sábado, 5 de fevereiro de 2011

Post nº 25
BATALHA  DE  AQUILEIA  -  MISTÉRIOS  E  INDAGAÇÕES

Aquileia era uma das mais ricas e importantes cidades do norte da Itália, mas sofreu uma das
destruições mais completas da história e praticamente nada dela restou


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A batalha de Aquileia e sua completa destruição por Átila em 452 DC têm suscitado através dos tempos várias questões que tentaremos responder com as poucas evidências que conseguimos colher ao longo de muitos anos de estudo e pesquisa sobre o assunto.

A primeira é sobre a veracidade histórica da emigração antecipada das cegonhas alojadas nas torres da grande metrópole, fazendo Átila acreditar que a sua queda era iminente e as aves deixavam o lar porque previam que ele seria destruído. Se Átila acreditou ou não no “oráculo” ninguém sabe, mas o fato é que habilmente o utilizou para incutir ânimo nos seus guerreiros e vencer a batalha. 

Quanto a veracidade do episódio, alguns historiadores o omitem, mas outros o relatam, embora divididos em dois grupos: o primeiro acha que foi um oráculo divino, mas que, ao invés de deuses pagãos falando aos hunos, eram santos dizendo aos cristãos que a cidade ia cair e eles a deixassem antes que fosse tarde demais. O segundo grupo é menos místico: diz que a emigração fora de época foi causada por um fato natural qualquer e devemos concordar, pois as evidências são de que a revoada das cegonhas foi verídica e a sua razão teria sido o ataque de uma horda de ratazanas famintas. O motivo da fome seria a fuga da população civil, deixando os roedores sem a sua habitual fonte de nutrição: restos de comida jogados no lixo! Privados de alimentos, os enormes ratos esfomeados atacaram os ninhos das cegonhas para devorarem os seus ovos e filhotes, obrigando-as a fugirem para lugares mais seguros.

A segunda questão é sobre a resistência heróica do comandante Jorgius na catedral de Aquileia. Alguns indagam não só se a epopéia de Jorgius relaciona-se com a lenda de "São Jorge e o Dragão", como também se alguns dos soldados lograram escapar. A pergunta é interessante e bastante singular, pois há grandes semelhanças simbólicas entre o "fato" e a "lenda". Acontece que todos os fatos pós-entrada dos hunos em Aquileia estão envoltos em "lenda", não havendo certeza histórica sobre nenhum deles, nem sequer sobre a luta dentro da cidade e o tempo que ela teria durado.

Átila usando uma coroa de louros como se fora um príncipe romano de feições
orientais. Gravura de Fredrik Sanders (séc. XIX)

Também não há certeza se o último baluarte foi a catedral nem, tampouco, se o nome do seu comandante era Jorgius, pois há relatos dizendo que o seu nome era “Fúlvio”. Neles se diz que o comandante Fúlvio escapou com vários soldados, muitos civis e alguns sacerdotes, sendo mais tarde morto pelos hunos durante a fuga pelos pântanos.

Todavia é preferível a versão que apresenta Jorgius como o último defensor; é mais bonita e simboliza melhor a fé e o heroísmo dos legionários romanos. É possível que os relatos de uma resistência até o fim tenham sido criados para incutir no povo e no exército coragem para enfrentar o bárbaro invasor, mas não há certeza. A única certeza é a de que os aquileianos lutaram com excepcional bravura, detendo Átila por três meses e dando tempo a Aetius para organizar melhor a resistência.
O atraso causado pelos defensores de Aquileia aos planos de Átila determinou a sua retirada da Itália alguns meses depois sem conquistar Roma, pois marchou para lá em pleno calor do verão e o seu exército foi assolado pela peste. Se prosseguisse, o outono o alcançaria, matando os seus cavalos de fome com a secura dos pastos; em tais condições seria massacrado por Aetius durante a retirada; melhor, portanto, seria retirar-se antes da chegada do outono. Claro que outros fatos contribuíram para o seu recuo e nós os relatamos no nosso livro “O Senhor dos Dragões”, mas a causa principal da sua final derrota foi a heróica resistência da infeliz cidade.
Aquileia é um dos poucos casos na história de “derrota decisiva”, ou seja, uma grande derrota que é a causa de uma grande vitória para os derrotados no final!

A basílica de Aquileia foi palco de dois Concílios antes da destruição da cidade. A torre à esquerda foi
adicionada na Idade Média, mas o prédio principal é o mesmo que foi incendiado por Átila

A indagação sobre a possível relação entre a história do comandante Jorgius e a história de São Jorge nos remete ao reino da fantasia. Ninguém sabe direito quem foi o guerreiro São Jorge nem o porquê da lenda dele lutando com um dragão para libertar uma virgem presa em um grande edifício. Os cristãos consideravam os hunos demônios e os dragões eram tidos como seres demoníacos, de forma que associar hunos a dragões era plausível aos devotos cristãos da época.
A história de Jorgius em frente a uma catedral (grande edifício), tendo na mão esquerda a imagem de Nossa Senhora (virgem), e na mão direita a espada para lutar com os hunos (dragões) constitui analogia perfeita com São Jorge enfrentando o dragão em defesa da virgem em perigo. Todavia, não há indícios sugerindo qualquer relação da história, possivelmente lendária do comandante Jorgius, com a história certamente mitológica de São Jorge.

O entulho conservou durante séculos o belo piso da Catedral de Aquileia. Suas
paredes e colunas foram restauradas e hoje ela é quase toda original

A indagação sobre se Aquileia foi reconstruída há que ser respondida com uma negativa, embora no lugar hoje exista uma pequena cidade com o mesmo nome. Todavia, a majestosa cidade romana de Aquileia cheia de templos, palácios e edifícios imponentes foi destruída para sempre pelos hunos. Durante muito tempo o local foi considerado mal-assombrado devido à carnificina ali ocorrida, mas aos poucos camponeses pobres estabeleceram-se nas proximidades das ruínas e na Idade Média surgiu a um quilômetro delas um vilarejo que deu origem à pequena cidade de hoje. Por sorte a antiga catedral fica exatamente nesse sítio e foi reconstruída ao longo dos séculos. A sua torre, por exemplo, é do século XII, mas todo o resto da rica metrópole, que na antiguidade foi palco de dois grandes Concílios da Igreja, desapareceu sob as patas dos cavalos hunos, dando veracidade à perversa jactância de Átila: “Onde o meu cavalo pisa a erva não torna a crescer”! 
Resta saber o destino dos refugiados no pântano, e a resposta é que eles fundaram Veneza!



Os aquileanos refugiados nos pântanos fundaram Veneza, uma das mais belas cidades do mundo

Do insalubre lugar em que estavam, marcharam pela pantanosa costa do mar Adriático e chegaram a uma vasta laguna. Viram que as suas ilhotas eram excelentes como esconderijos e lá ficaram enquanto os hunos assolavam o norte da Itália. Construíram rústicas habitações e quando o perigo passou decidiram que não fazia sentido voltarem aos lares destruídos nem irem para outros lugares menos seguros, pois a fraqueza do Império fazia-os prever que outras invasões ocorreriam em breve. O melhor seria ficarem lá definitivamente. E foi o que aconteceu.
Assim, pode-se dizer que a morte de Aquileia foi das mais gloriosas, porque salvou Roma e causou  a final derrota de Átila. De quebra, propiciou a fundação de Veneza, uma das mais belas cidades do mundo!




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