domingo, 27 de fevereiro de 2011

Post nº 28 - LEÔNIDAS E OUTROS MITOS DA ANTIGUIDADE



Célebre quadro do pintor francês Davi retratando Leônidas nas Termópilas (século 18)


          Apesar do grande avanço feito pelos gregos na "ciência da história", cuja criação é geralmente atribuída a Heródoto, a história da antiguidade está recheada de exageros, lendas e mitos que se afastam muito da verdade histórica. Aqui escolhemos alguns dos mitos mais notórios para expor e comentar.

          1 – Os persas invadiram a Grécia três vezes no século 5º AC com exércitos de centenas de milhares de homens!


O exército persa era enorme e tinha recursos materiais imensos, mas não tinha o trinamento, a disciplina,
o armamento e a superior técnica de combate dos gregos


Os historiadores gregos, a começar por Heródoto, exageravam o número de soldados inimigos para exaltarem suas vitórias e justificarem suas derrotas. Números excedendo uma centena de milhares de homens são absolutamente fantasiosos porque não havia recursos logísticos na Grécia capazes de abastecer tanta gente e era dificílimo fazê-lo por mar. Mesmo assim, o exército persa nas três ocasiões era muito maior que o exército grego coligado, que nunca chegou a ter mais de uma dúzia de milhares de homens.

          2 – Na segunda invasão, comandada pelo rei Xerxes, os persas quase foram derrotados nas Termópilas por 300 espartanos comandados pelo rei Leônidas!


O exército grego era pequeno mas suas couraças, escudos, armamentos e técnicas de
combate eram muito superiores aos dos persas

O exército sob o comando de Leônidas tinha cerca de 6.000 homens, mas quando viu que a batalha estava perdida mandou seus aliados escaparem enquanto ele e os seus 300 espartanos detinham o inimigo por algumas horas. Porém os espartanos não foram os únicos que ficaram para combater até o fim, pois 700 guerreiros de Thespis e 400 de Tebas também ficaram. Portanto, o último baluarte dos gregos totalizava 1.400 homens e não apenas os "300 de Esparta". Como visto, os espartanos eram uma pequena minoria entre os últimos defensores, mas a história foi generosa com eles e preservou-lhes a memória, esquecendo os outros que também sacrificaram suas vidas na luta final. O ato foi de extraordinária nobreza porque espartanos, thespianos e tebanos deram suas vidas para que os demais sobrevivessem, mas não foram eles os únicos que enfrentaram com sucesso os persas durante a maior parte da batalha: a notável façanha foi de todo o exército grego de 6.000 homens. Os persas, porém, não estiveram a altura da ocasião e não demonstraram nenhuma grandeza, porque, ao invés de honrarem os seus valorosos adversários vencidos, jogaram seus corpos nus ribanceira abaixo no mar. Quanto a Leônidas, espetaram sua cabeça numa lança e crucificaram seu corpo decapitado, passeando entre as tropas com os despojos sangrentos do seu bravo inimigo para que a vil soldadesca o ultrajasse da forma mais baixa e indigna. Os persas venceram, mas não mereceram.
         

 3 – Atenas foi o berço da civilização grega!


Atenas atingiu seu apogeu econômico e militar no século 5º AC e tornou-se o centro cultural da Grécia. Antes ele estava nas cidades gregas das ilhas jônicas e do litoral da Ásia Menor.

O berço da civilização grega não foi a Ática, região que tinha Atenas por capital, mas a Jônia, região que abrangia as ilhas do mar Egeu e importantes cidades da Ásia Menor, como Mileto, Pérgamo e Éfeso. A antiga Grécia estava dividida em vários grupos populacionais ligados pela mesma cultura, religião, costumes e idioma, sendo os principais os Jônicos, os Áticos, os Beócios, os Macedônicos e os Dóricos, definidos em função das suas respectivas regiões. Homero, o 1º grande poeta, Sapho, a 1ª grande poetisa, Thales, o 1º grande filósofo, Hipócrates, o 1º grande cientista, e Pitágoras, o 1º grande matemático, eram jônicos. Só mais tarde, quando a Ática se tornou o centro econômico da Grécia no século 5º AC, é que Atenas se tornou o seu centro cultural.

