quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Post nº 82

AS  GRANDES  POETISAS  GREGAS  DA  ANTIGUIDADE

Safo ouve embevecida o poeta Alceu dando recital na Academia Poética só para mulheres que ela
fundou em Lesbos. Homens só entravam quando especialmente convidados


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Uma das características mais extraordinárias do “Milagre Grego” foi o relevante papel dado às mulheres nas atividades culturais da sociedade. Isto é tanto mais surpreendente quando sabemos que as sociedades orientais nunca lhes permitiram participar de sua vida cultural e ainda hoje algumas delas sequer lhes permitem acesso à educação. Desse absurdo não escapou a nossa moderna sociedade até tempos bastante recentes e embora sempre lhes tenhamos permitido acesso à educação primária e média, os portões das universidades para elas ficaram fechados até o século XIX, quando só então algumas escolas superiores na Suíça e nos Estados Unidos timidamente começaram a admiti-las. Mas foi só no século XX que a admissão se tornou geral e as mulheres voltaram a ter na sociedade a mesma atuação intelectual que tiveram há 2.500 anos na Grécia antiga.

Esta se dava em todos os campos do intelecto, mas foi na literatura que ela atingiu o seu ponto mais alto, dando-nos poetisas que até hoje nos maravilham com a alta qualidade dos seus poemas. Infelizmente nenhum deles nos chegou completo e tudo que temos são fragmentos, mas, reforçados por citações de autores da época, eles nos dão boa ideia do alto valor literário da obra das poetisas gregas. Não temos versos de todas elas e nem mesmo sabemos quantas foram, mas entre os poemas da época feitos por homens para homenageá-las está o elegante epigrama de Antípater da Tessália:

“A estas donzelas de falar divino nutriam de cantos Helicon e Pieria, rocha macedônia: Praxila, Miro e Anita iguais a Homero; Safo, honra da Lésbia, de cabelos longos; Erina e a nobre Telesila, e tu, Corina, que ousaste cantar a égide de Palas; e Nossis, de voz feminina, e Mírtis de suave voz, todas criadoras de carmes imortais. As nove musas são filhas de vasto céu; filhas da terra são estas nove, para eterno júbilo dos homens.”

O autor enumera só nove poetisas, chamando-as de musas terrenas, para igualar seu número ao das nove musas celestes, mas sabemos que houve outras, entre as quais Damófila, Megalóstrata, Clitágoras e Femaon. Desta última sabemos apenas que viveu na época de Safo, foi sacerdotisa de Apolo e inventou o verso hexâmetro, adotado pelos poetas gregos Eumolpo, Orfeu e Lino e usado até hoje por poetas de vários matizes, sobretudo os populares, por ser talhado para a poesia oral através da qual era feita a profecia. Os oráculos, portanto, eram apresentados aos consulentes em versos e a sacerdotisa Femaon ficou famosa ao fazê-lo no verso hexâmetro por ela inventado que encantava a vasta audiência presente às cerimônias divinatórias. Das outras poetisas não sabemos quase nada e do pouco que sabemos é impossível distinguir o verdadeiro do lendário.

Para o esquecimento da obra das poetisas gregas foi decisivo o advento do Cristianismo porque todos os textos religiosos e filosóficos importantes eram escritos no dialeto ático de Atenas. Esta não fornecia poetisas e todas elas eram de outras regiões da Grécia onde predominavam os dialetos eólico e dórico nos quais escreviam. Ambos são difíceis e aos poucos tornaram-se pouco lidos, fazendo com que os copistas fossem deixando de reproduzi-los a partir do século IV DC. A falta de reprodução fez com que as obras em eólico e dórico desparecessem lentamente das bibliotecas por desastres ocasionais e ação do tempo. Para completar, no século XI DC a Igreja promoveu uma "caça às bruxas" e as obras de Safo foram banidas das bibliotecas e queimadas em público por serem "imorais". O resultado de tantas adversidades foi que poucas das suas obras, assim como das demais poetisas gregas, chegaram até nós. Porém o atual aprofundamento das pesquisas tem descoberto muitas raridades e recentemente surgiram seis poemas de Safo quase completos. Graças a isso hoje podemos dizer que ela era de fato genial, assim como também devem ter sido as suas colegas famosas cujas obras ainda permanecem desaparecidas. Passemos uma rápida vista d'olhos sobre algumas grandes poetisas gregas a começar por Safo, a mais famosa de todas. 

