segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

RICARDO  III  -  UM  DOS  MAIS  BRAVOS CAVALEIROS  E  O  MAIS  INFAME  REI
DA  INGLATERRA  MEDIEVAL


Ricardo III na batalha de Bosworth (1485) - Gravura de Edmund Leighton



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Ricardo Plantageneta, duque de Gloucester e mais tarde rei Ricardo III da Inglaterra, é uma das figuras mais controversas da História, pois é o que se pode chamar de herói e vilão ao mesmo tempo. Nascido em berço de ouro em 1452, terminou seus pouco mais de trinta e dois anos de vida estraçalhado no campo de batalha após ser traído por vários dos seus aliados, e foi enterrado anonimamente, nu como indigente, em buraco cavado às pressas na capela de um mosteiro na cidade de Leicester, depois demolido durante a Reforma Protestante. O local virou um descampado e depois um largo onde, em 2012, a prefeitura decidiu construir um estacionamento de automóveis. Durante as obras, esqueleto sem identificação foi achado em cova rasa que os especialistas certificaram estar situada no que era o coro da capela do antigo mosteiro. A ossada datava da segunda metade do século XV e as várias marcas nos ossos atestavam que a morte ocorrera em conseqüência de severos ferimentos feitos em combate por arma branca.

Ricardo III - Reconstituição facial feita por cientistas ingleses com base em seu crânio achado em Leicester

Após cuidadosos estudos, concluiu-se que aqueles eram os restos de Ricardo III, o mais infame rei da História da Inglaterra, e comprovou-se o que dizia a tradição: ele não tivera caixão, mortalha, túmulo ou epitáfio na deliberada tentativa dos seus inimigos de humilhá-lo mesmo depois de morto e riscá-lo da história! No processo de desconstrução da sua memória, o descreveram como anão manco e corcunda, e tornaram o seu nome sinônimo de “monstro”, para isso utilizando-se da genial pena de Shakespeare em uma de suas melhores peças teatrais. Dizem os entendidos que ela possui a mais arrebatadora abertura que se conhece em obras do gênero, pois começa com notável monólogo de Ricardo em versos que são familiares a todos que estudam e se dedicam ao teatro: Now is the winter of our discontent / Made glorious summer by this sun of York; / And all the clouds that lour’d upon our house / In the deep bosom of the ocean buried.
             
Filho do duque de York e irmão mais novo do rei Eduardo IV, o serviu com lealdade e valentia. Quando este foi deposto em 1470, teve participação decisiva na guerra que lhe devolveu o trono no ano seguinte. Depois, sufocou revoltas, eliminou adversários e esmagou os escoceses em feroz guerra, façanha que lhe valeu o apelido de Pounder of the Scots (“porrete dos escoceses”). Sua dedicação ao irmão rei era reconhecida por todos e ele adotou como lema Loyalty Binds Me (a lealdade me governa). Com certeza ninguém mais do que ele contribuiu para a segurança do trono, o que lhe deu títulos, riquezas, prestígio, popularidade e respeito. O rei, com sua corte em Londres, não tinha condições de cuidar de todo o reino e nomeou o seu leal irmão governador com poderes absolutos do turbulento norte da Inglaterra. Após anos de lutas, ele pôs ordem na região, revelando-se não só bravo e hábil general, mas também justo e competente administrador, muito admirado por sua honestidade e decência na vida pessoal. Depois do seu sucesso, foi nomeado Constable of England (Chefe de Polícia do Reino) e Judge-Chief of England (Juiz Geral do Reino). Uma das coisas que mais lhe fez ganhar a estima do povo foi criar tribunais para ouvir queixas dos pobres e julgar gratuitamente suas questões com imparcialidade, mesmo aquelas contra os poderosos.


  O mais antigo retrato de Ricardo que se conhece. Feito por pintor anônimo
                            possivelmente durante seu curto reinado (1483-85)

Ao tornar-se rei, estabeleceu em Londres um tribunal mais bem estruturado com igual finalidade, chamado Court of Requests. Este foi o primeiro do mundo destinado  a prestar assistência judiciária aos pobres e proteger os seus direitos. Também criou o direito dos acusados responderem processo em liberdade sob fiança e proibiu fossem confiscados seus bens antes da condenação por corte regular de justiça. Possuía boa biblioteca, coisa rara entre os príncipes da época, e sua admiração pela recentemente inventada imprensa o fez editar a primeira lei da História proibindo a censura prévia e preservando a liberdade de expressão. Indo mais longe, proibiu fossem cobrados impostos ou taxas sem autorização do Parlamento, princípio legal em vigor desde a Magna Carta promulgada quase 300 anos antes, mas cinicamente violado pelas chamadas benevolências. Estas nada mais eram que extorsões do rei e de altas autoridades, feitas através da exigência da benevolência deste ou daquele ricaço para que lhe doasse quantia certa em dinheiro a fim de “atender necessidades" do momento. Ricardo foi radical e não só negou-se a cobrá-las para si como proibiu aos outros fazê-lo, tornando-as crime de corrupção.

