segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Post nº 51

NASCIMENTO  E  MORTE  DA
CAVALARIA  MEDIEVAL

Cavaleiros Medievais avançam para a batalha. Cena do filme sueco "Arn - O Cavaleiro Templário"

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O que chamamos de “Cavalaria Medieval” foi um fenômeno social e político que ocorreu sob forma militar e que, a grosso modo, nasceu no século IX e morreu no século XV. Todavia nossas pesquisas mostram que suas raízes são bem mais antigas, pois suas sementes foram plantadas  ainda no século IV AC por Alexandre Magno. Já sabemos, mas não custa repetir que até então a arma principal dos grandes exércitos era o “carro de guerra”, veículo tosco sobre duas rodas puxado por cavalos e dirigido por hábil cocheiro; junto deste ia um arqueiro de elite disparando flechas contra inimigos à direita e à esquerda, rompendo as linhas adversárias e pondo-as em fuga; depois as perseguia e as aniquilava. Quando as fileiras eram muito compactas, desfilava à sua frente em grande velocidade atirando-lhe flechas e as rodeava para atacá-las pela retaguarda, forçando-as a sair da sua sólida formação de batalha. Só então a infantaria avançava e terminava o serviço. A Ilíada se refere ao carro de guerra no episódio da luta entre Heitor e Aquiles: ambos lutam a pé, mas quando Aquiles sai vencedor ele ata o cadáver de Heitor ao seu carro e o arrasta triunfalmente em torno da cidadela inimiga. Tal como os anteriores grandes impérios da antiguidade, os persas o tiveram como principal arma dos seus exércitos e é com a sua final derrota frente aos gregos que o carro de guerra desaparece. Existe uma famosa pintura mural nas ruínas de Pompéia retratando com alta dose de simbolismo o decisivo momento da História Militar em que a cavalaria sobrepuja o carro de combate como arma de guerra: no meio da batalha, Dario em seu sofisticado carro foge de Alexandre que o persegue em seu simples cavalo!

             Neste famoso mural preservado pelas cinzas do Vesúvio em Pompéia, o rei Alexandre da Macedônia
                                              em seu cavalo persegue o rei Dario da Pérsia em seu carro de combate

A partir de Alexandre os esquadrões de carros foram substituídos por esquadrões de cavalaria, mas cavalos eram também de aquisição e manutenção dispendiosas; por isso a cavalaria era formada quase que somente por nobres e o seu papel sempre foi acessório até o último século do Império Romano. Na barafunda do período seguinte, chamado de Alta Idade Média, os exércitos regulares sumiram no Ocidente e somente voltaram no século VIII com Charles, rei dos francos, mais tarde elevado pelo Papa à dignidade de Imperador Romano sob o nome de Carolus Magnus (Carlos Magno) e chamado pelos franceses de Charlemagne. Seu exército possuía grandes esquadrões de cavalaria, pois os invasores bárbaros dos séculos V e VI tinham trazido vastos rebanhos de cavalos do leste europeu, tornando-os abundantes no Ocidente. Assim, os seus melhores cavaleiros ficaram famosos, formando uma elite de guerreiros chamados de Pares de França pelo povo, ou seja, companheiros do Rei tão bravos e nobres quanto ele!

      O imperador Carlos Magno, maior dos soberanos medievais e criador da cavalaria como
                               instituição social e política. Tela de Louis Felix Amiel (séc. XIX)

Mesmo na antiguidade os cavaleiros geralmente eram soldados nobres e os romanos haviam criado uma categoria chamada de Ordem Eqüestre, cujos membros, denominados cavaleiros, situavam-se logo abaixo da Ordem Senatorial, formada pelos patrícios. Mas o que no Império Romano era apenas uma categoria social de segunda classe, no Império Carolíngio tornou-se uma casta militar e uma categoria social de primeira classe. O título de cavaleiro se tornou mais ambicionado que o de conde ou barão, pois muitos destes não o tinham e por isso não gozavam da mesma estima e prestígio por mais ricos que fossem. Mesmo o poder sobre seus vassalos ficava enfraquecido se não o tivessem, e por isso não era raro ver-se príncipe querendo adquirir o status, que somente conseguia após realizar grandes façanhas militares e passar por uma pomposa cerimônia religiosa. Claro que havia consagrações indevidas onde o prestígio político pesava mais que as façanhas exigidas, pois ser “sagrado cavaleiro” passou a ser a ambição de todo nobre desejoso de fama, popularidade e sucesso com as damas.

