segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Post nº 76

PERFIL  DE  UTHER  -  O  SENHOR  DOS  DRAGÕES

Uther era astuto, leal com amigos, impiedoso com inimigos e generoso com o povo. Mais
que qualquer outro cultivou a própria lenda e virou "O Senhor dos Dragões"



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Eis como o frade romano Gildasius Pisannensis descreve o seu amigo príncipe Uther Pendragon, chamado por seus súditos de “O Senhor dos Dragões”.


Ainda quando estudava com os padres em Bath, Uther assimilara a fundo o preceito evangélico: “Sede simples como a pomba e astuto como a serpente”! Mas à medida que aprendia com a vida fez ao santo mandamento um pequeno acréscimo: “Sede simples como a pomba, astuto como a serpente e mortífero como o leão”!

Era homem simples e cordial, jamais mostrando pompa ou orgulho e tratando a todos como seus iguais. Também era polido e atencioso, e na medida do possível ajudava os que recorriam aos seus préstimos, pois mesquinheza e arrogância eram palavras que não existiam no seu dicionário. Porém essa postura pessoal era apenas a base sólida para o exercício da sua principal qualidade: a astúcia!
 
Conquistava as pessoas com seus modos simples e amigáveis apenas para usá-las na consecução dos seus objetivos, mas como muitas vezes não precisava delas no presente, nunca excluía a hipótese de precisar delas no futuro, e mantinha a mesma postura simples e cordial em todas as ocasiões. Até porque isto lhe evitava possíveis acusações de falsidade ou hipocrisia. Sabia distinguir amigos e inimigos não apenas pelo que diziam ou faziam, mas também por um simples gesto ou palavra, e às vezes até mesmo por um olhar. Era exímio conhecedor de pessoas e excelente jogador, prevendo sempre com antecedência duas ou três jogadas à frente; isto fazia com que ninguém o superasse em qualquer tipo de negociação, e embora nada fizesse que não fosse do seu próprio interesse, premiava os que lhe serviam com lealdade, reforçando sua reputação de homem correto e desarmando espíritos menos sutis que o seu. Muitos anos depois, quando já éramos amigos íntimos, questionei seu excessivo pragmatismo e ele me respondeu com toda a sinceridade do seu espírito simples: “Olhe aqui, Gildásio: você só é frade porque sua mulher morreu e você quis ganhar do céu o conforto que a terra lhe negou, por isso pare com essa tolice de dizer que existem pessoas que não agem por interesse. Até mesmo o santo só é santo porque deseja ganhar de Deus a recompensa do paraíso”!

Assim era Uther: duro, pragmático e objetivo. Porque era simples e cordial jamais usava palavras ásperas, e porque era astuto jamais fazia ameaças, pois raciocinava corretamente: “Ameaças só servem para prevenir os inimigos e despertá-los da sua falsa sensação de segurança; melhor deixá-los adormecidos para mais facilmente liquidá-los no momento oportuno”! E aí entrava a terceira virtude que ele acrescentara ao mandamento evangélico: a mortífera agilidade do leão!

Uther impressionava por seu porte, bravura, frieza, voz forte segura e impositiva,
mas sobretudo pelo medo causado pela fama que o acompanhava

Ele fazia de tudo para não entrar numa briga, mas se nela entrasse o fazia de modo tão rápido e letal que destruía completamente o inimigo e os seus aliados, não sobrando ninguém para revidar. Por isso é que ao eliminar os filhos e genros de Gorlósio eliminara também seus descendentes varões. Apesar disso ele se considerava generoso e humanitário, pois nunca matava por matar. Na verdade o seu objetivo não era torturar ou matar ninguém: era apenas livrar-se de um incômodo. Uma vez ele me disse com a mais fria honestidade: “Saiba você, meu bom Gildásio, que jamais fiz o mal quando podia fazer o bem ou matei alguém que não merecesse morrer para beneficio de todos. Jamais maltratei pessoa alguma, nem mesmo meus piores inimigos, e quando fui obrigado a eliminá-los o fiz de forma rápida e quase indolor, poupando-os de sofrimentos desnecessários”!

Também se julgava um homem da lei, pois há tempos descobrira que a forma melhor de manter o poder era através de leis que o legitimassem e dessem ao governante a reputação de ser justo e imparcial. Para tal fim nada melhor do que leis escritas ministradas por juízes instruídos. A palavra escrita sempre tivera entre os povos cultos grande prestígio e entre os incultos respeito quase religioso, por isso comprou em Bath um exemplar do Código Teodosiano, promulgado pelo Imperador Romano do Oriente, e sabendo ler bem o latim o examinou com auxílio de um advogado e dele excluiu todas as regras em desacordo com os costumes de Cornwall, acrescentando-lhe algumas que aumentavam o poder do Marchensis romano; ou seja, dele próprio. Depois contratou escribas para fazerem uma pequena edição privada do código por ele modificado e pôs ricas capas de couro nos exemplares produzidos. Os escribas estavam ansiosos por um emprego seguro, e quando lhes ofereceu o cargo de juízes em Cornwall aceitaram sem hesitar. Deu-lhes roupas vistosas e os instalou dignamente nos vilarejos mais importantes, decretando que dali em diante todos os litígios deviam ser a eles submetidos e decididos de acordo com as leis da “Santa Igreja”, pois, sendo um governante romano e cristão, outras leis não poderia ele admitir em seu distrito senão aquelas decretadas pelo imperador e aprovadas pela Igreja!

Melhor que ninguém Uther soube cultivar mitos que incendiavam a imaginação
popular e tornou-se legendário

Porém a nomeação dos juízes não lhe custou praticamente nada, pois uma taxa era cobrada aos vencidos em proporção ao valor do litígio por eles causado. Nos casos criminais uma pesada multa era aplicada ao infrator, e quando havia condenação à morte todos os bens do condenado iam para os “cofres públicos”. Mas ele sabia que a tentação de suborno e extorsão era grande e poderia desviar os juízes da função para a qual os nomeara, desmoralizando o sistema que tentava implantar. Em conseqüência, os advertiu previamente de que qualquer ato de corrupção resultaria na imediata execução do juiz corrupto, e para mostrar que não estava brincando enforcou pessoalmente diante deles dois ladrões presos alguns dias antes, enquanto dizia aos futuros julgadores: “Um juiz corrupto é três vezes mais ladrão do que qualquer ladrão comum, por isso ao invés de enforcá-lo eu o manterei vivo e cortarei seus pés e pernas, depois cortarei suas mãos e braços, e finalmente cortarei sua cabeça, mandando espetar seus restos em estacas para que sejam comidos pelos urubus. A falta de um enterro cristão também condenará sua alma ao inferno”!