Para completar, seu esqueleto mostra que embora sofresse de escoliose, que o fazia manter um ombro mais erguido que o outro para aliviar a dor intensa, não era o anão manco e corcunda de feições horrendas descrito por seus inimigos. Na verdade era mais alto que a média e a reconstituição do seu rosto por modernos métodos científicos mostra que tinha feições agradáveis e bastante simpáticas. Se este foi o verdadeiro rei Ricardo III, bravo guerreiro de boa aparência, razoável cultura e grande talento administrativo, então por que a sua fama de “monstro”?

Creio que a certa altura de sua vida ele se convenceu de que seus irmãos mais velhos, Eduardo e Clarence, eram dois idiotas que não mereciam as altas posições que ocupavam, pois não tinham um décimo da sua visão e valor pessoal. O duque de Clarence não possuía talento algum e além de participar de várias conspirações contra o seu irmão mais velho tentara impedir o mais novo de casar-se com a prima por pura mesquinharia e questões patrimoniais, chegando a conseguir fosse deixada em aberto na “dispensa papal” (necessária para casamentos de primos em 1º grau) a questão da consangüinidade, coisa que lhe permitiria anular o casamento de Ricardo no caso de futuras disputas legais. Já o rei Eduardo era um promíscuo bon-vivant que se ocupava mais com mulheres e farras do que com o reino, jogando o fardo das tarefas mais pesadas sobre os doloridos ombros do seu competente e puritano irmão caçula. Isto deve ter criado em sua mente já enferma, embora ninguém o percebesse, a convicção de que a coroa deveria ser sua, acordando a doentia ambição que perverteu-lhe os sentimentos e o fez considerar tolo o seu lema sobre “lealdade”. Para usar expressão muito popular após o sucesso da série cinematográfica “Guerra nas Estrelas”, poder-se-ia dizer que Ricardo aderiu ao “Lado Negro da Força” e virou escravo do seu demônio interior, sucumbindo ao “Império do Mal”.


   Eduardo IV , tela de autor anônimo da época. Incapaz e mulherengo, punha
           sobre Ricardo o fardo do governo, fazendo-o ambicionar-lhe a coroa

Sobre a doentia ambição que passou a dominá-lo há uma pista em seus livros, onde sempre escrevia seu nome na página título, pois em várias delas escreveu também um novo lema: Tant Le Desiree (Tanto a tenho desejado). Apesar de ter tido filhos bastardos, coisa comum aos nobres da época, ele não era dado a aventuras galantes e, certamente, o lema escrito em livros como O Guia dos Príncipes e A Arte da Guerra não se referia a mulheres, mas à coroa real.

Metodicamente, eliminou todos os que poderiam se por em seu caminho, agindo sempre de forma disfarçada e indireta, pois na época conspirações pululavam e como Constable of England estabeleceu eficiente serviço de informações que o mantinha a par de tudo. Assim, valendo-se dos seus cargos policiais e judiciais, à primeira suspeita prendia os pretensos “conspiradores”, julgava-os e os decapitava, pois a pena para o crime de traição era a morte. Suas primeiras vítimas foram os parentes próximos da rainha Elizabeth, que pertencia à família Woodville, partidária da Casa de Lancaster, tradicional rival da Casa de York. Muitos dos seus membros tinham participado de revoltas contra o rei e eram notórios partidários de outros candidatos ao trono. Alguns haviam sido executados, mas outros foram perdoados devido à paixão que Eduardo tinha pela linda esposa. Apesar de ser considerada a mulher mais bela da Inglaterra e pertencer à nobreza, ela não tinha sangue real e era viúva de um simples cavaleiro que morrera combatendo o rei. Por isso o casamento fora muito discreto, mas ao tornar-se público os yorkistas ficaram indignados com a cretinice de Eduardo e também porque os Woodville passaram a gozar de grande prestígio na Corte. Ricardo era menino na época e ao ficar adulto manteve-se calado, mas ao adquirir imenso poder tratou de corrigir o erro do irmão, prendendo e executando por “conspiração” vários membros da família Woodville e de outras famílias rivais, muitas vezes através de provas forjadas.

