segunda-feira, 26 de setembro de 2011


Post nº 46

O FIM  DA  IDADE  CLÁSSICA  E  O  INÍCIO  DA  IDADE  MÉDIA

Ruínas de Olímpia na Grécia onde realizavam-se as Olimpíadas. O devoto imperador Teodósio
as proibiu no ano de 393 porque os cristãos as julgavam um indecente festival pagão



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A história do mundo ocidental geralmente é dividida em quatro Idades para fins didáticos: a Idade Antiga, começando por volta do século XXX AC com a hegemonia da civilização egípcia no Oriente Próximo e terminando no século VI AC com a hegemonia da civilização grega na Europa; a Idade Clássica, que vai do apogeu da civilização grega no século V AC até a queda do Império Romano do Ocidente no século V DC frente aos bárbaros, seguindo-se a Idade Média, que acaba no século XV DC com a queda do Império Romano do Oriente frente aos turcos. Desde então vivemos na quarta Idade: a Moderna. Quanto às duas últimas, chega-se mesmo a fixar datas de morte e nascimento: 476 para o fim da Idade Clássica e início da Idade Média, e 1453 para o fim desta e início da Idade Moderna.

Todavia discordo, pois a passagem de uma Idade à outra não depende da ocorrência de um fato, mas de uma profunda mudança cultural que pode durar décadas e até mesmo séculos. Assim, a passagem para a Idade Clássica é sobretudo a substituição do pensamento mágico antigo pelo pensamento lógico clássico na esfera do saber, e a passagem para a Idade Média nada mais é que o advento do predomínio da fé espiritual sobre a razão material, ou seja: a vitória do teológico sobre o lógico. Já a Idade Moderna é fruto do reverso e da volta aos valores clássicos através da Renascença e dos grandes feitos políticos, geográficos e astronômicos dos séculos XV e XVI, causando a Revolução Científica que desemboca no iluminismo e no liberalismo.

Mudanças culturais profundas aparecem no modo de ver coisas triviais como o "banho". Para os clássicos é vida civilizada, para os medievais é vida pecaminosa. Quadro de Sir Lawrence Alma-Tadema (séc. XIX) 

Isto não significa rupturas súbitas, mas lentos processos durante os quais um modo de pensar vai aos poucos substituindo o outro. Mesmo quando a substituição se completa muitos elementos do pensar anterior continuam presentes pela adaptação e integração ao pensar posterior, fazendo com que tenhamos sempre conosco o essencial das Idades precedentes. Assim, uma Idade é sempre a continuação das que a precedem, para o melhor ou para o pior, e não um banho lustral que retira o passado e deixa só o presente e a perspectiva do futuro.
 

Os circos representam a pujança esportiva, os banhos a social e os teatros a  cultural da Idade Clásica.
Eles desaparecerão na Idade Média e só voltarão gradualmente na Idade Moderna 
       
No caso do fim da Idade Clássica há uma lenta corrosão dos valores antropocêntricos que a presidiam, sobretudo em seus aspectos éticos e estéticos, começada ainda no reinado de Marco Aurélio no final do século II, mas isto só fica evidente durante a anarquia político-militar do século III, quando as pessoas fustigadas pelas guerras e pela miséria econômica começam a ansiar pelas felicidades celestiais em lugar das desgraças terrenas, encontrando no cristianismo o amparo às suas aflições e o desaguadouro natural das suas insatisfações. As crises política, econômica e moral levam o imperador Diocleciano a instaurar um regime quase totalitário de controle da economia e da sociedade, vendo erradamente no cristianismo a causa e não a conseqüência do descalabro institucionalizado.

Mas a feroz repressão antes fortalece que enfraquece a nova ética, pois a sua substância e forma espirituais encontram solo fértil na religiosidade natural das pessoas simples, ao contrário das éticas eruditas dirigidas somente às escassas camadas intelectuais da população. Transformado em ética de massas o cristianismo torna-se religião oficial no reinado de Constantino, mas não há ainda nada que indique o fim da Idade Clássica, pois a liberdade de pensamento religioso, filosófico, literário, artístico e científico não é cerceada. O costume e o gosto individuais continuam dentro da esfera dos direitos privados e no próprio cristianismo várias correntes de pensamento se desenvolvem com vigor.

