter participado da intriga que resultara no assassinato do pai de Teodósio, bravo general e homem de confiança do falecido imperador Valentiniano I. Muitos tinham mesmo a certeza de que a ordem para a execução do velho Teodósio partira diretamente de Graciano e que o filho somente escapara porque servia no Oriente sob as ordens de Valente, irmão de Valentiniano I.
            
O mais plausível é que os fatos tenham se passado assim: pouco antes de morrer em 376, o monarca teria dito, ao seu leal e valoroso ministro Teodósio pai, que gostaria de ter como sucessor o adolescente Valentiniano II, filho do seu segundo casamento, e não o seu filho primogênito, fruto de um primeiro casamento e herdeiro natural, Graciano. A imperatriz Justina, sua segunda esposa, era mulher enérgica e ambiciosa que criara um partido em favor do filho, provocando grande tumulto no processo sucessório. Muito hábil, o legítimo herdeiro Graciano contornara o problema fazendo um acordo com Justina: ele governaria as províncias do Ocidente, encarregando-se da árdua defesa das fronteiras da Gália contra os agressivos germânicos, e dividiria a púrpura imperial com o irmão menor, que governaria a Itália tendo a mãe como regente. Justina aceitou prazerosamente porque o seu interesse era ficar mandando e intrigando na confortável corte de Roma. Para ela pouco importava que o seu austero e devoto enteado Graciano se matasse guerreando invasores bárbaros lá no fim do mundo!
         
Porém a disputa deixou sequelas que não foram resolvidas pelo acordo e a pior de todas foi o assassinato do general Teodósio pai, disfarçado como "execução sumária por ordem imperial", não ficando esclarecido se a ordem partiu de Graciano ou do infante Valentiniano II, através de sua mãe e regente Justina. Embora não se saiba muito bem o papel do velho Teodósio na disputa, tudo indica que ele ficara ao lado de Justina, de quem era amigo íntimo devido à estreita amizade que mantinha com o seu falecido marido. Ademais, não havia razões para Valentiniano querer deserdar o seu primogênito, e é possível que tudo tenha sido invenção da própria Justina em conluio com o seu amigo ministro. Se foi assim, o velho Teodósio, por seu peso militar e político, era uma pedra no sapato de Graciano e este teria decidido se livrar dele, mas não é de se excluir a versão de que ele teria rompido com Justina e esta mandara eliminá-lo porque a sua ida para o lado de Graciano mudaria definitivamente o peso da balança.

Moeda do século IV com a efígie de Teodósio, supostamente nomeado imperador
do Oriente por Graciano, imperador romano do Ocidente
         
Fato é que devido a ignominiosa morte do seu pai, o jovem Teodósio, que servia no Oriente sob as ordens de Valente, desgostou-se de toda a família imperial e demitiu-se do exército, afastando-se da política para cuidar dos seus vastos negócios na sua Espanha natal.
         
É aí que a história fica embaralhada. A derrota e morte do imperador Valente na batalha de Adrianópolis foi em agosto, mas a história oficial diz que dois meses depois Teodósio estava na Grécia assumindo o trono oriental após ser nomeado por Graciano, o qual, desde a derrota e morte do tio em combate, voltara para a Itália e lá se entrincheirara no aguardo de uma possível marcha dos godos sobre Roma. A indagação que se impõe é: como e por que razão poderia Graciano tão rapidamente ter chamado na Espanha o seu suspeitoso desafeto e o nomeado Imperador do Oriente?
         
É mais lógico pensar que os fatos se passaram de modo diferente.

Creio que, informado ainda no final de agosto da derrota de Valente e da sua morte em batalha, Teodósio imediatamente embarcou para a Grécia com um punhado de altos oficiais seus partidários e no final de setembro já estava lá tramando a sua eleição junto aos antigos colegas sobreviventes do desastre, com os quais certamente deveria ter estado em contato nos dois anos posteriores ao assassinato do seu pai por Graciano. Como Valente não tinha filhos, o lógico é que ele viesse a ser sucedido por um dos seus generais e não pelo seu distante sobrinho Graciano, com o qual os altos oficiais não tinham qualquer aproximação ou afinidade.