              Elizabeth de Woodville, esposa de Eduardo IV e na época considerada a mulher
                                       mais bela da Inglaterra. Tela de autor anônimo (séc. XV)

Quando terminou a “limpeza”, voltou-se para a sua própria família, primeiro eliminando parentes distantes e depois parentes mais próximos, até chegar ao seu próprio irmão Clarence, único que se interpunha entre ele e o rei numa possível linha de sucessão colateral. Clarence era um bêbado idiota de caráter fraco que já traíra o irmão mais velho e tentado prejudicar o irmão mais novo, sendo sempre perdoado pelo bom gênio de Eduardo e sem sofrer maiores reprimendas do "gentil caçulinha" Ricardo, nem, muito menos, perder sua fraternal amizade. Confiante na costumeira tolerância dos irmãos, meteu-se em mais uma conspiração contra a coroa, que Ricardo logo descobriu e tratou de aumentá-la aos olhos do rei por meios indiretos, pois não queria ser visto como principal causador da desgraça do irmão. O resultado é que Clarence foi preso e condenado à morte "em privado" (longe do público). Desesperado, apelou para que o “justo” Ricardo interviesse em seu favor, coisa que ele fez abertamente a fim de afastar de si quaisquer suspeitas enquanto forjava provas e mais provas contra o irmão idiota. Porém Eduardo não estava disposto a manchar as mãos com o sangue do próprio irmão e confidenciou a Ricardo que iria perdoá-lo. Isto o fez agir rápido e, enquanto o indeciso Eduardo demorava-se a emitir o decreto de perdão, Clarence "sumiu" dos seus aposentos de prisioneiro na Torre de Londres. Nunca se soube ao certo o que aconteceu, pois Ricardo nada investigou, como competia ao Chefe de Polícia do Reino, e um manto de silêncio foi estendido sobre o assunto. Tudo indica que Eduardo conformou-se com a ação dos "desconhecidos" assassinos de Clarence, achando que eles tinham feito a coisa certa, e deu o caso como fato consumado sobre o qual não convinha fazer estardalhaço. Melhor o silêncio!

   Clarence era um bêbado que traiu o rei várias vezes e por fim foi morto, mas ao invés de
                    decapitado foi afogado em barril de vinho. Tela de Richard Godfrey (1700)
             
Tempos depois boatos circularam de que ao invés de ser formalmente decapitado em seus aposentos, como mandava a lei no caso dos nobres, alguns "amigos" o embriagaram a pretexto de festejarem o "próximo perdão do rei" e o afogaram em um barril de vinho. Depois puseram o cadáver dentro e o fecharam, retirando o barril da Torre sem despertar suspeitas e enterrando o corpo em cova anônima na abadia de Twiksbury. Todos acharam que o boato era uma piada alusiva ao alcoolismo de Clarence, porém concordaram que ele não teria sido executado, mas morto a facadas por ordem de alguém poderoso e enterrado em segredo. Como a intervenção de Ricardo “em seu favor” era notória, as suspeitas voltaram-se contra o próprio rei, pois dizia-se que não queria aparecer perante os demais como matador do irmão alcoólatra e assim procedera para que se pensasse ter o traidor fugido para o continente. Os insistentes boatos de que ocorrera não uma execução decente, mas um infame assassinato, fizeram o rei romper o silêncio e encerrar o assunto de uma vez por todas, certamente a conselho de Ricardo, informando ao Parlamento que Clarence "fora executado nos termos da lei". Ninguém sentiu falta do beberrão traidor e no violento panorama da época o assunto logo foi esquecido. Anos depois sua ossada foi descoberta em cova rasa e nela não se achou sinais de decapitação, como era próprio à execução de um príncipe, nem de golpes com arma branca, o que reforça a tese do afogamento no barril de vinho. Depois dos exames forenses, a ossada foi dignamente sepultada na mesma abadia.
             
Só uma mente doentia e perversa poderia ter concebido forma tão bizarra e humilhante de vingança e, sabendo-se o que depois se veio a saber da monstruosa crueldade de Ricardo, poucas dúvidas podem restar de ter sido ele o autor da inédita proeza.