          4 – A rainha Cleópatra descendia dos antigos Faraós egípcios!


Busto que julga-se retratar a rainha Cleópatra, mas não há certeza


Cleópatra não tinha qualquer relação com os antigos Faraós egípcios. Embora nascida no Egito, ela pertencia à família grega dos Lágidas e descendia do general Ptolomeu, nomeado por Alexandre Magno governante do Egito. Sua capital era Alexandria, cidade grega plantada no delta do Nilo por Alexandre e povoada por milhares de famílias trazidas da Grécia. O idioma oficial da cidade, assim como da corte, era o grego, embora as classes baixas falassem também a língua comum do país. Muito culta, Cleópatra aprendeu o idioma egípcio e escrevia e lia os hieróglifos. A fim de unificar o povo sob o seu cetro, ela se fazia passar pela deusa Ísis, o que fez os seus inimigos romanos a chamarem com desprezo de “A Egípcia”, mesmo ela sendo grega. A história diz que além de refinada e sedutora, ela era também muito bonita, mas não temos nenhum busto, retrato ou estátua sua de autenticidade comprovada. Após a avassaladora vitória sobre ela e Marco Antonio, o imperador Augusto, devido à desfeita que ela tinha feito à sua irmã Otávia, esposa legítima de Marco Antônio, negando-se a encontrá-la em Atenas e obrigando-a a voltar a Roma sem ver o marido, mandou destruir todas as suas imagens para extirpá-la da lembrança  dos pósteros e varrê-la da história. Como visto, falhou redondamente, pois destruiu a sua imagem mas eternizou a sua memória. 

         5 – A república democrática era o regime político da Grécia!


Atenas atingiu o apogeu no século 5º AC durante o governo de Péricles

O regime político predominante na Grécia era a república aristocrática, geralmente disfarçada de monarquia, como no caso de Esparta, ou de tirania, como no caso da maioria das cidades gregas. Monarquias autênticas só existiram na Macedônia, e verdadeiras democracias apenas em meia dúzia de cidades, dentre elas destacando-se Atenas, onde o regime democrático foi criado. Mesmo assim a democracia teve altos e baixos em Atenas durante dois séculos, até se tornar meramente formal com o domínio de Alexandre no século IV AC e desaparecer de todo com a conquista romana no século II AC. A partir daí Atenas e as demais cidades gregas tornaram-se simples municipia romanas. A democracia só reapareceu 2.000 anos depois com a Guerra Americana de Independência no século XVIII da nossa era. Ainda hoje a democracia tem grandes dificuldades para se firmar no mundo, pois a maioria dos países continua a adotar a aristocracia ou a tirania como regime político.

          6 – A república romana era uma democracia que foi destruída por César e substituída pela ditadura imperial!


No último século da República (século 1º AC) explodiram furiosas guerras civis e as lutas políticas assumiram
a feição de autênticos conflitos sanguinolentos entre quadrilhas mafiosas