O assassinato do estimado e admirado velho general Teodósio por membros da família imperial deve te-los colocado contra os herdeiros de Valentiniano e ao lado do popular e jovem colega Teodósio filho para o caso de uma eventual sucessão. É lícito supor, portanto, que a ascensão de Teodósio ao trono do Oriente se deveu a uma conspiração do alto escalão militar oriental em andamento há tempos, e não a uma escolha de Graciano. Este  limitou-se a reconhecer o fato consumado, pois não tinha como se opor, eis que mal podia defender dos bárbaros a Itália mediocremente governada por sua madrasta, que dirá envolver-se em guerras civis em lugares distantes por ele desconhecidos, ainda ocupados em parte pelos godos. Melhor cuidar dos seus já enormes problemas no Ocidente e deixar outros problemas mais longínquos a cargo de quem tivesse poder e competência para fazê-lo.

A conclusão correta é que Graciano nem chamou nem nomeou Teodósio, e o que ocorreu foi um Golpe de Estado articulado por este e por seus amigos generais sobreviventes do massacre de Adrianópolis. Tudo muito diferente da bem comportada versão oficial, contando o episódio como se a sucessão tivesse sido feita em perfeita obediência aos trâmites legais, tão ao gosto dos devotos historiadores da Idade Média ansiosos por glorificar o seu ídolo Teodósio, que varrera os últimos vestígios de paganismo no Império e fora por isso apelidado de Teodósio o Grande.

         



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Post nº 49

MAIS UMA PÁGINA EM QUADRINHOS DO MEU
ROMANCE O "SENHOR DOS DRAGÕES"

I

O SONHO PROFÉTICO DE MERLIN


1 - Merlin acorda dizendo:"Louvado seja Deus"!
  2 - Merlin levanta-se preocupado.
  3 - Cloé pergunta:"O que aconteceu"?
  4 - Merlin abre a gaveta de um móvel e apanha alguns objetos dizendo: "vamos rezar"!
   5 - Cloé pergunta: "Você sonhou com algo grave"? E Merlin diz: "Sim; o pequeno Arthur será Rei da Britannia"!
    6 - Cloé exclama:"Deus seja louvado! Mas como será isso possível se a Britannia é só uma província do Império Romano"?











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sábado, 22 de outubro de 2011

Post nº 48


PÁGINA DE ABERTURA DO MEU LIVRO
"O  SENHOR  DOS  DRAGÕES"
EM QUADRINHOS

O futuro Rei Arthur à frente dos seus soldados romano-britânicos contrataca  e
esmaga os invasores bárbaros que conseguiram  ultrapassar  as  fortificações
da Muralha de Adriano e espalharam o terror, a morte e a destruição por
todo o norte da Britannia





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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Post nº 47


PRIMEIRA  PÁGINA  DO  MEU  LIVRO
"O  SENHOR  DOS  DRAGÕES"
EM  QUADRINHOS


1 - Castelo de Uther, o Senhor dos Dragões, no sudoeste da Britannia.

2 - Uther está furioso com o filho Arthur e grita: "Bah! Você é um malandro e não será nada na vida quando crescer"!

3 - O pequeno Arthur não se atemoriza: "serei um grande guerreiro e lutarei em terras distantes"! 

4 - Uther fica mais calmo: "ótimo que você seja um grande guerreiro, mas aqui defendendo nossos domínios e não em terras distantes defendendo domínios dos outros"!

5 - Arthur responde enfático: "não quero saber de criar gado nem de amansar dragões como o senhor; serei um legionário romano e um dia governarei a Britannia"!