Com Clarence fora do caminho, Ricardo se tornou o "1º irmão" e, sendo astuto e instruído, viu que o domínio da nobreza, com suas eternas brigas e rivalidades, era prejudicial à nova sociedade burguesa que surgia na Europa em conseqüência da Revolução Comercial, ainda em seus estágios iniciais. Viu também que a nova classe era muito devota e puritana e por isso procurou adotar procedimento mais puritano do que aquele que já possuía. Quanto à devoção, que quase não tinha, tratou de fingi-la com a mais refinada hipocrisia e percebeu que o dinheiro deslocara-se da mão dos nobres latifundiários para a mão dos burgueses comerciantes. Aqueles ainda eram os donos das grandes fortunas, mas estas eram constituídas por terras, riqueza de mínima liquidez e de pouca utilidade nos casos de grave necessidade política e econômica, enquanto que a muito menor fortuna dos mercadores plebeus das cidades era constituída por dinheiro sonante, coisa que realmente tinha valor e funcionava nas horas de crise. Assim, aproximou-se da burguesia e a fez sua aliada. Muito cauteloso, ia pouco a Londres e quase não frequentava a corte, preferindo exercer suas altas funções militares, administrativas, policiais e judiciais a partir de York, no extremo norte do país. Embora fosse o 1º ministro de fato, ele se esforçava para não aparecer como tal aos olhos dos demais e isto lhe fortalecia a fama de modesto, o que não só o mantinha longe dos invejosos como lhe dava ampla liberdade de ação, conservando-o a salvo das suspeitas de alimentar desmedidas ambições e de intrigas de cortesões. Todavia não descuidava do contato constante com o rei através de intensa comunicação epistolar, mantendo-o a par de tudo que se passava no país e dando-lhe contas detalhadas das suas ações em prol da prosperidade e maior glória do reinado de Eduardo.

Porém o que mais agradava ao tolo monarca eram as gordas rendas que Ricardo pontualmente lhe mandava. Para ele aquele irmãozinho caçula eficiente, gentil, modesto, bravo e dedicado, cujo lema era lealdade a qualquer custo, constituía motivo de alegria e gratidão e não de cuidado e preocupação.

  Eduardo IV era alto e bonito, amante de festas e mulheres. Deve ter morrido
                por excessos e não por venenos. Tela de autor anônimo (séc. XV) 

Em abril de 1483 Eduardo morreu após breve enfermidade e correram boatos de envenenamento, mas estes logo sumiram porque os prováveis aspirantes ao trono tinham sido eliminados pela eficiente mão de Ricardo e o falecido rei tinha sucessores legais nos seus dois filhos homens ainda meninos. Portanto, não havia à vista qualquer beneficiário da morte do rei. O modesto Ricardo era apenas o terceiro na linha de sucessão no improvável caso da morte dos dois saudáveis herdeiros legítimos e nenhum benefício imediato lhe poderia advir do “duvidoso envenenamento” do rei. Ademais, vivia modestamente longe da corte, sua “lealdade” ao irmão era patente e sua decência e devoção eram tais que o tornavam o mais improvável dos suspeitos. Por isso o Parlamento deu a morte como natural e aclamou novo rei o garoto de doze anos Eduardo V.

Sendo ele ainda menino, a regência caberia à rainha-viúva sua mãe, porém ela era de família partidária da Casa de Lancaster, rival da Casa de York, e não gozava da simpatia do Parlamento, sobretudo da Câmara dos Comuns, formada por burgueses fartos de guerras civis e disputas dinásticas que davam grandes prejuízos à economia, esfolavam os contribuintes e prejudicavam os negócios. Em conseqüência, sem sequer consultar Ricardo, que se achava prudentemente longe em York, os parlamentares o aclamaram regente sob o título de Lord Protetor da Inglaterra. Não se exclui a hipótese de que ele tenha manipulado tudo à distância, pois o controle da Polícia e da Justiça lhe permitia fazê-lo e os seus amigos burgueses dominavam a Câmara dos Comuns, sem falar na quase ausência de oposição na Câmara dos Lordes, porém o mais provável é que o astuto príncipe tenha ficado ausente, evitando manipulações que poderiam prejudicar sua reputação se viessem a público. Certo de que os fatos não poderiam ter outro desfecho e o poder lhe viria às mãos naturalmente, manteve-se discreto, observando com calma o desenrolar dos acontecimentos.