Claro que se podia apelar ao Marchensis da sentença, mas quando não era do seu interesse modificá-la dizia ao apelante que o juiz fizera o que a lei mandava, e como “suprema autoridade imperial” ele era obrigado a cumpri-la; infelizmente não podia fazer nada pelo “prezado amigo”, pois a lei era a lei. Nas poucas apelações que atendia dizia que o juiz se enganara e aplicara a lei de forma errônea, devendo ser por isso severamente repreendido. Ele nunca o repreendia, limitando-se a modificar a decisão através de uma boa justificativa legal feita pelo próprio juiz que a prolatara e chamado para ouvir a “repreensão”, mas na verdade para redigir a decisão modificando sua sentença. Isto os ensinou que nos casos importantes deviam antes ouvir a opinião do chefe. Porém apelações eram raras, pois ordenara aos juízes decidirem com o vistoso código aberto e lendo para os litigantes a regra na qual se baseavam. Eles não entendiam nada da leitura porque quase ninguém sabia latim, mas isto só fazia aumentar o prestígio da decisão, pois nas suas mentes simples as misteriosas palavras soavam como algo mágico e a lei adquiria significado místico, fazendo-a temida e obedecida. Aos poucos a justiça romana, ou melhor, a justiça de Uther, se tornou respeitada em todo Cornwall pela sua “correção e imparcialidade”!

Ninguém ousava desafiar Uther, homem cuja lenda dizia que vencia e domava dragões

Todavia os mais poderosos senhores continuavam fora do seu alcance porque todos eles tinham exércitos particulares e, embora fossem leais ao “chefe dos chefes”, sempre poderiam se revoltar. Aliás, essa coisa de “chefes” o incomodava bastante, pois no seu entendimento o poder era indivisível, mas enquanto não pudesse acabar com seus bandos armados teria de dançar de acordo com a música. Assim, tal como o imperador Augusto, que governava como ditador enquanto fingia que tudo era decidido pelo senado, Uther costumava convocar os chefes regularmente para reuniões onde os assuntos importantes eram discutidos. Geralmente expunha a matéria sem dar opinião, dizendo que ouviria todos os demais e a decisão seria tomada em conjunto. Embora ele já houvesse decidido previamente, deixava que a discussão se aprofundasse, ouvindo atentamente e não apresentado objeções às opiniões contrárias que iam aparecendo, mas fazia muitas perguntas sob o pretexto de querer entendê-las melhor até que elas se mostravam inviáveis aos olhos dos demais e alguém aparecia com a opinião que lhe interessava. Porém continuava perguntando e aos poucos ia concordando, até que todos também concordavam e ele proclamava que a opinião do amigo fulano prevalecera por unanimidade. Às vezes não se chegava a um consenso e ele dizia impaciente: “Todos sabem que sou homem razoável, que sempre concorda com as sábias opiniões dos amigos e que jamais aprovaria algo que não fosse do nosso mútuo interesse, mas sou obrigado a dizer que a opinião do amigo cicrano é a que melhor atende às circunstâncias atuais e peço aos que confiam no meu julgamento que apoiem a opinião dele. Vamos votar”.

Ele nunca perdia, e os senhores cuja opinião tinha prevalecido, e até mesmo os que tinham sido vencidos, aplaudiam o seu espírito conciliador.

Este era o verdadeiro Uther Pendragon, “Senhor dos Dragões”, príncipe bravo e correto que todos viam, respeitavam e temiam, mas que pouquíssimos conheciam.


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Post nº 75

ATTILA  AND  AETIUS  -  A  STUDY  OF  CHARACTER
"Legend is the poetry of history"          
           

Attila in front of his troops on the eve of the battle of Chalons - Scene of the famous
opera "Attila" by Giuseppe Verdi

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I don’t know in History any coincidence more amazing than the relationship between Attila and Aetius: two men of the same age, from completely different nations and civilizations; who albeit separated by hundreds of miles lived for long periods in each other’s houses; who were friends from youth; who became leaders of their respective people and in a decisive moment for the survival of their peoples and civilizations became ferocious enemies on the battlefield, playing the most dangerous, bloody and decisive game in the history of the Western Roman Empire.

The one who won the game would impose his civilization all over Europe. Therefore, if Attila had won Europe would be now a pagan primitive Asiatic Civilization instead of a Christian advanced Roman one. The fact was that even after becoming enemies Aetius and Attila always maintained the most profound respect for each other’s military skills, and this respect was transmitted to their respective followers and Armies. This doesn’t mean that both men were good fellows, God forbid, for both of them were capable of the most terrible deeds to reach their respective goals; for instance: Attila killed his only brother to occupy the Royal throne alone, only three years after both of them had begun to reign together; Aetius killed his most dangerous rival when he discovered that his enemy and followers were planning a plot to destroy his position in the Roman Army and in the Imperial Court.

They were brave and skilled warriors, sharing the same personal abilities in individual fighting, for Aetius, as said by Gregorius De Tours, was ‘eques promptissimus sagittarum jactu peritus’ (the most speedy riding his horse and expert shooting his bow), and Attila was the same according to history. They were ruthless, cold and dangerous in political and military matters, but they were also kind and generous to their friends once assured that they weren’t a risk to their political or military power. They could perceive a false friend or a scoundrel from afar, but they could also recognize the worth qualities of a man and, what was still more important: respect these qualities even if he was an enemy.

However, there were also important differences in the character of both men in political and military aspects, for Attila and so the Huns used to play clean and fair: loyalty and trust was his trademark, but not Aetius’ and even less the Romans’.

The motto for Attila seemed to be: ‘If you want to kill a man, be harsh and challenge him to a single combat face to face; violence is the best way to solve problems and must always be used to impose fear and respect’. For Aetius it seemed to be quite the opposite: ‘If you want to kill a man, be kind and polite and do it as smoothly and diplomatically as possible; violence is the last resort to solve problems and must be used only when strictly necessary’.

But this doesn’t mean that Aetius was in want of courage; in fact courage was one of his most remarkable attributes, as Merobaldus said in his Panegyric: ‘lorica non tam munimen quam vestimentum’ (for you, armour wasn’t a protection, but an ornament).


Aetius talks to one of his generals in the famous opera "Attila" by Giuseppe Verdi
  
However, the two men’s differences of character were due more to their cultural environments than to their personalities. Attila had been raised riding horses on the open plains with his friends without any sort of sophistication, luxuries or intellectual concerns. For those men, the foremost virtues were conspicuous bravery, brutality and unconditional loyalty, which involve trust and love of truth; simulation, disguise and falsehood were capital sins for them. On the other hand, Aetius had been raised in the most sophisticated, hypocritical, luxurious, and intellectualised civilization of all. In this society open brutality, conspicuous bravery and unconditional loyalty were the fast track to failure and self-destruction. Bravery and brutality should be disguised so as not to provoke fear or suspicion in other countrymen and loyalty was pretence or a commodity for trading. You couldn’t trust anyone and truth was only a matter of convenience. The educated Roman used to learn by his own experience or by the accurate study of the best analytical and enlightened historians that simulation and falsehood were the capital virtues for a successful social or political career in his society.