        Ser sagrado cavaleiro era a maior ambição do jovem nobre

Quando em 1176 o futuro rei da Inglaterra Ricardo Coração de Leão se fez sagrar cavaleiro em Paris, apesar de já ser duque reinante da Aquitânia e guerreiro famoso, nenhuma dúvida restou mais na cabeça dos aristocratas de que ser sagrado cavaleiro era essencial ao guerreiro nobre por mais importante que ele fosse! Todavia não é demais lembrar que o cavaleiro medieval com a sua pesada armadura só se tornou possível graças à revolucionária invenção do estribo no século VII da nossa Era. Hoje nos parece inacreditável que um tão óbvio apetrecho para quem quer montar e andar a cavalo não existisse antes, entretanto, por mais absurdo que pareça, era sem ele que as pessoas tinham cavalgado e a cavalaria tinha sido militarmente utilizada durante séculos. A partir da invenção do estribo cavalgar e lutar passou a ser muito mais fácil e militarmente eficaz, possibilitando ao cavaleiro, que até então tinha de usar couraça leve para montar e desmontar, usar pesadas armaduras para combater. Porém necessitava de um escudeiro para vesti-lo e levar seu armamento, ajudando-o na complicada tarefa de montar. Só depois é que o escudeiro lhe passava o escudo e a lança. A difícil operação repetia-se na hora de desmontar e o alto custo do sofisticado aparato e de posuir um escudeiro tornava a condição de cavaleiro impossível para quem não fosse das classes altas. Assim, a cavalaria tornou-se privilégio dos mais nobres entre os nobres. Por outro lado, cavaleiros e cavalos pesadamente couraçados permitiram a criação de grandes esquadrões de cavalaria blindada, coisa que tornou o seu ataque irresistível e deu à cavalaria medieval absoluta supremacia sobre a infantaria no campo de batalha.

        As batalhas das cruzadas foram travadas principalmente entre batalhões de cavaleiros
                          cristãos e muçulmanos. A infantaria foi acessória. Iluminura medieval

No século XI a cavalaria tornou-se uma espécie de carreira militar-aristocrática. Para chegar à dignidade de cavaleiro percorria-se um longo caminho, como se fosse um curso escolar, e adotava-se um modo de vida específico. A criança nobre era entregue aos sete anos de idade aos cuidados de um cavaleiro e da sua nobre família para servi-lo como pajem por outros sete anos; se tivesse aptidão e disciplina, passava a escudeiro aos qutorze, podendo portar lança e espada; ao mesmo tempo cuidava da armadura e do armamento do seu mestre, ajudando-o a vestir-se, armar-se, montar e desmontar. Os escudeiros tinham sob suas ordens os pajens e os cavalariços, cujo trabalho era fiscalizado com rigor para que nada saísse errado. Após sete anos como escudeiro, caso fosse aprovado por seu mestre, tornava-se cavaleiro em solene cerimônia religiosa e militar após passar a noite anterior orando na capela do castelo. Ao amanhecer confessava-se, assistia missa e comungava; ao final o sacerdote abençoava suas armas, fazendo-o jurar de joelhos fidelidade à Igreja, ao seu senhor e a lutar pela justiça em defesa dos fracos e necessitados; em seguida seu mestre tocava-lhe com a espada o topo da cabeça inclinada em contrita oração e declarava-o cavaleiro; seguia-se um torneio onde demonstrava ao público suas habilidades e o seu dia inesquecível terminava com banquetes e danças. Porém o que mais enobreceu a instituição na Idade Média foi a criação de um rígido Código de Conduta, no qual não era admitido ao cavaleiro qualquer tipo de comportamento vulgar ou desonroso. Além de cristão devoto, ele devia ser humilde, honesto, bravo, leal e, sobretudo, generoso com os fortes e os fracos.