Safo


Safo e uma amiga no jardim da sua Academia Poética em Lesbos. O fato da academia ser exclusiva
para mulheres criou no puritano século XIX a crença em sua bissexualidade

Safo viveu no final do século VII AC (em torno do ano 600) e dela temos o maior número de fragmentos apesar de ser a mais antiga. São cerca de 200 e sabemos que era uma rica aristocrata da cidade de Mitilene na ilha de Lesbos, foi casada com o nobre Cercila e teve uma filha chamada Cleide. Alguns a descrevem como de boa estatura, belas feições e cabelos violeta e outros como baixinha, feições comuns e cabelos negros. As esculturas e pinturas de vasos do século V que chegaram até nós, feitas não muito depois da sua morte e que devem ter se baseado em imagens suas ainda existentes na época, adotam a primeira descrição, donde concluirmos que deve ser a mais fiel, pois uma mulher não poderia despertar as paixões que despertou se não possuísse beleza física e uma voz bonita e sedutora, condições básicas para a celebridade numa sociedade fortemente auditiva e visual como a grega, onde predominavam altíssimos padrões estéticos. Sabe-se que ela criou uma Academia em seu palácio para reunir as poetisas de Lesbos e de regiões próximas, onde homens só entravam raramente, como era o caso do seu amigo o poeta Alceu, de quem se diz ter sido amante e que era às vezes convidado para fazer palestras, recitar poemas e porfiar ao som da lira com Safo e outras poetisas da seleta audiência. Isto criou a infundada crença na Europa do século XIX de que ela fora uma educadora que possuía ou dirigia um colégio para moças, atividade feminina altamente aceitável e muito bem adequada aos puritanos padrões da Inglaterra vitoriana.

Safo antes de se suicidar abraçando a sua lira no alto de um rochedo
sobre o mar em sua ilha natal de Lesbos

Parece que foi o fato da sua Academia admitir somente mulheres e nela ser rara a presença de homens, o que deu origem à generalizada crença em sua bissexualidade. O inusitado para os padrões gregos de uma academia literária exclusivamente feminina, acrescida de dubiedades em seus versos achadas pelos lexicógrafos e exegetas do século XIX, despertou suspeita e originou a crença em sua perversão sexual. Na puritana Europa Vitoriana a suspeita logo se tornou verdade e adotou-se Lesbos, terra natal de Safo, como base semântica para a criação dos termos lésbica e lesbianismo, com os quais se passou a designar a homossexualidade feminina. Dizemos suspeita porque nenhum autor antigo conhecido refere-se ao assunto, porém isso talvez se deva ao fato do homossexualismo entre os gregos ser comum e não haver maiores razões para mencioná-lo no caso de Safo ou de qualquer outra pessoa, célebre ou não. De qualquer modo, diz a lenda que a grande poetisa amou apaixonadamente vários homens, tendo o último, o barqueiro Faon, causado-lhe a morte ao abandoná-la quando já era mulher madura. Deprimida com o desprezo do amante, ela teria se suicidado jogando-se ao mar do alto de um rochedo em sua ilha natal.

Safo, reprodução romana de escultura grega do século 5º AC. Esta é talvez
a imagem mais fiel e autêntica que temos da grande poetisa

Há também a versão de que ela morreu idosa de morte natural e para isso alguns baseiam-se em fragmento de poema onde a poetisa lamenta a velhice que traz rugas, branqueia os cabelos e torna difícil amar, porém há fundadas indicações de que se trata apenas de uma antecipação do que lhe acontecerá no futuro ao ver o surgimento dos primeiros cabelos brancos, coisa que em muitos ocorre na casa dos trinta anos, e não de um lamento pelo estado em que já se encontra. Entre as duas versões, preferimos a primeira, pois está muito mais de acordo com o caráter apaixonado de Safo, capaz de todas as loucuras por amor.   