A república romana era uma ditadura aristocrática constituída pela rígida divisão de classes entre Patrícios e Plebeus. Mesmo quando os plebeus se revoltaram no século V AC e obtiveram as concessões estabelecidas na Lei das XII Tábuas, eles continuaram fora do governo. O Tribuno do Povo, mais alto magistrado plebeu criado pela Lei, gozava de absoluta imunidade e a sua pessoa era sagrada; quem o tocasse era condenado à morte e ele tinha poder de veto sobre qualquer lei votada pelo Senado; ao levantar sua mão direita qualquer patrício era obrigado, sob pena de morte, a parar o ato que estava praticando contra um plebeu, mas o tribuno do povo não participava do governo e nem sequer podia entrar no Senado; o máximo que se lhe permitia era ficar no vestíbulo esperando o fim das sessões, quando só então podia apresentar suas reclamações ou reivindicações aos senadores na porta do Senado. Com o tempo essa rigidez desapareceu, mas a separação de classes continuou e os conflitos sociais explodiram com inaudita violência no início do século 1º AC entre a própria elite dirigente, dividida entre os optimates, conservadores radicais que se opunham a qualquer reforma, e os populare, liberais que as defendiam como única forma de resolver os graves problemas econômicos e sociais que ameaçavam a estabilidade política da República. Correram rios de sangue, até que finalmente Júlio César, um liberal e reformista moderado, assumiu o poder supremo como ditador nomeado pelo Senado e implantou a paz. Para dar início ao seu programa de reformas, ele nomeou para o cargo de senador centenas de plebeus ricos e de altos oficiais do seu exército, tornando-os patrícios, e enfeixou em suas mãos os poderes dos mais importantes magistrados a fim de acabar com as disputas pelo poder e as constantes guerras civis que delas resultavam. Isto enfureceu os aristocratas, muitos deles seus amigos, que terminaram por assassiná-lo esperando readquirir o antigo domínio político. Porém o brutal e traiçoeiro assassinato foi em vão, pois o povo preferia um tirano único que assegurasse a paz ao invés de dúzias de tiranos que produziam anarquia, miséria e guerra civil. Muitos aristocratas sensatos viram que a "fórmula cesárea" era a melhor solução para assegurar a prosperidade e a fortaleza de Roma, e o regime imperial foi implantado com enorme apoio popular, embora sob o disfarce de “república”. O incrível sucesso do Império Romano durante séculos mostrou que César estava certo ao acabar com a insana “liberdade” dos aristocratas.