Aetius, as a Roman statesman, was an unscrupulous politician but he could also have and maintain a true friendship although always an interested one. This friendship, albeit true, had to be with one who could be useful in case of need without representing any kind of risks. This was Aetius’ way to have things done: charming and friendly behaviour disguising the coldest political calculation and the most ultimate dissimulation disguising his ruthlessness when necessary in some appropriate cases. Nevertheless, it was the roman way and I would like to ask specialists in Politics if this kind of behaviour isn’t appropriate for a true statesman in a developed and sophisticated society, for I think that it certainly is.

His highly skilled political behaviour not only won great prizes in his brilliant career and several dedicated friends, but also distrust, suspicion and enemies, especially in the Imperial Court and in the High Echelons of the army usually formed by generals chosen by the Empress, and Aetius’ enemies, as a counterbalance to his power in the low military ranks where his popularity was enormous.

The relationship and the game between Aetius and Empress Galla Placídia were great mysteries of the time and most historians, all of them pious clergymen who hated “pagan” Aetius because he had killed their idol, “devout catholic” Bonifatius, say that, despite being close political allies, the general and the empress were friendly enemies. According to them, she distrusted him and despised his falsehood and bad character!


Image of Gala Placidia in a golden tray - Roman-bizantyne art 5º Century AD

But their bias against Aetius and their dishonest judgment is made evident when they talk about Attila's invasion of the West in 452. These same pious historians and critics of his "bad character" say that there were at the time among the Romans a complete discouragement and a strong desire to negotiate with Attila no matter what the costs or consequences. Nevertheless, they add that in the middle of the rampat cowardice only Aetius stood his ground refusing any deal with Attila and almost without official support restlessly organised an alliance between the Romans and the Germanic tribes of the West, which produced the important victory of Chalons.

This means that despite his former friendship with the Huns and being the only Roman able to negotiate with them, in the decisive moment he opted for his country instead of his Hun friends. Attila, who was very well informed by his spies about what was happening among the Romans felt his respect for Aetius growing and, considering the facts, what we can say is that the calumnies against Aetius are so absurd that it is better to ignore them altogether. With all his defects, which actually are the statesman’s virtues, he was not only the noblest Roman citizen and gifted general of his time, but also the last.
   
Returning to our comparison between Aetius and Attila we have already seen how different human relationships were in the Hun and Roman societies. In fact, Aetius and Attila had already perceived the gap but differently: staying in Roman cities several times, Attila knew the Roman way of life and despised it altogether. He perceived the corruption and the falsehood of its social and political spectrum, taking careful notes about what from his point of view was wrong in its decadent society. For him, this kind of civilization wasn’t worthwhile surviving.

Attila in the famous opera "Ezio" by Haendell

When Attila realised that his friend Aetius in whose house he was a dear guest was also a perfect product of that despicable society, in spite of his being a nice guy and a truly great warrior, he began to behave and deal with Aetius very carefully. Nevertheless, his respect for the warrior qualities of his friend remained intact. While time passed, Attila continued to take careful notes of Aetius’ military achievements and his respect for him grew stronger.

Aetius had seen things from a different angle typical of a civilised man. For him, although healthy, the Huns’ society was also a very primitive one: it represented an old era in mankind’s history, surpassed a long time ago; so it wasn’t the Roman civilization that should recede to its barbarian stage, but the still barbaric Huns that should advance towards a more modern way of life adopting the Roman culture.

Both cultures were completely different and incompatible; they could not coexist face to face as great military powers so one should be absorbed by the other and disappear, for they could not coexist forever. To sum up: Aetius was a modern prince who knew that the first duty for a prince was to preserve the safety of his principality at any cost without ethical or moral worries. To keep his position safe was a second duty, only a result of the first accomplishment. On the other hand, Attila was a primitive prince who cared only about his position because nations or states were things beyond his understanding. The truth was that the world was in the verge of an enormous clash of civilizations and in Chalons the West fortunately prevailed over the East.


Aetius performed by Todd Thomas in Handel's opera "Ezio" (Aetius in italian)
            
Like his rival, Aetius also kept in high account Attila’s military skills and achievements. This kind of mutual respect led to an episode that many say to be true and many others say to be a legend, pure creation of the imagination of some flatterers, because they were also present on the occasion and they say that they didn’t see the scene. However, we have to keep in mind that legends are also an important source of history because they always have its origins in real facts. Legend is the way that in oral tradition fact is transmitted mouth-to-mouth by creative storytellers and registered in the imaginative people’s minds. If you want a more erudite definition of what legend is I dare say that legend is the poetry of history.

Anyway, truth or legend here is the story. Reliable military witnesses told that in the aftermath of the huge and terrible Battle of Chalons, when after an agonic night the Huns conceded the costly victory to the Romans and withdrew at dawn, Aetius was on horseback, immobile, watching their retreat from a nearby hill accompanied by all his general staff and could see clearly Attila moving nervously on horseback back and forth, commanding the retreat. Suddenly, Attila realised that Aetius illuminated by the first rays of the rising sun was watching and following his movements carefully from the top of the hill.

Attila turned his horse and galloped in Aetius’ direction for a few dozen yards, raised his right arm and very seriously made a long farewell gesture. Aetius replied in the same style and Attila, turning his horse again to his men, who were also watching the amazing, chivalrous scene, went away slowly.

Note: The "Battle of Challons" is also called the "Battle of the Catalunian Fields".



segunda-feira, 15 de abril de 2013

Post nº 74

AVITUS  -  O  IMPERADOR  QUE  VIROU  BISPO
PARA  FUGIR  DA  PENA  DE  MORTE

Efígie de Avitus em moeda cunhada durante seu curto reinado (455-456 DC)




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Em 455 Genserico, rei dos vândalos, marchou contra Roma e o covarde imperador Petrônio Maximus ao invés de lhe opor resistência resolveu fugir, aconselhando os senadores a fazerem o mesmo. Estes o apuparam com desprezo e quando ele saiu à rua com sua claque de fujões o povo os vaiou raivosamente jogando-lhes todo tipo de objetos. Os membros da comitiva imperial correram, mas a furiosa multidão agarrou o imperador e o apedrejou até matá-lo em plena via pública. Depois o arrastou pelas ruas e o jogou nas águas do rio Tibre, de onde o cadáver nunca foi recuperado. A cidade ficou entregue à anarquia até os vândalos chegarem alguns dias depois e a saquearem durante uma semana, roubando e prendendo gente rica para dela cobrar resgate. Concluído o saque de tudo que tivesse algum valor, Genserico voltou ao seu reino deixando a “capital do mundo” nua das imensas riquezas que por tantos séculos ostentara.