A requintada vida social da Idade Clássica desaparecerá na Idade
Média. Quadro de Sir Lawrence Alma-Tadema (séc. XIX)

Nem mesmo quando o imperador Juliano tenta trazer de volta os antigos cultos há repressão aos cristãos, apenas se lhes proibindo que invoquem os filósofos pagãos em apoio da sua doutrina. Os sucessores de Juliano são cristãos da seita Ariana (seguidores da doutrina cristã unitária do bispo Ário) e isto faz com que adotem a mesma política de tolerância dos seus antecessores, bem de acordo com a tradição inclusiva dos romanos.

Teodósio era bom político e general, mas seu fanatismo religioso o fez perseguir os pagãos e alijar
os cristãos arianos. Os cristãos ortodoxos o chamaram "Teodósio o Grande"
         
De notar que a passada perseguição aos cristãos não tinha motivos religiosos, mas políticos, pois sob as leis romanas podia-se adorar qualquer deus desde que não ofendesse aos demais deuses, entre os quais estava o próprio imperador. Porém os cristãos mais devotos não obedeciam à norma, não só desrespeitando como amaldiçoando os deuses alheios por considera-los demoníacos, às vezes quebrando estátuas e danificando templos. As punições criminais que sofriam os faziam revoltar-se contra as leis e autoridades, dando-lhes fama de subversivos turbulentos cuja fidelidade ao imperador era mais que duvidosa. Por isso eram considerados “inimigos” latentes do Estado e de tempos em tempos eram perseguidos, sobretudo quando havia necessidade de um bode expiatório para alguma eventual catástrofe, mas quando a religião de um não interferia com a religião do outro o culto era tolerado, e até mesmo o culto judaico do Deus Único Invisível tinha um templo em Roma.  

Porém esta liberdade religiosa sofre uma radical mudança em 378 após a batalha de Adrianópolis. Embora o falecido imperador Valente fosse cristão ariano a sua derrota pelos godos arianos foi largamente interpretada pelos cristãos ortodoxos como castigo divino tanto ao imperador “herético” como ao Império “herético” pelas mãos de “bárbaros heréticos”, de sorte que o embate entre as duas seitas deixa de ser assunto religioso para se tornar questão político-militar. Para piorar as coisas, Teodósio, sucessor de Valente, é ortodoxo devoto e endossa as razões dos seus conselheiros espirituais, não só privando os cristãos arianos de todo e qualquer favor ou privilégio face às leis e autoridades imperiais como decretando o fechamento dos templos pagãos e criminalizando os seus cultos. Assim, os templos pagãos que não se tornam igrejas ortodoxas são condenados ao abandono e as igrejas cristães arianas são privadas de personalidade jurídica, impedindo-as legalmente de transacionarem ou de receberem legados e doações por via oficial.

A ruína do Paternon começa quando cristãos ortodoxos destroem a estátua da deusa Athena esculpida 
por Fídias e entronizada no templo há oitocentos anos. Depois o transformam em igreja ortodoxa
       
Após destruir a liberdade religiosa, pilar do mundo clássico, Teodósio adota extremado zelo ortodoxo e manda fechar as Escolas de Filosofia, especialmente as de Atenas, por serem focos de “doutrinação pagã”, encerrando uma tradição cultural que se confundia com a própria Idade Clássica. Também proíbe os jogos circenses e os espetáculos teatrais por serem “ímpios”, condenando os majestosos circos e anfiteatros à destruição pela ação do tempo. Por julgar serem os banhos públicos “antros de devassidão” ele os manda fechar e luxuosas termas, como as construídas em Roma pelo imperador Caracala no início do século III, têm a mesma sorte de majestosos circos como o Coliseu.