Safo sentada e de máscara lê seus poemas. O uso da máscara mostra tratar-se de cena de uma
representação teatral - Vaso grego do século 5º AC 

Seja pelo seu fim trágico, bem ao gosto dos gregos da época, seja por sua beleza física ou pelo notável valor da sua obra, Safo virou tema de peças teatrais dramáticas e cômicas de vários autores, dentre eles destacando-se os poetas cômicos Difilo de Sínope, Antífenes de Rodes e Tímocles de Atenas. Em seguida vieram os epicuristas promovendo-a a membro do seu grupo através de narrativas sobre o prazer onde ela é o personagem central 300 anos após a sua morte. Os epicuristas, portanto, foram os principais responsáveis pela ligação do nome de Safo a temas escandalosos, como é o caso da sua exacerbada bissexualidade.

Mas eles talvez não tenham exagerado e sido fiéis à verdade, pois nos séculos III e II AC, época do fastígio da Escola Epicurista, a grande fama de Safo continuava viva e a sua popularíssima obra certamente ainda estava completa, nada mais fazendo os epicuristas do que constatar o seu alto grau de paixão e erotismo, bem de acordo com uma filosofia que punha o prazer material e espiritual acima de tudo. Caso tenha sido assim, divulgar a obra de Safo por todos os meios ao seu alcance teria sido apenas a atitude correta a adotar do seu ponto de vista literário e filosófico.      

Corina

Detalhe de estátua de Corina destacando seu belo rosto

Depois de Safo, a poetisa grega mais conhecida pelo valor literário dos seus versos é Corina, filha do aristocrático casal Apolodoro e Procrácia. Ela nasceu e viveu no final do século VI AC (últimas décadas dos anos 500) em Tanagra, que lhe ergueu bela estátua para homenageá-la pelos “invejados ramos sobre as negras tranças”, referindo-se às coroas de louros por ela ganhas em cinco Olimpíadas poéticas nas quais derrotou o grande poeta Píndaro, seu rival e colega na Academia da poetisa Mírtis, de quem só sabemos que nasceu em Antédon na Beócia.

Píndaro foi um dos maiores poetas da antiguidade e por isso alguns dizem que ele só foi
derrotado por Corina porque a grande beleza dela influenciava os juízes

Píndaro era brigão e mau perdedor, tendo insultado Corina chamando-a de “porca” após uma de suas derrotas, mas esta não lhe deu resposta e até censurou Mirtes por fazê-lo nesta ou em outra ocasião, como diz em um dos seus fragmentos: “Eu censuro a harmoniosa Mirtes, e censuro por, mulher que era, ter entrado em disputa com Píndaro”. Para a gentil Corina não era apropriado a uma dama brigar com homens nem baixar o nível de competições poéticas ao nível de disputas pessoais. Todavia, dado a alta qualidade da poesia de Píndaro, é possível que os poetas Eliano e Pausânias estejam certos ao afirmar que, pelo menos nessa ocasião específica, os juízes deram a vitória a Corina porque foram influenciados pela sua grande beleza, acrescentando Pausânias que para a sua vitória também foi importante Corina compor no dialeto eólio, o mesmo dos juízes, enquanto Píndaro o fazia no dialeto dórico.

Estátua de Corina. Ela foi a mais vitoriosa das poetisas gregas, pois derrotou
em cinco Olimpíadas Poéticas seguidas o grande poeta Píndaro

Particularidade única de Corina foi não ter se limitado à poesia lírica como as demais poetisas gregas e feito também poesia épica, gênero próprio dos homens, onde celebra deuses e heróis conforme nos informa a lista das suas obras elaborada pelo gramático Fabrício no volume II da Biblioteca Graeca. Infelizmente, nem mesmo um fragmento dos seus poemas épicos chegou até nós, sendo-nos impossível aquilatar o seu valor.

Anita

Anita era de Tegéia, onde nasceu no final do século IV AC, mas passou parte da sua vida adulta em Epidauro como Chresmopoios do templo de Esculápio, espécie de secretária encarregada de por em versos as respostas do deus aos consulentes. Pelo visto, a sacerdotisa do oráculo não tinha o mesmo talento de Femaon, que como sacerdotisa de Apolo já dava as respostas em versos hexâmetros diretamente do seu altar. Anita não podia fazer o mesmo, pois trabalhava nos bastidores e não aparecia para o público, por isso teve que buscar reconhecimento para sua obra poética através dos livros que publicou e dos concursos de que participou.