Em 70 DC os romanos saquearam o sagrado tesouro do Templo de Jerusalém e o guardaram em Roma como
troféu, mas em 455 os Vândalos o tomaram e o levaram para a África, onde sumiu para sempre

Roma ficou várias semanas sem governo até assembléia de príncipes germânicos reunida em Arles aclamar novo imperador o príncipe Avitus, galo-romano de família riquíssima, natural de Clermont na França atual, que fora amigo íntimo de Aécio e ocupara importantes cargos imperiais, inclusive o de governador da Gália nos anos 430. Enfadado das tarefas oficiais, ele se recolhera à luxuosa vida privada em seu palácio particular de Clermont por mais de uma década, mas Aécio interrompera o seu ócio e o trouxera de volta à atividade durante a invasão de Átila, fazendo com que ele participasse ao seu lado da batalha dos Campos Catalúnicos em julho de 451. Sendo homem muito culto, passara longa temporada na corte de Teodorico, rei dos visigodos, aproveitando sua estadia para ensinar poética, retórica e literatura ao príncipe herdeiro, futuro Teodorico II. Ótimo diplomata, antes da decisiva batalha fora encarregado por Aécio de trazer o velho rei Teodorico para a coalizão contra Átila, pois devido a antigas querelas ele hesitava juntar-se ao general romano. Avitus aplainara as divergências e Teodorico aliara-se a Aécio, possibilitando a derrota dos hunos.

Agradecido, Aécio o fez novamente governador da Gália e ele ficara no cargo até o assassinato do amigo, quando então se demitiu, mas Petrônio Maximus,  em um dos seus poucos atos inteligentes, insistira para que voltasse devido às suas excelentes relações com os povos germânicos de há muito estabelecidos na grande província. Estava há pouco tempo no cargo pela terceira vez quando a assembléia de príncipes o aclamou imperador, mas a escolha só foi aprovada pelo senado romano sob a condição dele vir residir na cidade, pois há quase um século a capital administrativa mudara por razões estratégicas, primeiro para Milão e depois para Ravena, permanecendo Roma apenas a capital oficial. Avitus aceitou e viajou para a grande metrópole sob gerais aplausos.

Os visigodos possuíam grande valor guerreiro e o seu apoio aos romanos, conseguido por Avitus, foi decisivo
para que Aécio derrotasse Átila na grande batalha dos Campos Catalúnicos (451 DC)

O auspicioso início do seu governo logo deu lugar à intensa recriminação popular e à forte oposição no Senado, pois o novo imperador nenhuma medida tomou para sanar a grave situação em que ficara Roma após a catastrófica invasão dos vândalos. Enquanto a economia e a administração imperial se deterioravam ainda mais, ele permanecia inerte e indiferente, preocupado apenas em manter o luxuoso estilo de vida a que estava acostumado na vida privada e do qual jamais se afastara mesmo quando exercera importantes magistraturas oficiais e governara a Gália. A verdade é que Avitus era afeiçoado ao ócio e estava habituado apenas a funções burocráticas rotineiras que davam grande prestígio, mas não exigiam esforço nem requeriam a tomada de graves decisões, sendo inteiramente inadequado para lidar com situações excepcionais onde liderança e competência administrativa eram fundamentais. O resultado foi o Senado expulsá-lo do trono imperial sob instigação do poderoso conde Ricimerus após apenas um ano de governo. Inconformado, Avitus voltou-se para a Gália em busca de suporte porque, repudiado pelo senado que festivamente o recebera um ano antes, fugira de Roma e agora pedia aos príncipes gauleses que o aclamaram para repô-lo no trono.

Como pudera ocorrer tão brusca mudança de sentimentos em menos de doze meses? A resposta era simples: incompetência e corrupção, as mesmas doenças dos outros dois últimos imperadores. As virtudes que tinham feito o riquíssimo Avitus popular entre os rudes príncipes da Gália eram a refinada educação e o talento diplomático. Muito gentil, instruído, elegante e sedutor, ele conquistara os príncipes e, conforme as más línguas, também suas mulheres. Como governador, pusera em prática aquilo que melhor sabia fazer: nada! Deixava os príncipes dirigirem seus domínios como bem entendessem, limitando-se a assinar os decretos que lhe traziam prontos e suas inspeções eram agradáveis visitas sociais aos amigos ao invés de fiscalizações de um enérgico delegado imperial visando corrigir abusos e injustiças. Em conseqüência gozava de grande popularidade entre os príncipes, dos quais era apenas um carimbo.

Na verdade, o seu modo de governar era adequado ao caso da Gália, pois de há muito fora ela dividida em principados bárbaros romanizados cujos líderes governavam sob títulos romanos dados pelo imperador: cônsul, prefeito, pretor e conde. Mas a obediência ao monarca limitava-se ao fornecimento de tropas para repelir outros invasores que viessem tomar as terras que lhes tinham sido concedidas e ao pagamento de um tributo anual. Nada mais. Isto significa que referidos príncipes eram independentes de fato, embora não de direito, o que os tornava súditos inúteis ao imperador no caso de revolta ou de invasão em outro lugar que não fosse a Gália. Ao ir para a Itália Avitus ficara por conta própria, apesar de não sabê-lo e achar que ninguém em Roma o desafiaria por contar com os príncipes gauleses caso lhe ameaçassem o poder por eles outorgado, mas a falsidade da sua certeza ele teria de descobrir com a própria experiência.

Infelizmente ele não percebeu que em Roma teria de governar para e com os romanos, fazendo face aos imensos problemas que enfrentavam e não deles se distanciando como se ainda estivesse na Gália governando para e com os seus compadres gauleses. Ao se deparar com a dura realidade, custou a entender que o confortável estilo por ele adotado na Gália era totalmente inadequado para um vasto império que se desintegrava e necessitava de um líder forte e enérgico. Sua fina educação, elegância e diplomacia, que tanto sucesso faziam entre os bárbaros, eram irrelevantes em Roma, pois a cidade estava cheia de nobres com suas mesmas qualidades. Para piorar as coisas, na sofisticada capital do mundo ele se dedicara com afinco ao seu esporte predileto na rude província: a caça às mulheres!

Tudo indica que acostumado às grosseiras damas gaulesas ele perdera a cabeça ao ver as lindas e elegantíssimas damas romanas, passando a agir de forma cínica e despudorada, assediando até mesmo aquelas de reconhecida virtude. Em todo caso tivera sucesso com muitas senhoras e senhoritas da mais alta aristocracia e pusera afrontosos chifres nas testas de alguns dos mais influentes senadores.