       Combater vilões e monstros para defender os fracos, sobretudo damas indefesas, é
                        obrigação primordial do cavaleiro. Tela de Burne Jones (séc. XIX)

Embora isso fosse mais teoria que prática, com a dura realidade sempre se impondo sobre os princípios éticos, uma auréola de respeitabilidade e estima públicas se estendeu sobre a cavalaria. Em tempos de paz o mais sofisticado divertimento eram os torneios que os cavaleiros disputavam sob o patrocínio de reis e príncipes, assim como as estórias e poemas celebrando os seus feitos guerreiros e proezas galantes. As aventuras misturavam o real com o maravilhoso em um mundo de magia povoado por santos, vilões, bruxas, magos e seres fantásticos que o cavaleiro precisava vencer no cumprimento de sua nobre missão em defesa da justiça ou do amor.

              Dos séculos XI a XIV a cavalaria dominou as batalhas. O príncipe vencedor era sempre o que tinha a
                                                seu serviço os melhores cavaleiros. Tela de Sir John Gilbert (séc. XIX) 

 A literatura elevou ainda mais o prestígio da Cavalaria Medieval, que  alcançou o seu maior esplendor nos séculos XII e XIII quando as cruzadas chegaram ao auge e as ordens religiosas militares foram criadas. Foi também o período da 1ª Renascença, espalhando por toda a Europa Ocidental as universidades e as catedrais góticas. Nas primeiras décadas do século XII apareceu em forma escrita o poema popular Chanson de Roland, celebrando os feitos do bravo cavaleiro de Charlemagne, e o bispo Geofrey de Monmouth publicou a sua História dos Reis da Inglaterra, apresentando o lendário Rei Arthur como real personagem histórico. A obra foi o primeiro best seller da história e o bispo ficou rico e famoso. Porém o mais importante foi que o seu livro de história provocou um enorme movimento ficcional que podemos tomar como marco criador do gênero romance para os latinos e novel para os anglo-saxônicos.

 Rolland viveu no século VIII, antes do apogeu da cavalaria, mas é o maior
      dos cavaleiros medievais. Gravura de Alphonse de Neuville (séc. XIX)

Em um século tão rico de fervor religioso, intelectual, literário, artístico e guerreiro, na cavalaria militar destacaram-se o rei cristão Ricardo Coração de Leão e o sultão muçulmano Saladino como os maiores representantes dos seus nobres ideais de bravura e cavalheirismo. Para coroar o apogeu da aristocrática instituição, o poeta francês Chrètien de Troyes criou o gênero literário Romance de Cavalaria e de Amor Cortês, onde a lenda do Rei Arthur e dos cavaleiros da távola redonda adquiriu caráter romanesco, povoando de fantasias os corações apaixonados e aventureiros.

         Todo jovem aristocrata sonhava com os combates e as glórias da cavalaria, pois só assim teria o prestígio
                                     das cortes e o amor das mulheres nobres. Tela de Charles de Steuben (séc. XIX)

Outros talentosos escritores exploraram o filão descoberto por Chrètien, temperando o brutal panorama social e político da época com livros onde o fantástico e o maravilhoso misturavam-se em altas doses com o romance e a poesia. Assim, supriram com lindos poemas e emocionantes estórias de belas damas e galantes cavaleiros um mercado ávido de fantasiosas aventuras e amores apaixonados, fazendo da Cavalaria Medieval rendosa indústria e popular gênero midiático até os dias atuais.