Estátua de Esculápio deus da medicina em seu templo de Epidauro
onde Anita era encarregada de por em versos suas respostas

Fica a pergunta, “por que não foi Anita promovida a oráculo?”, pois segundo Pausânias ela possuía faculdades especiais e íntimas comunicações com o deus. Talvez tenha tido graves desentendimentos com seus superiores e em represália estes lhe negaram o cargo a que seu talento a credenciava. Porém ela mantinha contacto pessoal com os consulentes quando lhes entregava e explicava em privado as respostas versificadas. Graças às suas "faculdades especiais" é possível que ao dar aos consulentes as respostas do deus em versos o contato pessoal com eles tenha lhe possibilitado exercer essas "faculdades" e identificar as doenças, prescrevendo o apropriado tratamento e obtendo curas "milagrosas". Os doentes devem ter notado que sua cura se devia tanto à minuciosa e dedicada atenção recebida do "chresmopoios"  quanto aos poderes do deus, ficando muito gratos a Anita. Em consequência, ela fez amizades que lhe renderam régios presentes, permitindo-lhe obter independência econômica e demitir-se do templo para dedicar-se somente às musas. Infelizmente sua obra sumiu na poeira do tempo, deixando-nos apenas alguns fragmentos pelos quais é possível dizer que ela pertencia à Escola Árcade, conforme estes dois belos epigramas:

      “Forasteiro, senta-te nesta pedra para dar descanso aos teus doridos membros. Em cima de ti através das folhas sopra um suave vento. Bebe a água desta fonte límpida que jorra do rochedo, pois aqui no calor do dia é doce o repouso do viajante.”
      “Rústico Pã, é para mim, sentado na densa floresta por onde vagueiam as ovelhas, que tocas docemente a flauta a fim de que, ao pé destes declives úmidos de orvalho, as minhas jovens reses se apascentem da relva deliciosa?”

Erina

Nada sabemos da vida pessoal ou pública de Erina e nem sequer onde nasceu e viveu, embora a mistura dos dialetos eólio e dórico por ela usado indique que era oriunda das mesmas regiões poéticas da antiga Grécia de onde vieram as demais grandes poetisas. Dela recebemos bom número de versos, inclusive uma epopeia feminina quase completa em mais de trezentas linhas intitulada A Roca. O poema é alegórico e tem como tema homenagear a memória do seu íntimo amigo de infância Baucis falecido antes dela. No belo poema aborda a vida da família no recesso do lar doméstico e a vemos sentada, virgem ainda, tendo nas mãos a roca e o fuso, tecendo os fios da vida que sempre se emaranham para tornar infelizes os seres humanos, os quais, tal como ela na roca, tentam em vão recolocá-los em ordem. O drama para desfazer os nós dos fios emaranhados se passa sob os olhos vigilantes e a severa autoridade de sua mãe temida, o que nos faz concluir que ela era de família austera e muito rica, pois não exercendo atividade externa e não tendo vida pública, pois a isso não permitiu a brevidade de sua vida, logrou publicar vasta obra no curtíssimo período de sua existência. Isto diz muito da fortuna do autor porque publicar 20 ou 30 exemplares de um livro na antiguidade era caríssimo, limitando tal façanha apenas às pessoas ricas ou com protetores ricos. Quanto à brevidade da sua vida, o sabemos através de poema da época composto em sua homenagem, talvez por poeta contratado e pago pela família, onde se diz que ela morreu virgem aos 19 anos vítima de mal súbito que a fulminou quando colhia flores no jardim.

Erina viveu na época helenista (séculos 4º a 1º  AC), quando o centro cultural da Grécia mudou de Atenas
para Alexandria, onde a sua grande biblioteca atraía intelectuais de todo o mundo conhecido

Apesar de muito jovem, Erina foi uma das mais populares poetisas do seu tempo e pelo estilo dos seus versos pode-se afirmar que viveu na época de hegemonia cultural de Alexandria, ocorrido depois da morte de Alexandre Magno em 322 AC. Assim, Erina deve ter vivido nos séculos III ou II AC, não se podendo excluir a hipótese de ter sido no final deste último ou no início do seguinte, quando a expansão de Roma era avassaladora e estava prestes a devorar a Grécia. Para reforçar a tese de período mais recente existe uma Ode sua intitulada Eis Romen, podendo a última palavra significar “Força” ou “Roma”, dependendo do contexto, e no contexto do poema o significado mais plausível é “Roma”. Há, portanto, um período de aproximadamente 150 anos dentro do qual poderá ter transcorrido a sua breve e profícua existência.