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segunda-feira, 26 de setembro de 2011


Post nº 46

O FIM  DA  IDADE  CLÁSSICA  E  O  INÍCIO  DA  IDADE  MÉDIA

Ruínas de Olímpia na Grécia onde realizavam-se as Olimpíadas. O devoto imperador Teodósio
as proibiu no ano de 393 porque os cristãos as julgavam um indecente festival pagão



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A história do mundo ocidental geralmente é dividida em quatro Idades para fins didáticos: a Idade Antiga, começando por volta do século XXX AC com a hegemonia da civilização egípcia no Oriente Próximo e terminando no século VI AC com a hegemonia da civilização grega na Europa; a Idade Clássica, que vai do apogeu da civilização grega no século V AC até a queda do Império Romano do Ocidente no século V DC frente aos bárbaros, seguindo-se a Idade Média, que acaba no século XV DC com a queda do Império Romano do Oriente frente aos turcos. Desde então vivemos na quarta Idade: a Moderna. Quanto às duas últimas, chega-se mesmo a fixar datas de morte e nascimento: 476 para o fim da Idade Clássica e início da Idade Média, e 1453 para o fim desta e início da Idade Moderna.

Todavia discordo, pois a passagem de uma Idade à outra não depende da ocorrência de um fato, mas de uma profunda mudança cultural que pode durar décadas e até mesmo séculos. Assim, a passagem para a Idade Clássica é sobretudo a substituição do pensamento mágico antigo pelo pensamento lógico clássico na esfera do saber, e a passagem para a Idade Média nada mais é que o advento do predomínio da fé espiritual sobre a razão material, ou seja: a vitória do teológico sobre o lógico. Já a Idade Moderna é fruto do reverso e da volta aos valores clássicos através da Renascença e dos grandes feitos políticos, geográficos e astronômicos dos séculos XV e XVI, causando a Revolução Científica que desemboca no iluminismo e no liberalismo.

Mudanças culturais profundas aparecem no modo de ver coisas triviais como o "banho". Para os clássicos é vida civilizada, para os medievais é vida pecaminosa. Quadro de Sir Lawrence Alma-Tadema (séc. XIX) 

Isto não significa rupturas súbitas, mas lentos processos durante os quais um modo de pensar vai aos poucos substituindo o outro. Mesmo quando a substituição se completa muitos elementos do pensar anterior continuam presentes pela adaptação e integração ao pensar posterior, fazendo com que tenhamos sempre conosco o essencial das Idades precedentes. Assim, uma Idade é sempre a continuação das que a precedem, para o melhor ou para o pior, e não um banho lustral que retira o passado e deixa só o presente e a perspectiva do futuro.
 

Os circos representam a pujança esportiva, os banhos a social e os teatros a  cultural da Idade Clásica.
Eles desaparecerão na Idade Média e só voltarão gradualmente na Idade Moderna 
       
No caso do fim da Idade Clássica há uma lenta corrosão dos valores antropocêntricos que a presidiam, sobretudo em seus aspectos éticos e estéticos, começada ainda no reinado de Marco Aurélio no final do século II, mas isto só fica evidente durante a anarquia político-militar do século III, quando as pessoas fustigadas pelas guerras e pela miséria econômica começam a ansiar pelas felicidades celestiais em lugar das desgraças terrenas, encontrando no cristianismo o amparo às suas aflições e o desaguadouro natural das suas insatisfações. As crises política, econômica e moral levam o imperador Diocleciano a instaurar um regime quase totalitário de controle da economia e da sociedade, vendo erradamente no cristianismo a causa e não a conseqüência do descalabro institucionalizado.

Mas a feroz repressão antes fortalece que enfraquece a nova ética, pois a sua substância e forma espirituais encontram solo fértil na religiosidade natural das pessoas simples, ao contrário das éticas eruditas dirigidas somente às escassas camadas intelectuais da população. Transformado em ética de massas o cristianismo torna-se religião oficial no reinado de Constantino, mas não há ainda nada que indique o fim da Idade Clássica, pois a liberdade de pensamento religioso, filosófico, literário, artístico e científico não é cerceada. O costume e o gosto individuais continuam dentro da esfera dos direitos privados e no próprio cristianismo várias correntes de pensamento se desenvolvem com vigor.