                 Em 1415 os infantes ingleses com o arco longo derrotaram os cavaleiros franceses e a cavalaria
                                                            entrou em declínio. Tela de Sir John Gilbert (séc. XIX)

Mas no século XIV a Cavalaria entra em declínio com o fim das Cruzadas e a extinção da Ordem dos Cavaleiros Templários. A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos sofre graves derrotas em suas guerras contra os príncipes russos, fervorosos cristãos ortodoxos, e a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários é expulsa pelos muçulmanos de quase todas as suas bases no leste do Mediterrâneo. À adversidade militar junta-se a adversidade natural na figura tétrica da terrível Peste Negra que assola a Europa em meados do século. Calcula-se que um terço da população pereceu, os servos fugiram e os campos ficaram desertos, obrigando os senhores feudais a contratarem camponeses livres a alto preço para lavrarem suas terras. Com isso as classes baixas se fortaleceram e as classes altas se enfraqueceram, o que fez parcela significativa do poder militar e político transferir-se para os burgos e os seus moradores, chamados de burgueses.

Sempre carentes de dinheiro e soldados, em troca deles os reis outorgaram aos burgos grandes privilégios, fazendo os ricos mercadores, especialmente os dos grandes burgos comerciais, tornarem-se mais importantes que os outrora poderosos barões dos grandes feudos rurais. Com a sua decadência econômica e política, agravou-se a decadência militar dos nobres cavaleiros medievais, seus pares.

      No século XIV a Peste Negra matou um terço da população e os servos abandonaram os campos.  O declínio                                                                    econômico dos senhores agravou o declínio militar dos cavaleiros. Gravura do século XIX

Finalmente, no começo do século XV, a plebéia infantaria de camponeses ingleses, armados com o prosaico porém mortífero “arco longo” que usavam para caçar nos bosques, esmagou a nobre cavalaria francesa na histórica batalha de Agincourt. Mortos a flechadas os cavalos, os couraçados cavaleiros que escapavam das flechas tinham dificuldade de se levantar e eram implacavelmente degolados pelos ágeis camponeses ingleses, que assim eliminaram dois terços da alta nobreza da França.

                                  Após setecentos anos de hegemonia, a nobre cavalaria é esmagada pela plebeia
                                                        infantaria em Agincourt. Tela de Sir John Gilbert (séc. XIX)

A matança em Agincourt da fina flor da cavalaria francesa, a mais brilhante e poderosa da Europa, é um golpe que faz a instituição agonizar e morrer. Em poucos anos ela desaparecerá de todos os exércitos europeus como principal arma de guerra e o nome de cavaleiro tornar-se-á apenas um título nobiliárquico vazio de qualquer conteúdo ético ou guerreiro. As tentativas do Rei Sebastião de Portugal para ressuscitá-la no século XVI terminam em desastre e todos que ainda com ela sonham são ridicularizados por Miguel de Cervantes em seu Dom Quixote de La Mancha. 

            Cervantes ridicularizou no Dom Quixote o que sobrara da Cavalaria
                                 Medieval. Gravura de Gustave Dorée (séc. XIX)

A cavalaria ainda ensaiará tímido retorno em meados do século XIX na Guerra da Crimeia e na Guerra Civil Americana. Nesta tornou-se lendária A Carga do General Pickett da cavalaria do Sul contra a infantaria do Norte e naquela ficará mundialmente famosa A Carga da Brigada Ligeira da cavalaria inglesa contra a infantaria russa graças ao popular romance escrito por Alfred Tennyson alguns anos depois. Mas apesar de heroicas as famosas cargas foram rechaçadas e massacradas pelo nutrido fogo inimigo, mostrando que não havia mais lugar para elas nas grandes batalhas campais onde a arma de fogo reinava soberana. Porém o que mais nos impressiona nos dias de hoje é que, embora morta no mundo real como suprema arma militar e ideal ético há mais de seiscentos anos, a Cavalaria Medieval continua viva no mundo dos sonhos e da fantasia de uma imensa legião de admiradores.

Vai ser difícil tirá-la desse mundo encantado!


2 comentários:

  1. Interessantíssima narração! Excelente! Obrigada!

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  2. A imagem inicial pertence ao filme O Reino dos Céus, inglês, creio, com Irons, Bloom, Neeson, e não ao filme sueco referido. A heráldica patente é a dos Barões de Ibelin, Palestina, e não templária. Como curiosidade anacrónica, as cruzes exibidas no filme Arn só aparecem com D. Dinis e a Ordem de Cristo, após a exinção da Ordem dita do Templo.

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