Telesila

Telesila nasceu e viveu em Argos no século VI AC e pertencia à alta nobreza, mas só tornou-se poetisa quando procurou um oráculo para tratar-se de males que a atormentavam e este respondeu, "dedica-te às Musas". Ela seguiu o conselho e seus versos logo a fizeram famosa a ponto de tornar-se a poetisa mais popular e conhecida da Grécia depois de Safo. Porém forçoso é dizer que isto não ocorreu somente por causa da sua poesia, que embora excelente não era superior a de suas colegas, mas por causa de notável feito militar, tão extraordinário que apenas alguns séculos depois apareceram autores dizendo tratar-se apenas de uma lenda, já que Heródoto, nascido pouco tempo depois e considerado o fundador da ciência da História, não o menciona em suas obras.

O fato teria se passado assim: Argos, cidade natal de Telesila, estava em guerra com Esparta cujo exército avançou disposto a obter vitória rápida. Os argivos o enfrentaram e foram postos em fuga pela superioridade do inimigo, que vitorioso intimou a cidade indefesa a render-se. Face à fuga do seu exército e não tendo como resistir, os idosos senadores aceitaram os termos da rendição e mandaram abrir os portões para que os espartanos entrassem, mas do meio da multidão Telesila ergueu-se e subiu à tribuna para discursar eloqüentemente protestando contra a covardia dos homens fujões e incitando suas irmãs de sexo a assumirem o lugar deles para lutarem até o fim. Não se sabe o que fez a multidão apoiá-la naquela situação desesperada, mas cheias de entusiasmo as mulheres tomaram o arsenal, vestiram as armaduras masculinas e armaram-se até os dentes, indo depois para o alto das muralhas esperarem o inimigo. Os espartanos quando souberam do ocorrido riram incrédulos, mas decidiram atacar e resolver o assunto definitivamente, pois estavam certos de que elas fugiriam tão logo ouvissem o seu apavorante grito de guerra. Isto não aconteceu e alguns dizem que o primeiro ataque foi rechaçado com grandes perdas, obrigando-os a refletirem melhor, mas outros dizem que não chegaram a atacar por achar desonroso a um guerreiro lutar contra mulheres, e mais desonroso ainda matá-las em combate. Fato é que ao verem as comandadas de Telesila não desertarem dos seus postos e aguardarem calmamente o ataque, prontas para o combate, os espartanos contentaram-se com sua honrosa vitória no campo de batalha e desistiram de tomar a cidade. Em conseqüência, fizeram meia-volta e regressaram a Esparta.

Marte, o deus da guerra. Somente homens podiam participar
do seu culto, mas em Argos abriu-se uma exceção

A narrativa da extraordinária façanha percorreu a Grécia e Telesila subiu aos píncaros da glória. Cerca de 500 anos depois quando visitou Argos, o historiador Pausânias ainda viu em uma coluna fronteira ao Templo de Vênus a estátua erguida em sua honra, que ele assim descreve: “aos seus pés alguns livros, na mão um capacete que ela olha como se estivesse prestes a pô-lo na cabeça”.

Em memória da valente poetisa celebrava-se uma tradicional festa chamada ybristica, à qual as mulheres iam vestidas de homem e os homens vestidos de mulher. Fato inusitado, Argos era a única cidade grega onde em homenagem à bravura guerreira de Telesila as mulheres podiam participar do culto a Marte, deus da guerra. Sobre sua obra poética tudo que pode ser dito é que os antigos a consideravam no mesmo nível de Safo e Corina, mas nada podemos afirmar porque tudo que dela nos chegou foram apenas dois versos, insuficientes para qualquer juízo de valor. O tempo destrói não só as pessoas, mas as suas obras por mais belas e valiosas que sejam.

Sic Transit Gloria Mundi



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