A requintada vida social da Idade Clássica desaparecerá na Idade
Média. Quadro de Sir Lawrence Alma-Tadema (séc. XIX)

Nem mesmo quando o imperador Juliano tenta trazer de volta os antigos cultos há repressão aos cristãos, apenas se lhes proibindo que invoquem os filósofos pagãos em apoio da sua doutrina. Os sucessores de Juliano são cristãos da seita Ariana (seguidores da doutrina cristã unitária do bispo Ário) e isto faz com que adotem a mesma política de tolerância dos seus antecessores, bem de acordo com a tradição inclusiva dos romanos.

Teodósio era bom político e general, mas seu fanatismo religioso o fez perseguir os pagãos e alijar
os cristãos arianos. Os cristãos ortodoxos o chamaram "Teodósio o Grande"
         
De notar que a passada perseguição aos cristãos não tinha motivos religiosos, mas políticos, pois sob as leis romanas podia-se adorar qualquer deus desde que não ofendesse aos demais deuses, entre os quais estava o próprio imperador. Porém os cristãos mais devotos não obedeciam à norma, não só desrespeitando como amaldiçoando os deuses alheios por considera-los demoníacos, às vezes quebrando estátuas e danificando templos. As punições criminais que sofriam os faziam revoltar-se contra as leis e autoridades, dando-lhes fama de subversivos turbulentos cuja fidelidade ao imperador era mais que duvidosa. Por isso eram considerados “inimigos” latentes do Estado e de tempos em tempos eram perseguidos, sobretudo quando havia necessidade de um bode expiatório para alguma eventual catástrofe, mas quando a religião de um não interferia com a religião do outro o culto era tolerado, e até mesmo o culto judaico do Deus Único Invisível tinha um templo em Roma.  

Porém esta liberdade religiosa sofre uma radical mudança em 378 após a batalha de Adrianópolis. Embora o falecido imperador Valente fosse cristão ariano a sua derrota pelos godos arianos foi largamente interpretada pelos cristãos ortodoxos como castigo divino tanto ao imperador “herético” como ao Império “herético” pelas mãos de “bárbaros heréticos”, de sorte que o embate entre as duas seitas deixa de ser assunto religioso para se tornar questão político-militar. Para piorar as coisas, Teodósio, sucessor de Valente, é ortodoxo devoto e endossa as razões dos seus conselheiros espirituais, não só privando os cristãos arianos de todo e qualquer favor ou privilégio face às leis e autoridades imperiais como decretando o fechamento dos templos pagãos e criminalizando os seus cultos. Assim, os templos pagãos que não se tornam igrejas ortodoxas são condenados ao abandono e as igrejas cristães arianas são privadas de personalidade jurídica, impedindo-as legalmente de transacionarem ou de receberem legados e doações por via oficial.

A ruína do Paternon começa quando cristãos ortodoxos destroem a estátua da deusa Athena esculpida 
por Fídias e entronizada no templo há oitocentos anos. Depois o transformam em igreja ortodoxa
       
Após destruir a liberdade religiosa, pilar do mundo clássico, Teodósio adota extremado zelo ortodoxo e manda fechar as Escolas de Filosofia, especialmente as de Atenas, por serem focos de “doutrinação pagã”, encerrando uma tradição cultural que se confundia com a própria Idade Clássica. Também proíbe os jogos circenses e os espetáculos teatrais por serem “ímpios”, condenando os majestosos circos e anfiteatros à destruição pela ação do tempo. Por julgar serem os banhos públicos “antros de devassidão” ele os manda fechar e luxuosas termas, como as construídas em Roma pelo imperador Caracala no início do século III, têm a mesma sorte de majestosos circos como o Coliseu.

