Post nº 54
A CAVALARIA MEDIEVAL E O NASCIMENTO
DO ROMANCE COMO GÊNERO LITERÁRIO
O amor entre damas e bravos Cavaleiros , tema da categoria
literária do século XII "Romance de Cavalaria e de Amor
Cortês", introduz o gênero "romance" na Literatura
Cortês", introduz o gênero "romance" na Literatura
Após as grandes invasões bárbaras e o fim do Império Romano do Ocidente no século V, houve na Europa um longo período de acomodação que durou cerca de 300 anos, chamado “Alta Idade Média”. Ela caracterizou-se pelo desaparecimento do Estado como ente jurídico dono do poder criador da lei, e da Nação como ente social dono da soberania criadora do Estado, predominando a tradição no lugar do 1º e o tribalismo no lugar do 2º. A destruição das instituições imperiais produziu enorme vácuo de poder e intensa fragmentação territorial prejudiciais à troca de mercadorias e idéias, o que resultou em imenso retrocesso social, econômico e cultural. No final do século VII, comércio, artes, escolas e livros tinham praticamente desaparecido, e se não fosse pelas livrarias dos mosteiros cristãos, pois apenas os sacerdotes sabiam ler e escrever, todo o enorme legado cultural da antiguidade teria desaparecido no Ocidente.
Uma grande letargia parecia ter se apoderado da Europa quando no século VIII foi ela acordada pela avassaladora Onda Islâmica que no século anterior varrera o Oriente Próximo e a África do Norte. A “Invasão Árabe” da Península Ibérica ocorreu quase sem luta, não só porque os senhores cristãos ortodoxos locais não tinham poder nem coesão para se opor, como porque os “árabes invasores” eram descendentes dos vândalos cristãos arianos que 3 séculos antes tinham emigrado da Espanha para o norte da África, onde construíram um poderoso império e depois se converteram ao Islamismo devido à hostilidade e perseguição dos cristãos ortodoxos. Era, portanto, mais uma “volta” que uma “invasão” e eles foram bem recebidos pelos primos que tinham ficado e depois sido obrigados a se converterem ao cristianismo ortodoxo. Não é por acaso que o ponto escolhido para a “invasão” tenha sido a Vandaluzia (Terra dos Vândalos), hoje chamada de Andaluzia!
Fato é que mais da metade da Espanha caiu rapidamente em poder dos muçulmanos e eles se dirigiram à França, coração da Europa, onde foram derrotados na Batalha de Poitiers pela coalizão formada por Carlos Martel, rei dos francos. Com a derrota, voltaram à Espanha, mas o fragor da batalha acordou a Europa e a multidão de barões cristãos, assustada com possíveis novas invasões, aceitou Carlos Martel como chefe capaz de repeli-las. A sua liderança logo se tornou suserania e os liderados tornaram-se seus vassalos, o que permitiu a unificação da antiga Gália em poderoso reino com nome de “França”. Ela adquiriu características de verdadeiro Estado quando algumas décadas depois o seu rei Carlos Magno foi coroado “Imperador Romano” e vários príncipes vassalos ou aliados deram aos seus domínios toscas instituições auridas do Direito Canônico de origem romana. Com a volta da Lei escrita e da autoridade forte, o sistema feudal se solidificou, o comércio renasceu e o estudo readquiriu importância pela pena dos burocratas e dos legistas, possibilitando no século XI a fundação da Universidade de Bolonha, mãe das que surgiriam depois. Mas é só no final desse século que ocorre o fenômeno que vai acarretar a chamada “Primeira Renascença” e a criação do gênero literário “Romance”: As Cruzadas!
Embora a Cavalaria Medieval tenha surgido no reinado de Carlos Magno, ela só viria a ter crucial importância militar e social com o surgimento das Ordens Religiosas Guerreiras, criadas para combater os muçulmanos durante as Cruzadas. Sobretudo porque os seus membros ao invés de terem título de Frei tinham título de Cavaleiro. Como só os nobres dispunham de tempo e dinheiro para gastar com cavalos e auxiliares para cuidá-los, ser Cavaleiro Templário, Hospitalário ou Teutônico era privilégio da nobreza. Plebeu somente entrava nas Ordens Militares como auxiliar, geralmente como faxineiro e cozinheiro. Entrar como escriturário ou almoxarife só se tivesse instrução, e como escudeiro, posto reservado ao plebeu com experiência militar e no trato de cavalos, só se fosse bom combatente de infantaria. Se no correr do tempo ele mostrasse valentia, lealdade e bastante fé religiosa, podia ser sagrado Cavaleiro pelo seu mestre depois de ouvidos os demais cavaleiros. Logo o crescimento do poder, riqueza e prestígio das Ordens Militares estendeu-se não só aos seus cavaleiros, mas a todo e qualquer cavaleiro leigo, agrupados pelos seus monarcas em nobres ordens de cavalaria laica destinadas a servi-los em suas campanhas. Dessa forma, a Nobre Ordem da Cavalaria tornou-se ao mesmo tempo instituição militar e social, cujos belos uniformes e feitos heróicos dominaram o imaginário popular, gerando infinidade de lendas, poemas e contos que corriam de boca em boca, criando em torno dela toda uma aura de admiração e respeito.