Flavius Ricimerus (nome germânico Richomer ou Ricimer). Um dos poucos generais que tiveram sua
efígie em moedas sem ocuparem o trono imperial

Sua incompetência administrativa e seu mau comportamento já tinham posto sua reputação em nível baixíssimo quando o general Ricimerus, mercenário a serviço do Império, destruiu grande frota vândala que ia para o norte da Itália fazer o mesmo que fizera um ano antes no sul: roubar, destruir e escravizar. A vitória foi esmagadora e o general vitorioso foi recebido em Roma não só como triunfador, mas também como vingador! Desmoralização suprema, Avitus não foi convidado para as festas, e quando quis ir de qualquer forma Ricimerus lhe disse que seria preso se fosse, devendo deixar o trono antes que dele fosse retirado à força. Em desespero, fugiu para o norte com seus guardas e pediu aos príncipes gauleses que lhe dessem tropas para resistir à rebelião, mas eles se negaram ao ver que nada ganhariam, pois Ricimerus proibira a sua volta a Roma e eles não iriam lutar por uma causa que nenhuma vantagem lhes traria. O imperador inútil teria que se costurar com as próprias linhas.

Ao saberem da recusa dos príncipes e verem a ameaça de guerra civil afastada, os senadores romanos resolveram se vingar das humilhações, da desonra das filhas e dos chifres que Avitus lhes pusera, condenando-o à morte e prometendo boa recompensa a quem o executasse. A sentença era absurda, pois Avitus não cometera crime algum, a não ser os de adultério e sedução de esposas e filhas de aristocratas, mas para eles referidas "infrações" eram muito mais graves do que roubo e assassinato! Tentando escapar do supremo opróbio ele não só renunciou formalmente ao trono como praticou ato de supremo cretinismo: gastando rios de dinheiro obteve dos habitantes de Piacenza sua eleição para o cargo de bispo da cidade, pois a lei canônica conferia imunidade aos príncipes da Igreja. O resultado foi que num passe de mágica um imperador virou bispo como se fora o auge de uma tragicomédia em teatro de 3ª categoria!

A história do século 5º é péssima, havendo versão de que Avitus travou batalha com Ricimerus e após ser derrotado foi por ele obrigado a se tornar bispo, mas isso não tem nenhum suporte lógico porque Avitus não possuía exército devido à geral falta de apoio e não havia razão para que Ricimerus o obrigasse a usar a tiara ao invés do diadema. Até porque o seu dever era executá-lo, cumprindo sentença do Senado, e não dar-lhe imunidade. Tudo indica que o pseudo fato é invenção de Sidonius Apolinarius, genro de Avitus e historiador que tudo fez para livrar sua memória do ridículo.

Vago o trono definitivamente, não havia a menor suspeita sobre quem o ocuparia, pois o conde Ricimerus, único com poder militar suficiente para ocupá-lo, não podia fazê-lo porque era mercenário bárbaro que nem sequer era cidadão romano. Se o ocupasse, ninguém o levaria a sério: nem os romanos nem os reis bárbaros vassalos, todos eles rivais entre si. No entretempo, Avitus pediu ao Senado que a sentença de morte expedida contra ele fosse revogada devido ao seu novo status clerical, mas aí lhe veio o golpe final: o Papa declarou nula sua eleição ao bispado de Piacenza devido ao fato dele não possuir ordens sacras e por isso estar impedido pela lei canônica de ser bispo. Vendo que poderia ser preso a qualquer momento, ou até mesmo assassinado por alguém em busca da recompensa oferecida pelo Senado, Avitus fugiu com seus guardas a procura de esconderijo nos Alpes em pleno inverno, porém semanas depois alguns deles voltaram dizendo que ele morrera de morte natural nas montanhas e lá fora enterrado.

Novamente há a versão de que ele morreu não quando fugia, mas quando viajava a fim de levar sagrada relíquia para importante diocese gaulesa. Dessa tola versão deve ser dito o mesmo que foi dito da outra sobre a sua ridícula transformação em bispo.

Fato é que a história dos soldados sobre o verdadeiro fim de Avitus parecia ser correta, pois ninguém reclamou o prêmio pela possível execução do condenado, mas existia a suspeita de que o ex-imperador se escondera em lugar secreto e ele próprio mandara seus fiéis seguidores divulgarem a história para que a perseguição cessasse e o deixassem terminar seus dias em paz.

Nunca se soube com certeza qual das versões era a verdadeira, mas, vivo ou morto, o bom camarada Avitus sumiu de vez do cenário sócio-político europeu, deixando como marca própria apenas a ridícula história do imperador que virou bispo para escapar de absurda sentença de morte, decretada tão somente porque ousara plantar vistosos chifres nas testas de eminentes senadores.




quinta-feira, 11 de abril de 2013

Post nº 73

ALEXANDRE  MAGNO  -  O  JOVEM  GÊNIO  MILITAR  QUE  CONQUISTOU  O  MUNDO

Alexandre Magno - Retrato bastante fiel à realidade, feito com base em seus bustos,
 estátuas e efígies em moedas. Detalhe de tela de Charles Le Brun (séc. XVII)


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A Pérsia era um grande império, mas a sua fraqueza militar ficara evidente na primeira metade do século V AC quando os modestos gregos infligiram-lhe derrota humilhante nas chamadas "Guerras Médicas" (medos-persas) e tornaram vãos os seus desígnios de conquista da Grécia ao destruírem a sua poderosa esquadra na batalha naval de Salamina (480 AC).  Desde então houvera uma paz muito tensa, entremeada de intrigas, querelas políticas e combates ocasionais, com a Pérsia sempre se metendo nos negócios da Grécia por iniciativa própria ou a chamado de uma ou de outra cidade-estado grega em guerra com suas vizinhas. Isto fazia com que os gregos vissem nos persas seus inimigos naturais e quando Felipe os conclamou a guerra todos se alistaram sob a sua bandeira, a qual seria levada adiante por seu filho Alexandre.