Reconstituição gráfica das "Termas de Caracala", o maior e mais luxuoso banheiro público
de todos os tempos, fechado pelo imperador Teodósio no fim da Idade Clássica

Relegados ao abandono durante 1.600 anos, os luxuosos banhos públicos do  imperador
 Caracala ainda impressionam pelas suas majestosas ruínas 
         
Teodósio conclui a sua obra de destruição do mundo clássico proibindo as Olimpíadas, festival religioso-esportivo que se realizava quadrienalmente no santuário de Olímpia desde o século VIII AC para honrar os deuses pagãos que lendariamente habitavam no cume do Monte Olimpo. Ele nem sequer cuida de uma operação sincrética para salvar uma bela tradição milenar, fazendo dos jogos festival em honra de santos cristãos ao invés de deuses pagãos: simplesmente os proíbe!

O monumental Coliseu era o maior e mais luxuoso circo da antiguidade. Todo em mármore, em cada janela
havia a estátua finamente esculpida de um deus pagão. Tudo isso desapareceu na Idade Média
       
No início do seu reinado ainda existiam quatro das "Sete Maravilhas do Mundo", das quais duas eram monumentos pagãos, o Templo de Diana em Éfeso e a Estátua de Zeus em Olímpia esculpida por Fídias no século V AC, mas suas proibições fazem o Templo de Diana virar depósito e a bela estátua  da deusa virar entulho ao ser destruída a marteladas. A mesma sorte terá a magnífica estátua do Zeus Olímpico de autoria de Fídias, um dos maiores arquitetos e escultores da História, de modo que Teodósio ao morrer terá destruído em pouco mais de uma década duas das mais belas criações artísticas da humanidade.

O Pantheon em Roma e o Parthenon em Atenas são poupados porque transformam-se em igrejas ortodoxas, mas as artísticas estátuas de deuses que os adornavam são destruídas. Assim, a majestosa estátua da deusa Athena Parthenos, também esculpida por Fídias no século V AC e desde então entronizada no Parthenon, é despedaçada e jogada no entulho. Todavia ressalte-se que muitos dos fechamentos e destruições não foram diretamente ordenados por Teodósio, mas por super zelosas autoridades locais, ansiosas por agradar e que  julgavam estarem apenas agindo de acordo com a sua política em geral, ou sucessores como o seu medíocre filho Arcádio, imperador romano do Oriente, que em 399 mandou demolir nos seus territórios todos os templos pagãos que não tivessem condições de servir como igrejas cristãs. Diante de tamanhas provas de virtude e devoção, a Igreja Ortodoxa, que ele fizera Igreja Oficial do Império, passa a chamá-lo "Teodósio o Grande" e ele morre ainda jovem em 395 após praticar um último ato de funestas conseqüências para o Império: ao invés de nomear sucessor o seu leal ministro e eficiente general Stilicon, nomeia os seus dois filhos adolescentes Arcádio e Honório, célebres pela petulante incompetência o primeiro e pela maldosa imbecilidade o segundo.

Embora não tenha causado a morte da Idade Clássica e o nascimento da Idade Média,
o devoto imperadorTeodósio foi coveiro de uma e parteiro da outra 

Não há notícia histórica de quem mandou destruir o mausoléu de Alexandre Magno, durante setecentos anos reverenciado em Alexandria pelos maiores personagens do mundo clássico, mas se não foi o zeloso Teodósio foi algum fanático ortodoxo ansioso por agradá-lo e fiel seguidor de sua orientação demolidora de tudo que lembrasse o paganismo, possivelmente o seu filho Arcádio a cuja jurisdição pertencia a província do Egito. Como dito acima, em 399 ele expediu decreto mandando transformar todos os templos pagãos sob sua jurisdição em igrejas cristãs e demolir aqueles em que isso não pudesse ser feito, sendo bem possível que pelo seu valor simbólico o mausoléu de Alexandre estivesse no segundo caso, pois era um misto de túmulo e templo pagão com sacerdotes que por ele zelavam e celebravam cerimônias em honra do Grande Rei elevado a deus. Era conhecidíssimo na antiguidade, mas referências ao mesmo cessam a partir de 392, data de uma carta do filósofo grego Libânio contendo a última referência conhecida ao túmulo do Conquistador. Depois disso faz-se impenetrável silêncio, só agora quebrado por arqueólogos que revolvem os sítios históricos de Alexandria em busca de pistas que expliquem o mistério. Portanto, se não foi Teodósio o autor direto da sua destruição foi ele o autor indireto de mais esta façanha contra a civilização greco-romana que lhe competia preservar.
 