Eleito Lord Protetor da Inglaterra, deslocou-se para Londres e constatou o que previra e temera: os Woodville, parentes da rainha-mãe, haviam tomado conta do palácio real e agora mandavam na corte, sobretudo um irmão e um filho do primeiro casamento de Elizabeth. Porém, dispondo da Polícia, da Justiça e do Parlamento, Ricardo não perdeu tempo: pôs a rainha em prisão domiciliar e executou sumariamente o seu filho e o seu irmão! Por fim, alegando que era para a segurança do rei-menino e do seu irmão mais novo, ambos cercados por inimigos ostensivos e "ocultos", os mandou para a Torre de Londres, fortaleza que funcionava como prisão para os membros da alta nobreza.

O rei-menino Eduardo V e o irmão caçula presos na Torre de Londres
     por ordem do tio Ricardo. Tela de John Everett Millais (séc. XIX)


Até então todos julgavam que Ricardo agia corretamente porque os meninos tinham realmente muitos inimigos e era inconcebível que uma família da nobreza de segunda linha, como era o caso dos Woodville, se apoderasse do poder, mandando e desmandando, sobretudo sendo ela tradicional aliada da Casa de Lancaster, inimiga da dinastia reinante, mas quando surgiram boatos de que o novo rei Eduardo V e seu irmão duque de York eram filhos bastardos, inaptos para o trono, a Câmara dos Lords, reduto da nobreza, agitou-se e houve acerbos debates. Como sempre, Ricardo estava por trás de tudo e dava curso ao seu velho e oculto plano de apoderar-se da Coroa. Assim, fez um jurista amigo levar ao Parlamento contrato pré-matrimonial secreto que provava estar o falecido Eduardo IV comprometido com outra mulher ao casar discretamente com Elizabeth Woodville. Isto era bem do feitio do falecido rei mulherengo e ninguém duvidou da autenticidade do documento, mas os opositores alegaram que sua existência e posterior violação acarretava danos civis por quebra de contrato perante a família prejudicada, mas não invalidava o casamento do irresponsável Eduardo com a bela Elizabeth.

Foi quando um “santo frade” apareceu e jurou sobre a Bíblia que o contrato fora cumprido e ele próprio oficiara em segredo o casamento do falecido rei com a outra mulher antes do casamento com Elizabeth, coisa que o invalidava totalmente. Como tal modo de proceder era típico do promíscuo falecido rei, cujo próprio casamento com Elizabeth fora quase secreto, ninguém pôs em dúvida o depoimento do “santo frade”, fazendo o Parlamento declarar inválido o “segundo casamento" e bastardos os príncipes presos na Torre de Londres. Em conseqüência, Ricardo foi aclamado rei em meio ao grande júbilo político e popular, pois todos achavam que as suas virtudes e méritos o faziam talhado para o trono. Com fingida “humildade”, aceitou a decisão do Parlamento e quase que imediatamente se fez coroar na abadia de Westminster.


                       Os príncipes aterrorizados ouvem os passos dos assassinos e o cãozinho late para as sombras
                                         abaixo da porta. Tela de grande dramaticidade de Paul Delaroche (séc. XIX)
             
Tudo poderia ter terminado aí e ele feito longo e profícuo governo se continuasse agindo com a habitual astúcia e não se entregasse ao lado mais negro do seu coração, mandando matar covardemente os seus dois sobrinhos meninos presos na Torre. Possuído pela paranoia, os julgou perigosos à sua segurança por achar que rebeldes poderiam se unir em torno do garoto Eduardo V alegando ser ele "o rei legítimo", destituído do poder por manobras escusas do tio!

Fosse Ricardo homem de mente saudável, teria achado solução menos radical e cruel, que não somente afastasse perigos de rebeliões como agradasse a todos. Uma dessas seria destinar os meninos à carreira eclesiástica, internando-os em mosteiro na distante Roma sob a guarda do Papa. Quanto a Elizabeth, agora reduzida à condição de viúva de um simples cavaleiro, poderia tê-la internado em mosteiro português sob a guarda do rei de Portugal, com quem a Inglaterra possuía ótimas relações comerciais e diplomáticas. Com mãe e filhos presos em mosteiros de países longínquos, separados por grandes distâncias e sob severa guarda de seus governantes, ninguém de bom coração e corretas intenções veria maldade nisso e conspirações urdidas em torno dos "bastardos" se tornariam improváveis. Mas o demônio se apoderara de sua alma e antes de assassinar seus inocentes sobrinhos resolveu livrar-se dos seus poderosos aliados, os duques de Hastings e de Bukingham, que haviam incorrido no seu desagrado ao se oporem à destituição do jovem rei . Após rápido julgamento por “traição”, realizado sob sua presidência na própria Torre de Londres, Hastings foi decapitado. Bukingham só escapou porque fora avisado das malévolas intenções do rei e não atendeu ao seu "convite" para ir à Torre, sabiamente fugindo para a França.