Após a vitória dos gregos sobre os persas na batalha naval de Salamina houve 140 anos de paz muito tensa,
até que Felipe resolveu romper o impasse. Tela de Wilhelm von Kaulbach (séc. XIX)

Com um exército de vinte e cinco mil homens, imenso para os padrões gregos, Alexandre invadiu a Pérsia e usando a nova Falange Macedônica herdada do pai derrotou os persas na batalha do rio Grânico, fazendo com que quase todas as províncias ocidentais do cambaleante império passassem para o seu lado. As que não passaram foram aniquiladas a ferro e fogo, como foi o caso da grande cidade portuária de Tiro. À medida que obtinha vitória sobre vitória, Alexandre conseguia mais e mais cavalos, abundantes nas regiões conquistadas e próprios para campanhas militares nas vastas planícies da Ásia. Ele então fez mais três inovações na falange: 1) criou pelotões independentes de cavaleiros armados apenas com espadas que ficavam na retaguarda e só se lançavam sobre o inimigo quando este conseguia escapar das "mandíbulas", saindo pelo campo aos magotes totalmente desnorteado; 2) pôs hoplitas espadachins em torno dos hoplitas lanceiros ao longo do retângulo do bloco de falange, de forma que o inimigo que lograsse passar por entre os "espinhos do porco" ficava frente a frente com um hábil espadachim que o liquidava depressa; 3) com a substituição dos lanceiros das linhas de frente e de flanco por espadachins, reduziu à três as linhas de lanceiros e fez a terceira conservar suas lanças em pé, só as baixando quando o lanceiro da frente tombava. Isto diminuiu os "espinhos do porco", porém deu-lhe mais agilidade e o impressionante espetáculo das enormes lanças levantadas foi psicologicamente importante para aterrorizar o inimigo antes que ele se lançasse ao combate. Lutar com um inimigo de antemão aterrorizado é valiosa vantagem tática e ninguém melhor que Alexandre sabia disso.

Após a derrota final Dario III fugiu, mas durante a fuga foi assassinado por traidores e deixado na margem da estrada, onde Alexandre o achou. Gravura de autor anônimo do séc. XIX 

Foi desse modo que ele esmagou os grandes exércitos persas, em média três ou quatro vezes maiores que o seu. Os inúmeros povos do vasto Império (cossacos, russos, afegãos, paquistaneses, indianos, etc.) nunca tinham visto máquina de guerra tão organizada, fria, azeitada e mortífera, e passaram a se render em massa a “Sikhanda”, como o chamavam. Assim, Alexandre se tornou o novo “Grande Rei dos Arianos” (título do imperador persa), muito mais temido e respeitado do que os seus antecessores, pois fazia questão de participar de todas as batalhas, não só orientando e dando ordens aos seus homens como lutando pessoalmente no meio deles frente a frente com o inimigo.

Alexandre derrota os elefantes do rei Porus na batalha de Hydaspes, também
chamada batalha do rio Indo. Gravura de André Castagne (1899)

Se isso por um lado o fez Guerreiro dos Guerreiros, por outro lhe encurtou a vida, pois foi ferido várias vezes, algumas gravemente, e os relatos indicam que a sua morte prematura aos trinta e dois anos deveu-se principalmente ao enfraquecimento das suas resistências orgânicas graças aos seus excessos (bebia demais) e aos graves ferimentos mal curados. Ainda por cima fora tomado de grave depressão após matar em uma bebedeira o seu melhor amigo, que muitos dizem ter sido seu amante. Algum tempo depois outro oficial, que também diziam ser seu parceiro sexual, morreu vítima de súbita enfermidade durante uma viagem e a sua depressão aumentou ainda mais, fazendo-o apresentar nítidos sintomas de desequilíbrio e megalomania poucos meses antes da sua morte.

Alexandre tratou bem a família de Dario. Tornou-se amigo da rainha-viúva e casou com
uma das suas filhas. Tela de Charles Le Brum (1673)
            
O homossexualismo, sobretudo entre soldados, não era censurável nas culturas greco-orientais e disso não o salvou o seu harém de belas mulheres da mais alta aristocracia nem as lindas princesas persas que tomou como esposas. Astutamente, casara com a belíssima Roxane, filha de um poderoso rei afegão e provavelmente sobrinha ou prima do Rei Dario III de quem o seu pai seria parente e súdito, de forma que ninguém podia negar ser ele membro da família real persa. Soberano por direito de herança do “parente” seu inimigo, assassinado por traidores que mandou executar, foi aceito pelos povos do império como seu novo monarca universal e deu a Dario majestosos funerais, chorando-o hipocritamente.

O império de Alexandre em sua máxima extensão (322 AC)
            
Para consolidar-se no trono, fez-se amigo íntimo da rainha-viúva e tomou sob sua proteção a família real, casando-se com a princesa Barsine, filha reconhecida do falecido rei, pois a poligamia era legal tanto na Macedônia como na Pérsia. Assim agindo, tornou-se "herdeiro" de Dario e legitimou o seu direito à coroa. Ele estava no auge do poder quando o majestoso palácio imperial de Persépolis foi incendiado. Uns dizem que o incêndio foi acidental e outros que foi proposital, tendo sido Alexandre o seu autor, seguindo perverso conselho de sedutora cortesã grega chamada Thaís após ficar temporariamente enlouquecido pelo alcóol e pelas drogas  durante uma bacanal, mas qualquer que tinha sido o caso ele ficou transtornado ao constatar os efeitos da catástrofe e mudou a capital de Persépolis para Babilônia.


Persépolis - reconstituição de uma das alas externas do palácio imperial provavelmente
incendiado por Alexandre em momento de embriaguez e loucura

A decisão lhe foi fatal, pois apesar de esplendorosa a cidade era insalubre, cortada por braços de rio e cercada de pântanos, fábricas de nuvens de mosquitos e fontes de febres mortíferas. Com o organismo enfraquecido pelas guerras incessantes, ferimentos mal tratados, drogas inebriantes pseudamente curativas e excessivo consumo de bebida alcoólica, adoeceu gravemente quando se preparava para conquistar a Península Arábica e morreu em poucas semanas.





Moedas com a efígie de Alexandre ao tornar-se ele "Senhor do Mundo"
            
Alexandre teve um filho com a princesa Roxane, mas não prevendo a morte próxima não lhe nomeou tutor de sua confiança que fosse suficientemente poderoso para garantir-lhe os direitos em caso de sucessão, evento bastante previsível quando se participa de batalha após batalha de forma ativa e arriscada como no seu caso.

Olímpia, mãe de Alexandre, era uma mulher bonita e inteligente, mas era megalomaníaca
e convenceu o filho de que ele era um deus. Medalhão antigo.

Tudo indica que não o fez por superstição, pois desde criança tinham lhe metido na cabeça que era um "deus". Deuses na tradição grega tinham as virtudes e defeitos dos homens comuns, mas diferiam por serem "imortais". A sua mãe psicótica (há indícios de que era apaixonada pela beleza do filho) foi quem criou o mito da "divindade" de Alexandre após fato singular: amamentava-o pela manhã poucos dias após o seu nascimento, em quarto inundado de sol pelas amplas janelas abertas, quando uma pequena águia entrou e pousou no espaldar da cama diante dos olhos assustados das servas reais. Após alguns segundos ela abriu majestosamente as asas sobre o idílico quadro e alçou vôo, saindo pela mesma janela por onde entrara. Verdade ou não, a história espalhou-se e a arrogante rainha, fingindo indiferença, disse que fora apenas uma visita que Zeus, rei dos deuses, viera fazer ao filho em forma de águia. Alexandre cresceu ouvindo a tolice e no mundo supersticioso da época certamente passou a julgar-se um "deus imortal".