Reconstituição gráfica das "Termas de Caracala", o maior e mais luxuoso banheiro público
de todos os tempos, fechado pelo imperador Teodósio no fim da Idade Clássica

Relegados ao abandono durante 1.600 anos, os luxuosos banhos públicos do  imperador
 Caracala ainda impressionam pelas suas majestosas ruínas 
         
Teodósio conclui a sua obra de destruição do mundo clássico proibindo as Olimpíadas, festival religioso-esportivo que se realizava quadrienalmente no santuário de Olímpia desde o século VIII AC para honrar os deuses pagãos que lendariamente habitavam no cume do Monte Olimpo. Ele nem sequer cuida de uma operação sincrética para salvar uma bela tradição milenar, fazendo dos jogos festival em honra de santos cristãos ao invés de deuses pagãos: simplesmente os proíbe!

O monumental Coliseu era o maior e mais luxuoso circo da antiguidade. Todo em mármore, em cada janela
havia a estátua finamente esculpida de um deus pagão. Tudo isso desapareceu na Idade Média
       
No início do seu reinado ainda existiam quatro das "Sete Maravilhas do Mundo", das quais duas eram monumentos pagãos, o Templo de Diana em Éfeso e a Estátua de Zeus em Olímpia esculpida por Fídias no século V AC, mas suas proibições fazem o Templo de Diana virar depósito e a bela estátua  da deusa virar entulho ao ser destruída a marteladas. A mesma sorte terá a magnífica estátua do Zeus Olímpico de autoria de Fídias, um dos maiores arquitetos e escultores da História, de modo que Teodósio ao morrer terá destruído em pouco mais de uma década duas das mais belas criações artísticas da humanidade.

O Pantheon em Roma e o Parthenon em Atenas são poupados porque transformam-se em igrejas ortodoxas, mas as artísticas estátuas de deuses que os adornavam são destruídas. Assim, a majestosa estátua da deusa Athena Parthenos, também esculpida por Fídias no século V AC e desde então entronizada no Parthenon, é despedaçada e jogada no entulho. Todavia ressalte-se que muitos dos fechamentos e destruições não foram diretamente ordenados por Teodósio, mas por super zelosas autoridades locais, ansiosas por agradar e que  julgavam estarem apenas agindo de acordo com a sua política em geral, ou sucessores como o seu medíocre filho Arcádio, imperador romano do Oriente, que em 399 mandou demolir nos seus territórios todos os templos pagãos que não tivessem condições de servir como igrejas cristãs. Diante de tamanhas provas de virtude e devoção, a Igreja Ortodoxa, que ele fizera Igreja Oficial do Império, passa a chamá-lo "Teodósio o Grande" e ele morre ainda jovem em 395 após praticar um último ato de funestas conseqüências para o Império: ao invés de nomear sucessor o seu leal ministro e eficiente general Stilicon, nomeia os seus dois filhos adolescentes Arcádio e Honório, célebres pela petulante incompetência o primeiro e pela maldosa imbecilidade o segundo.

Embora não tenha causado a morte da Idade Clássica e o nascimento da Idade Média,
o devoto imperadorTeodósio foi coveiro de uma e parteiro da outra 

Não há notícia histórica de quem mandou destruir o mausoléu de Alexandre Magno, durante setecentos anos reverenciado em Alexandria pelos maiores personagens do mundo clássico, mas se não foi o zeloso Teodósio foi algum fanático ortodoxo ansioso por agradá-lo e fiel seguidor de sua orientação demolidora de tudo que lembrasse o paganismo, possivelmente o seu filho Arcádio a cuja jurisdição pertencia a província do Egito. Como dito acima, em 399 ele expediu decreto mandando transformar todos os templos pagãos sob sua jurisdição em igrejas cristãs e demolir aqueles em que isso não pudesse ser feito, sendo bem possível que pelo seu valor simbólico o mausoléu de Alexandre estivesse no segundo caso, pois era um misto de túmulo e templo pagão com sacerdotes que por ele zelavam e celebravam cerimônias em honra do Grande Rei elevado a deus. Era conhecidíssimo na antiguidade, mas referências ao mesmo cessam a partir de 392, data de uma carta do filósofo grego Libânio contendo a última referência conhecida ao túmulo do Conquistador. Depois disso faz-se impenetrável silêncio, só agora quebrado por arqueólogos que revolvem os sítios históricos de Alexandria em busca de pistas que expliquem o mistério. Portanto, se não foi Teodósio o autor direto da sua destruição foi ele o autor indireto de mais esta façanha contra a civilização greco-romana que lhe competia preservar.
 