Efígie de Alexandre em moeda do século IV AC. A destruição do seu Mausoléu em Alexandria, onde
 fora venerado durante 700 anos, deve-se à política religiosa fanática de Teodósio
       
Teodósio salvara Roma dos godos em 378, mas praticamente lhes a entrega em 395, pavimentando o caminho para que eles a conquistem apenas quinze anos depois. A catástrofe que o fim da Idade Clássica representa para a Civilização Ocidental pode ser avaliada no seguinte dado: no ano 400 as grandes e médias cidades europeias, todas elas integradas no Império Romano, possuiam água encanada, esgotos e coleta de lixo; mil anos depois nenhuma os possuía!

Mesmo no ano de 1700, mil e trezentos anos depois, Luís XIV, "O Rei Sol", constrói o magnífico palácio de Versalhes sem água encanada, sem banheiros, sem pias e sem sanitários. Banhos só eram tomados de tempos em tempos em largas tinas levadas aos reais aposentos quando a ocasião se oferecia, e necessidades fisiológicas eram satisfeitas em caixas especiais, depois tampadas e levadas pelos luxuosos corredores, espalhando o seu odor característico por todo o palácio. Não é de estranhar, portanto, que a requintada arte da perfumaria tenha atingido entre os franceses níveis altíssimos e dela tenha se tornada freguesa assídua toda a classe alta europeia. Isto nos faz afirmar com absoluta segurança que a nossa "Renascença", no que se refere aos hábitos de higiene comuns à Idade Clássica, somente começou nos últimos duzentos anos!

A higiene some na Idade Média e diz-se que rainha famosa só se banhou
duas vezes: ao nascer e ao morrer! Tela de Alma-Tadema (séc. XIX)

Bem examinadas as coisas, verifica-se que a Idade Clássica morre e a Idade Média nasce no final do século IV durante o reinado de Teodósio, e não no final do século V com a queda do Império Romano do Ocidente. Caso se deseje fixar uma data para a certidão de óbito de uma e a de nascimento da outra, creio que a data perfeita é 393, quando ele proibiu as Olimpíadas, pois nada simbolizou tanto a grandeza e a beleza do ser humano quanto elas e portanto nada melhor que a sua morte para representar o fim da cultura antropocêntrica da Idade Clássica e o início da cultura teocêntrica da Idade Média.

Após a morte de Teodósio o poder imperial dividiu-se e enfraqueceu, pois os dois novos imperadores eram adolescentes mimados e incompetentes, sem qualquer noção de governo. O Império Romano do Ocidente ficou sob a regência do ótimo general Stilicon, mas ele foi desde logo hostilizado pela elite romana, tanto do Oriente como do Ocidente, por ser filho de modesto oficial mercenário vândalo, mesmo sendo casado com uma sobrinha do falecido imperador. Ele ficou manietado no norte da Itália por grandes invasões bárbaras e pouca atenção deu aos assuntos internos, permitindo às autoridades locais reabrirem muitos dos teatros, circos e banhos fechados por Teodósio, embora sem a extensão e o esplendor de antes. O Império decaiu ainda mais após o assassinato de Stilicon em 408 e o cenário continuou igual por mais de um século, sobrevivendo à dissolução do Império do Ocidente em 476. O Coliseu e os banhos de Caracala só foram definitivamente fechados na primeira metade do século VI após os ostrogodos, senhores da Itália, serem derrotados pelas tropas de Justiniano, devoto ortodoxo que era Imperador Romano do Oriente com capital em Constantinopla.