Bustos de Alexandre jovem. Há evidências de que Olímpia
tinha pelo filho adoração incestuosa (séc. IV AC)

A belíssima Roxane tem origem e vida controversas. Alguns dizem que ela não era parenta de Dario e nem sequer era persa, sendo o seu pai rei de um dos "tans" (Turkestan, Kazakistan, Afeganistan, Pakistan, etc.) que recebera o conquistador como o verdadeiro Grande Rei dos Arianos. Há indícios de que o Mito Ariano foi habilmente usado por Alexandre para ganhar apoio dos povos a nordeste e a leste da Pérsia, especialmente dos indianos. Ele também tomara como esposa a princesa Barsine, esta realmente filha de Dario, pois a poligamia era legal entre os macedônios e os persas. Roxane estava em segundo lugar ao enviuvar, mas diz-se que ela matou a rival e foi para o Épiro morar com a sogra Olímpia a fim de reivindicar o trono da Macedônia para o seu filho pequenino. Algum tempo depois um usurpador teria assassinado Olímpia, Roxane e a criança, assenhoreando-se do trono macedônico. Todavia as evidências históricas sobre isso são duvidosas e o que se conhece de Alexandre mostra que ele era uma raposa política e sabia que a coisa certa a fazer era casar com mulheres da família de Dario. Também não faz sentido Roxane matar a rival para depois sair com o filho da Pérsia, cenário principal dos acontecimentos e onde tudo era decidido. Todavia, qualquer que fosse o grau de parentesco com o imperador vencido, parece certo que Roxane vivia na sua corte e foi escolhida por Alexandre devido à sua extraordinária beleza, unindo o útil ao agradável. O fato de ser prima ou sobrinha de Dario não a impede de também ser filha de rei menor, parente e súdito do Grande Rei persa.

Não há provas de que Alexandre tenha sido envenenado, embora isso acidentalmente possa ter ocorrido devido a algum "medicamento" tóxico usado na época, mas depois de sua morte a rainha Roxane e o príncipe herdeiro saíram de cena (322 AC), não havendo certeza sobre o que de fato ocorreu. Os seus generais então dividiram o Império entre si e Ptolomeu, general-governador do Egito, exigiu que o sarcófago do Grande Rei fosse levado para Alexandria, cidade que ele fundara. Há mesmo uma história dizendo que ele atacou o cortejo funerário que se dirigia à Macedônia e o desviou para o Egito.


A procissão funerária da Babilônia a Alexandria com o seu catafalco durou meses. Gravura de
autor anônimo do século XIX baseada em descrição do escritor grego Diodorus 

Todavia é certo que Ptolomeu o pôs em majestoso templo-mausoléu em Alexandria após proclamar-se rei da terra dos faraós e criou um culto divino a Alexandre. O mausoléu existiu durante setecentos anos e era visitado por multidões, incluindo grandes personalidades da antiguidade, como César e Augusto. No início do século III DC o imperador Septímius Severus proibiu visitas do público para evitar danos ao corpo mumificado e mandou selar o sarcófago, mas visitas ocasionais de grandes personalidades, como a do imperador Caracala, continuaram a ser admitidas excepcionalmente. No final do século IV DC o imperador Teodósio mandou fechar os templos pagãos e o seu sucessor Arcádio mandou que fossem transformados em igrejas ortodoxas, demolindo-se aqueles que não fossem adaptáveis à nova religião. Assim, o majestoso templo-mausoléu foi destruído por fanáticos cristãos e não se sabe sequer o local onde ele ficava nem o destino dado ao sarcófogo e ao corpo do conquistador.

Depois da sua morte precoce o seu gigantesco Império se esfacelou, mas a Falange Grega ainda reinou invencível por mais de um século como a mais perfeita formação militar tática e estratégica já inventada e só foi superada pela Legião Romana no final da Segunda Guerra Púnica (202 AC). Esta se tornaria a mais perfeita formação militar de todos os tempos e sua organização tática, disposição estratégica e técnicas de combate ainda hoje são objeto de estudos nas Academias Militares do mundo inteiro



domingo, 7 de abril de 2013

Post nº 72

PETRONIUS  MAXIMUS  -  THE  EMPEROR  WHO  WAS  STONED  TO  DEATH  IN  THE  STREETS  OF  ROME


Three days after emperor Petronius Maximus was stoned to death in the streets of Rome, Genseric
king of the Vandals conquered the city and looted it completely (455 DC) 


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On March 27 455 DC, eleven days after the emperor Valentinianus killing by his own guards, the Roman Senate and the local military garrison acclaimed senator Petronius Maximus the new Western Roman Emperor. According to respected historians, the appointment was bought with rivers of gold because Maximus was a close member of the Valentinianus’ gang and people had resisted his nomination as much as possible, refusing the official version given to the dirty anecdote that was circulating in the city at the time of the coup d’état.

Accordingly, Maximus had bet his wife in an attempt to recover a lot of money he had lost to Valentinianus gambling dices. Losing again, he had called the lady and paid his debt, but due to the following mockery he had become a secret enemy of his former Imperial buddy. However, what had been generally accepted as a shameless gambling bet among vicious drunkards was being presented now as a rape: “The villainous Valentinianus had used Maximus’ ring, gained playing dice to attract his wife to the Empress’ bedroom and outraged the virtuous lady, pretending to be her husband in the darkness. As a result, Maximus had plotted and commanded the coup to avenge his honour”.

No one had believed in this fairy tale, although, due to the teasing and mockery of the deceased Emperor and other members of the gang of the “outraged husband”, this one may have felt humiliated, this humiliation becoming an important factor for Maximus collaborating with the true conspirators, especially helping them to introduce in the Imperial Guard the general Aetius’ former soldiers who killed the rogue Valentinianus to avenge the murder of their dear commander.

So, was no surprise the overthrowing and killing of the corrupt Petronius Maximus in October 455, less than seven months after he put the Imperial Purple on his shoulders and less than a year after Aetius’ cowardly assassination by his gang. As everybody predicted, he was a useless leader and an incompetent administrator, who had remained on the Imperial throne as if he was seated at a private table, gambling, drinking and chatting with his equally perverted chums. His ashamed gorgeous wife, who had been object of the infamous bet, which had become the most celebrated dirty anecdote of the last years in town, had died of disgust and her scoundrel husband, now a widower, had quickly married the shameless Licinia Eudoxia, recent widow of his late buddy Valentinianus, whom he had conspired to assassinate only a few months before. As if this wasn’t enough, in an attempt to legitimate his crown by mixing with the Imperial Family, replacing Valentinianus in his family as he had replaced him on his throne, he married his son to Paladia, daughter of the assassinated Emperor.