Virgilio Campos4 comentários

domingo, 20 de fevereiro de 2011

CONSTANTINO  -  A  POLÊMICA  ORIGEM  FAMILIAR
 DO  GRANDE  IMPERADOR

 Estatua do imperador romano Constantino o Grande

          Poucos grandes imperadores romanos tiveram uma ascensão tão tumultuada e uma origem familiar tão controversa quanto Constantino. Uns dizem que ele era bastardo, outros que era ilegítimo, sendo legitimado depois, e um 3º grupo diz que era legítimo! A única coisa certa que sabemos é que sua mãe Helena era filha de um modesto estalajadeiro e ajudava o pai como garçonete. A estalagem ficava em alguma parte da Europa oriental (Romênia, Bulgária ou Sérvia). Era muito freqüentada por militares em trânsito e a bela garçonete deve ter sido alvo de gracejos e “avanços” de galantes oficiais, todos eles repelidos com digna respeitabilidade porque ela e sua modesta família eram cristãos devotos.
          Um dia passa por lá o nobre oficial Constâncio Cloro e os dois se apaixonam, da sua relação nascendo Constantino. É aí que começa a polêmica: os detratores radicais dizem que Cloro era casado, coisa que fazia Constantino filho adulterino e impedia sua posterior legitimação; os adversários moderados dizem que Cloro era solteiro, mas sendo um brilhante oficial não arriscaria seu futuro casando-se com alguém inferior como Helena; já os seus partidários dizem que Cloro casou com Helena porque a família era cristã, sendo nela inconcebível qualquer relação ilegítima de um dos seus membros. Deve ser lembrado que na época não havia registro civil nem registro eclesiástico e casamentos, nascimentos, óbitos e batizados eram coisas que se provavam apenas pela publicidade e depoimentos orais. Por isso não poderia haver nenhuma prova escrita do casamento de Cloro com Helena ou de qualquer outro casamento na época. Tudo se baseava na publicidade da cerimônia e na honestidade das testemunhas. Fosse como fosse, pai e filho se tornaram muito ligados e enquanto Cloro chegava ao pico da carreira, Constantino se distinguia como um dos mais talentosos oficiais do exército.
          Foi quando o velho imperador Diocleciano, vendo que o Império era grande demais para ser governado por um só, o dividiu com 3 dos seus melhores generais e criou a Tetrarquia. O oriente seria governado por ele com o título de Augusto e por seu genro Galério com o título de César; o ocidente seria governado por Maximiano com o título de Augusto e por Constâncio Cloro com o título de César e que deveria também se tornar genro de Maximiano. Fosse Cloro solteiro, casado com Helena ou com outra, fato é que ele deixou Helena definitivamente, pois já estavam separados há tempos, e casou com a filha do Augusto Maximiano para se tornar César. A subordinação do César ao Augusto não tinha efeito prático, pois ambos governavam seus territórios como bem entendiam. Assim, o César Constâncio Cloro tornou-se o soberano absoluto da Gália, da Espanha e da Britannia, e quando Diocleciano e Maximiano aposentaram-se, nomearam os Augustos que os sucederiam: Galério no oriente e Severo no ocidente! Porém o César Cloro ignorou solenemente o Augusto Severo e proclamou-se Augusto do ocidente em seu lugar, desencadeando a fúria de Galério, que resolvera ser o Imperador dos Imperadores e não ia admitir que Cloro o impedisse.
          Mas foi o que aconteceu. Ao contrário de Galério, que era autoritário, brutal e cruel, Cloro era o contrário e por isso era queridíssimo pelo povo, pelo Exército e pelos cristãos, que a essa altura já constituíam uma poderosa influência na sociedade. Apesar de pagão, Cloro mantivera a área sob sua jurisdição livre das terríveis perseguições ordenadas por Diocleciano, Galério e Maximiano (creio que em homenagem à sua antiga amante ou esposa Helena) e isto lhe valeu a gratidão dos cristãos não só em seu território, mas também em todos os territórios do Império, coisa que futuramente seria de fundamental importância para Constantino.
          Descrever a confusão que se seguiu ao rompimento entre os vários imperadores da época cansará o leitor, mas resumiremos dizendo que o jovem general Constantino, que servia sob as ordens de Galério no oriente, fugiu para o ocidente e uniu-se ao pai na Gália, tornando-se seu lugar-tenente. Quando os caledônios que habitavam o que hoje é a Escócia invadiram a província romana da Britannia, Cloro e Constantino atravessaram o canal da Mancha e os expulsaram após derrotá-los numa grande batalha no norte da atual Inglaterra. Sentindo-se doente, Cloro recolheu-se ao QG da legião sediada em York e lá faleceu. Então os pesarosos soldados aclamaram como novo César do ocidente o valoroso filho de Cloro, general Constantino, no que foram seguidos pelas legiões da Gália e da Espanha. Os Augustos Severo e Galério não foram consultados e ficaram furiosos com a indisciplina das tropas e a audácia de Constantino, jurando depor o usurpador. Como arma psicológica, eles levantaram a questão da ilegitimidade do novo e poderoso inimigo.
          A confusão então ocorrida entre Constantino e os 3 outros imperadores foi ainda maior do que a ocorrida com o seu pai, bastando dizer que houve um momento em que havia 6 imperadores disputando o trono, dos quais o único que tinha a dedicada simpatia dos cristãos era Constantino.
          A sua longa caminhada para a conquista do poder absoluto e a legalização do Cristianismo estava apenas começando!

NOTA: este post, e os 3 que virão, foi motivado por alguns leitores manifestarem ao autor insatisfação pelo post anterior resumir tanto a epopéia de Constantino, a ponto de tornar banal uma jornada épica com profunda influência na história da humanidade. Vi que tinham razão e decidi ampliar o assunto, mas devo dizer que o grande problema de um blog sobre história é o dilema entre se escrever um artigo, tão resumido que vire um verbete de enciclopédia, e um outro, tão extenso que vire um ensaio. Atingir o equilíbrio é difícil e por isso peço que me perdoem omissões, e até equívocos, motivados pela necessidade de resumir.  

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