Efígie de Alexandre em moeda do século IV AC. A destruição do seu Mausoléu em Alexandria, onde
 fora venerado durante 700 anos, deve-se à política religiosa fanática de Teodósio
       
Teodósio salvara Roma dos godos em 378, mas praticamente lhes a entrega em 395, pavimentando o caminho para que eles a conquistem apenas quinze anos depois. A catástrofe que o fim da Idade Clássica representa para a Civilização Ocidental pode ser avaliada no seguinte dado: no ano 400 as grandes e médias cidades europeias, todas elas integradas no Império Romano, possuiam água encanada, esgotos e coleta de lixo; mil anos depois nenhuma os possuía!

Mesmo no ano de 1700, mil e trezentos anos depois, Luís XIV, "O Rei Sol", constrói o magnífico palácio de Versalhes sem água encanada, sem banheiros, sem pias e sem sanitários. Banhos só eram tomados de tempos em tempos em largas tinas levadas aos reais aposentos quando a ocasião se oferecia, e necessidades fisiológicas eram satisfeitas em caixas especiais, depois tampadas e levadas pelos luxuosos corredores, espalhando o seu odor característico por todo o palácio. Não é de estranhar, portanto, que a requintada arte da perfumaria tenha atingido entre os franceses níveis altíssimos e dela tenha se tornada freguesa assídua toda a classe alta europeia. Isto nos faz afirmar com absoluta segurança que a nossa "Renascença", no que se refere aos hábitos de higiene comuns à Idade Clássica, somente começou nos últimos duzentos anos!

A higiene some na Idade Média e diz-se que rainha famosa só se banhou
duas vezes: ao nascer e ao morrer! Tela de Alma-Tadema (séc. XIX)

Bem examinadas as coisas, verifica-se que a Idade Clássica morre e a Idade Média nasce no final do século IV durante o reinado de Teodósio, e não no final do século V com a queda do Império Romano do Ocidente. Caso se deseje fixar uma data para a certidão de óbito de uma e a de nascimento da outra, creio que a data perfeita é 393, quando ele proibiu as Olimpíadas, pois nada simbolizou tanto a grandeza e a beleza do ser humano quanto elas e portanto nada melhor que a sua morte para representar o fim da cultura antropocêntrica da Idade Clássica e o início da cultura teocêntrica da Idade Média.

Após a morte de Teodósio o poder imperial dividiu-se e enfraqueceu, pois os dois novos imperadores eram adolescentes mimados e incompetentes, sem qualquer noção de governo. O Império Romano do Ocidente ficou sob a regência do ótimo general Stilicon, mas ele foi desde logo hostilizado pela elite romana, tanto do Oriente como do Ocidente, por ser filho de modesto oficial mercenário vândalo, mesmo sendo casado com uma sobrinha do falecido imperador. Ele ficou manietado no norte da Itália por grandes invasões bárbaras e pouca atenção deu aos assuntos internos, permitindo às autoridades locais reabrirem muitos dos teatros, circos e banhos fechados por Teodósio, embora sem a extensão e o esplendor de antes. O Império decaiu ainda mais após o assassinato de Stilicon em 408 e o cenário continuou igual por mais de um século, sobrevivendo à dissolução do Império do Ocidente em 476. O Coliseu e os banhos de Caracala só foram definitivamente fechados na primeira metade do século VI após os ostrogodos, senhores da Itália, serem derrotados pelas tropas de Justiniano, devoto ortodoxo que era Imperador Romano do Oriente com capital em Constantinopla.