Empress Licínia Eudoxia married Petronius Maximus straight after the
assassination of her husband Valentinianus III

The summary of the comedy was that the shameless widow had married the rascal murderer of her late rogue husband, and her barefaced daughter had married the barefaced son of her father’s killer.

It was very difficult to find someone who didn’t stink in the pigsty the Imperial Court had become, and everybody outside the pigsty was praying for the cleaner’s arrival. He came in the person of the old pirate Genseric, King of the Vandals, who had established a powerful empire in North Africa since conquering the province from the Romans twenty-four years earlier. While Aetius was alive he had refrained from attacking Italy, especially after failing in an attempt to conquer the great Sicilian island in 443 when his invading army was defeated and repelled by Aetius. However, after the demise of the Iron Wall, Genseric saw that the path was open and realised that his moment had finally arrived. So, he began preparing a massive invasion at the very heart of the ailing Western Empire: Rome!

When Genseric preparations for attack were known in Italy, the Pope and the Roman Senate demanded immediate military measures from the Emperor to face the grave situation, but he remained gambling, drinking, chatting and making love with his mistresses as if nothing was happening. Finally, when everybody knew that Genseric’s army was ready to embark in the enormous fleet he had rounded up in North African ports, the pathetic Petronius Maximus was obliged to face the terrible problem, from which he had tried to escape as much as he could. Nonetheless, instead of assembling a powerful army to fight the enemy, he remained aloof with his entourage of chums, certain that Pope Leo could do with Genseric the same as he had done with Attila three years before: pay a huge ransom and obtain the barbarians’ withdrawal.


Besides being corrupt and incompetent, Petronius Maximus was a coward and tried to flee when the
Vandals approached Rome. So, the indignant crowd stoned him to death


In his stupidity, ignorance and evil, which had made him and his gang support the calumnies and attempts to obliterate Aetius’ extraordinary military deeds, he and the other rascals of the Imperial Court were convinced that Attila had gone away because the Pope had bought his withdrawal from Italian soil, and not because he had been tirelessly combated, till he perceived the mortal military trap prepared by Aetius, which made him give up and return to Pannonia.

The fact was that everybody in Rome was indignant with the incompetence of the useless Petronius Maximus and he became the most despised guy in town. When the Pope informed him that the Church had run out of money after paying Attila the huge ransom three years before, he was desperate. Furthermore, Genseric answered the proposals of the ineffective Emperor saying arrogantly that, the invincible King of the Vandals will not accept leftovers when he can take the whole banquet!

The invading fleet was already on its way when Petronius Maximus appeared before the Roman Senate to say that there was no salvation and consequently he was going to flee: If you are intelligent  men you shall do the same, he barefaced advised the astonished Senators, who began booing and throwing objects at the gambling coward, as he was now scornfully called by the ordinary people.

He retired quickly, accompanied by his buddies and guards, but when he left the building he met a crowd outside already informed of his cowardly behaviour, and they also began booing and throwing stones at the Imperial Entourage, which tried to flee as fast as they could, leaving the useless Emperor on his own. He also tried to escape, but was grabbed and stoned to death. Afterwards, the crowd dragged his corpse through the streets and threw the bloody remains into the River Tiber. His corpse was never found and he never had a funeral, for no one mourned the scoundrel or bother about his dirty remains. His sad case was the first among roman emperors, because even Nero had a proper funeral and was mourned by many people.

Three days after Petronius Maximus amazing public stoning and humiliating “burial” in the waters of the river Tiber, Genseric disembarked in the nearby port of Ostia and entered Rome without resistance. Thanks to the intervention of the brave and holy Pope Leo, respected by everyone including the Arian Vandals, Genseric prohibited burning, destruction, killings and atrocities against the defenceless population, but the city was submitted to overwhelming looting. This time, contrary to what had occurred during the Goths invasion forty-five years before, no church, monastery, convent, palace or private house was spared from being thoroughly sacked, and when the Vandals retired two weeks later Rome was as bare of riches as the most humble peasant’s hut. In return, the Catholic Church transformed the substantive vandal into a perverse adjective and gave to the words vandal and vandalism the bad meaning they still have nowadays.

The sack of Rome by the Vandals in 455 DC was very much worse
than the sack by the Goths forty five years before
 
There were also humorous stories.

One of those funny anecdotes said that the shameless empress Licinia Eudoxia and her both no less shameless daughters, widow and orphans twice of Roman Emperors in only seven months, went to visit Genseric in luxurious dresses and covered with jewellery, despite their husband and father-in-law being cruelly killed less than a week before. He gently received the barefaced women, but while they were chatting merrily, a group of Vandal women encircled the visitors and began, silently but firmly, stripping off their jewellery under the Genseric amused eyes. The Imperial visitors protested, but when they tried to react they were dominated and stripped not only of their precious jewellery but also of their rich dresses and shoes. When they were barefoot and covered only by their underwear, Genseric gave them rough dresses and wooden sandals, ordering their arrest. Jokers said that they were carried off to the Vandals ships together with thousands of other prisoners chosen for their youth, vigour and good-looking, transported to Carthage and sold in auction as slaves. True or false, jokes were widespread saying that Genseric had carried out the auction personally, announcing, among the general laughing and mockery: Who gives more for a noble and beautiful woman, widow of two Roman Emperors, who died happy and in fast succession in the comfort of her tender arms!

Empress Licínia Eudoxia was a beautiful woman, but the story of her auction in Carthage
by Genseric is only a joke


The anecdote says that Genseric was very disappointed with the low price Eudoxia had reached in the auction, regardless of his intense propaganda, but accepted the bid after one of his ministers telling him that only a crazy man would buy such a barefaced bad luck woman. However, some days later, Genseric repented accepting so low a price for such a fine lady, refunded a small part of the money, for the biggest part of the payment was for the bidder enjoying a Roman Empress in bed for some nights, and got Eudoxia back. He did the same with her two daughters, and later he married them to his sons.

Apart from jokes, true history says that the ladies lived in Carthage in great style for several years till the old king, always thirsty for gold, freed and sent them to live in Constantinople with their imperial relatives, as part of a lucrative deal he had made with the Eastern Roman Emperor. For them, the tragedies of the rascal emperors Valentinianus and Petronius Maximus resulted in a life of pleasure and adventure.

A happy ending for an unhappy history!