Após 600 anos de trevas e ignorância, a cultura começou a renascer no século XI, e no início do século XII os mais famosos poemas populares já tinham adquirido forma escrita. A enxurrada de mercadorias e conhecimentos, trazidos do Oriente pelos cruzados e mercadores que os acompanhavam, promoveu intenso movimento cultural a que se deu o nome de “1ª Renascença”. Penso que ela se caracterizou pelas seguintes grandes realizações que marcaram nossa Civilização: as Catedrais Góticas, as Universidades, o Renascimento da Filosofia com Tomás de Aquino, o Renascimento da Pesquisa Científica com Rogério Bacon, o Renascimento do Direito com a “Escola dos Glosadores”, o Renascimento da Poesia com Dante e Petrarca, e, finalmente, a fundação do Romance Moderno por Chrétien de Troys, criador do gênero literário Romance de Cavalaria e de Amor Cortês.
Digo romance moderno porque alguns acham que houve um romance antigo, representado por curtas estórias em versos de amores campestres a que chamavam Idílio. Este gênero literário foi criado pelo poeta grego Teócrito e muitos poetas o cultivaram não só na antiguidade como nas Idades Média e Moderna, mas caiu em desuso. O mais recente poema idílico é a obra “Os Idílios do Rei”, de autoria do grande poeta inglês do século XIX Alfred Tennyson. Curiosamente, o Idílio de Tennyson é uma homenagem ao Romance de Cavalaria e de Amor Cortês da Idade Média, pois versa sobre as aventuras galantes do Rei Arthur e dos seus Cavaleiros da Távola Redonda. Porém, o Idílio é do gênero poesia que não pode ser confundido com o romance ou novela, pois o que caracteriza este é ser uma estória longa em prosa sobre assunto não necessariamente romântico, razão por que os ingleses preferiram usar a palavra novel para designar o novo gênero literário em lugar da palavra romance.
Até pouco tempo a grande maioria achava que não houvera verdadeiro romance na Antiguidade, apesar da estória curta em prosa ter sido bastante cultivada e constituído o gênero literário conto. Todavia, há menos de 200 anos foi descoberto em um palimpseto texto surpreendente da autoria de um romano chamado Petrônio, a respeito de quem nada se sabe. Exaustivas análises do texto não só certificaram a sua excelente qualidade como também a suposição de ter sido o autor um rico aristocrata do século I, amigo e cortesão do imperador Nero. O livro chama-se Satyricon e contém todos os elementos do romance moderno, mas é também uma extraordinária crônica ficcional da qual se pode dizer ser o único valioso testemunho da ociosa vida dissipada, luxuosa e ostentosa das classes ricas no apogeu do Império Romano. Do mesmo modo, a obra dá notável retrato da miséria e corrupção reinantes em suas classes pobres, e é o terrível contraste entre os dois fatos que século e meio mais tarde produzirá à revolução ética do Cristianismo. O Satyricon, portanto, mostra a existência do gênero literário romance na Antiguidade e, embora não haja evidência de ter sido na época o romance cultivado por escritores notáveis ou medíocres, a notável exceção prova que houve pelo menos um!
Mas se a existência do romance antigo está sujeita a debates, tal não acontece com o romance moderno, pois não há dúvida de que o seu criador é Chrétien de Troys, que o construiu focado nas aventuras e desventuras dos bravos Cavaleiros Medievais e das suas nobres damas, nele misturando todos os ingredientes de uma boa trama ficcional em prosa: bravura, paixão, lealdade, intriga e traição, tudo envolto num halo de mistério e fantasia onde o Cavaleiro assume o status de moderno herói cinematográfico. Como matéria-prima, Chrétien usa as Lendas Arturianas narradas em incontáveis poemas populares compostos anonimamente ao longo de 500 anos, alguns dos quais adquiriram forma escrita. Vários deles chegaram ao século XII e o erudito bispo Geoffrey of Monmouth transformou Arthur em personagem histórico real ao publicar em 1135 a História dos Reis da Inglaterra. O livro teve grande sucesso e várias outros surgiram relatando "a vida e proezas de Arthur e dos seus cavaleiros". Em 1170 a princesa Marie de France publicou uma coletânea de curtos poemas românticos chamados Laís, onde aborda a vida dos heróis pelo lado galante ao invés do histórico-guerreiro. A obra tocou o coração de pessoas cansadas de guerras e violências, sobretudo as nobres mulheres cultas, e o livro obteve também enorme sucesso, dando a Chrétien a ideia de fazer o mesmo em longas narrativas em prosa, não com fim historiográfico, mas o de divertir a sofisticada sociedade de sua época, enriquecida pelas Cruzadas e com o gosto literário apurado pelos poemas amorosos dos Trovadores. Seu 1º livro, Erec et Enid, teve sucesso ainda maior e durante 20 anos ele explorou o filão com vários outros que lhe deram fortuna e celebridade, morrendo rico e famoso em fins do século XII no castelo de riquíssima condessa sua amante e fiel propagandista junto ao seu largo círculo de amigas, todas senhoras ricas ansiosas por românticas estórias de amor e aventuras, onde a emoção e a paixão de nobres damas e bravos cavaleiros se misturavam em perfeitas proporções com o fantástico e o maravilhoso.
Isto explica o fascínio que o romance, em suas mais diferentes formas e categorias, ainda hoje exerce sobre as pessoas, a ponto de constituir o mais popular e requisitado de todos os gêneros literários.
Isto explica o fascínio que o romance, em suas mais diferentes formas e categorias, ainda hoje exerce sobre as pessoas, a ponto de constituir o mais popular e requisitado de todos os gêneros literários.



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