Depois de removidos parcialmente estes dois obstáculos, ele deu continuidade ao seu perverso plano livrando-se dos príncipes-meninos da forma mais infame que se possa imaginar: sufocando-os com travesseiros durante o sono e sepultando-os secretamente em cova rasa sob as lajes de escadaria de pedra na própria Torre de Londres. A nefanda sepultura, sobre a qual todos os dias transitavam pessoas, ficou ignorada por mais de século e meio, até que em 1643 foi descoberta durante reformas no sinistro prédio e consertos na centenária escadaria. Só então as infelizes crianças receberam enterro digno!

                     Os príncipes meninos dormem enquanto os carrascos de Ricardo se preparam para asfixiá-los
                                                                      com travesseiros. Tela de Pedro Américo (1880)

Julga-se que os príncipes foram assassinados no final de agosto de 1483, pois foi a última vez que foram vistos brincando no pátio da sombria fortaleza. Daí em diante não mais se soube deles e o primeiro boato foi que tinham fugido e estavam escondidos sob a proteção de opositores de Ricardo. Mas quando nenhum desses opositores foi localizado e nenhuma notícia do paradeiro das crianças surgiu, o boato passou a ser de que elas tinham sido assassinadas e secretamente enterradas pelo perverso tio. A partir daí o seu apoio popular evaporou e o seu suporte no Parlamento enfraqueceu, sobretudo porque ele não fez qualquer pronunciamento sobre o sórdido assunto e não ordenou qualquer investigação para apurar o misterioso sumiço dos sobrinhos. Isto reforçou na mente das pessoas a crença no crime e na culpa de Ricardo, que virou certeza quando ele não fez nenhum esforço para negá-la. Tudo indica que uma espécie de loucura e de sentimento de onipotência tenha se apoderado dele e a crescente indignação da nobreza foi seguida pelo geral desprezo do povo ao até então querido monarca, fazendo com que em novembro de 1483 estourasse rebelião que convulsionou o reino durante meses. Mais uma vez Ricardo mostrou seu grande talento militar e derrotou os rebeldes, executando-os em massa. Entre os mortos estava o poderoso duque de Bukingham que poucos meses antes lhe havia escapado ao fugir para a França. Depois disso Ricardo se tornou totalmente paranoico, suspeitando de tudo e de todos e vendo traições em toda parte. A feroz repressão que ordenou fez do seu reinado um dos mais tirânicos da história da Inglaterra, embora ele se esforçasse para readquirir o apoio do povo editando ótimas leis que protegiam a economia, incentivavam a prosperidade e, curiosamente, reforçavam os direitos civis e políticos dos cidadãos plebeus (commoners). Isto fez com que muitos ilustres juristas e historiadores escrevessem mais tarde que ele fora um tirano torpe, mas promulgara excelentes leis que beneficiaram o país e o povo!

Cerca de 20 anos após o seu sórdido reinado, um dos assassinos dos príncipes foi preso e revelou os nomes dos cúmplices, todos homens da confiança de Ricardo. Jurando que tinham agido sob ordens do Rei, disse que o enterro dos meninos fora feito por terceiros seus desconhecidos após os criminosos deixarem o local do crime. Por isso não sabia dizer onde ficava a sepultura secreta.

      Batalha de Bosworth - Gravura de Philip de Loutherbourg (séc. XVIII). Ricardo lutou até o fim, mas o pouco
                          entusiasmo dos seus homens, que não queriam lutar pelo "assassino de crianças", o derrotou


O reinado de Ricardo continuou de mal a pior e em agosto de 1485 estourou nova rebelião chefiada pelo conde de Richmond, líder da Casa de Lancaster. O exército real era superior ao dos rebeldes, porém tudo indica que faltou aos seus soldados entusiasmo para lutar em favor do assassino de crianças e ele foi morto na batalha de Bosworth após ser traído por importantes aliados. Mas não se rendeu e combateu quase sozinho até o fim com inexcedível bravura. Diz a tradição que durante a batalha várias das suas montarias foram mortas e substituídas, mas quando a última tombou sob os golpes inimigos ele manteve-se de pé lutando valentemente e abrindo claros entre os muitos atacantes que o cercavam enquanto bradava: Um cavalo! Tragam-me um cavalo! O meu reino por um cavalo!

Nunca um cavalo valeu tanto e um reino valeu tão pouco!