segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

RICARDO  III  -  UM  DOS  MAIS  BRAVOS CAVALEIROS  MEDIEVAIS  E  O  MAIS
 INFAME  REI  INGLÊS  DA  HISTÓRIA


Ricardo III na batalha de Bosworth (1485) - Gravura de Edmund Leighton



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Ricardo Plantageneta, duque de Gloucester e mais tarde rei Ricardo III da Inglaterra, é uma das figuras mais controversas da História, pois é o que se pode chamar de herói e vilão ao mesmo tempo. Nascido em berço de ouro em 1452, terminou seus pouco mais de trinta e dois anos de vida estraçalhado no campo de batalha após ser traído por vários dos seus aliados, e foi enterrado anonimamente, nu como indigente, em buraco cavado às pressas na capela de um mosteiro na cidade de Leicester, depois demolido durante a Reforma Protestante. O local virou um descampado e depois um largo onde, em 2012, a prefeitura decidiu construir um estacionamento de automóveis. Durante as obras, esqueleto sem identificação foi achado em cova rasa que os especialistas certificaram estar situada no que era o coro da capela do antigo mosteiro. A ossada datava da segunda metade do século XV e as várias marcas nos ossos atestavam que a morte ocorrera em conseqüência de severos ferimentos feitos em combate por arma branca.

Ricardo III - Reconstituição facial feita por cientistas ingleses com base em seu crânio achado em Leicester

Após cuidadosos estudos, concluiu-se que aqueles eram os restos de Ricardo III, o mais infame rei da História da Inglaterra, e comprovou-se o que dizia a tradição: ele não tivera caixão, mortalha, túmulo ou epitáfio na deliberada tentativa dos seus inimigos de humilhá-lo mesmo depois de morto e riscá-lo da história! No processo de desconstrução da sua memória, o descreveram como anão manco e corcunda, e tornaram o seu nome sinônimo de “monstro”, para isso utilizando-se da genial pena de Shakespeare em uma de suas melhores peças teatrais. Dizem os entendidos que ela possui a mais arrebatadora abertura que se conhece em obras do gênero, pois começa com notável monólogo de Ricardo em versos que são familiares a todos que estudam e se dedicam ao teatro: Now is the winter of our discontent / Made glorious summer by this sun of York; / And all the clouds that lour’d upon our house / In the deep bosom of the ocean buried.
             
Filho do duque de York e irmão mais novo do rei Eduardo IV, o serviu com lealdade e valentia. Quando este foi deposto em 1470, teve participação decisiva na guerra que lhe devolveu o trono no ano seguinte. Depois, sufocou revoltas, eliminou adversários e esmagou os escoceses em feroz guerra, façanha que lhe valeu o apelido de Pounder of the Scots (“porrete dos escoceses”). Sua dedicação ao irmão rei era reconhecida por todos e ele adotou como lema Loyalty Binds Me (a lealdade me governa). Com certeza ninguém mais do que ele contribuiu para a segurança do trono, o que lhe deu títulos, riquezas, prestígio, popularidade e respeito. O rei, com sua corte em Londres, não tinha condições de cuidar de todo o reino e nomeou o seu leal irmão governador com poderes absolutos do turbulento norte da Inglaterra. Após anos de lutas, ele pôs ordem na região, revelando-se não só bravo e hábil general, mas também justo e competente administrador, muito admirado por sua honestidade e decência na vida pessoal. Depois do seu sucesso, foi nomeado Constable of England (Chefe de Polícia do Reino) e Judge-Chief of England (Juiz Geral do Reino). Uma das coisas que mais lhe fez ganhar a estima do povo foi criar tribunais para ouvir queixas dos pobres e julgar gratuitamente suas questões com imparcialidade, mesmo aquelas contra os poderosos.


  O mais antigo retrato de Ricardo que se conhece. Feito por pintor anônimo
                            possivelmente durante seu curto reinado (1483-85)

Ao tornar-se rei, estabeleceu em Londres um tribunal mais bem estruturado com igual finalidade, chamado Court of Requests. Este foi o primeiro do mundo destinado  a prestar assistência judiciária aos pobres e proteger os seus direitos. Também criou o direito dos acusados responderem processo em liberdade sob fiança e proibiu fossem confiscados seus bens antes da condenação por corte regular de justiça. Possuía boa biblioteca, coisa rara entre os príncipes da época, e sua admiração pela recentemente inventada imprensa o fez editar a primeira lei da História proibindo a censura prévia e preservando a liberdade de expressão. Indo mais longe, proibiu fossem cobrados impostos ou taxas sem autorização do Parlamento, princípio legal em vigor desde a Magna Carta promulgada quase 300 anos antes, mas cinicamente violado pelas chamadas benevolências. Estas nada mais eram que extorsões do rei e de altas autoridades, feitas através da exigência da benevolência deste ou daquele ricaço para que lhe doasse quantia certa em dinheiro a fim de “atender necessidades" do momento. Ricardo foi radical e não só negou-se a cobrá-las para si como proibiu aos outros fazê-lo, tornando-as crime de corrupção.

Para completar, seu esqueleto mostra que embora sofresse de escoliose, que o fazia manter um ombro mais erguido que o outro para aliviar a dor intensa, não era o anão manco e corcunda de feições horrendas descrito por seus inimigos. Na verdade era mais alto que a média e a reconstituição do seu rosto por modernos métodos científicos mostra que tinha feições agradáveis e bastante simpáticas. Se este foi o verdadeiro rei Ricardo III, bravo guerreiro de boa aparência, razoável cultura e grande talento administrativo, então por que a sua fama de “monstro”?

Creio que a certa altura de sua vida ele se convenceu de que seus irmãos mais velhos, Eduardo e Clarence, eram dois idiotas que não mereciam as altas posições que ocupavam, pois não tinham um décimo da sua visão e valor pessoal. O duque de Clarence não possuía talento algum e além de participar de várias conspirações contra o seu irmão mais velho tentara impedir o mais novo de casar-se com a prima por pura mesquinharia e questões patrimoniais, chegando a conseguir fosse deixada em aberto na “dispensa papal” (necessária para casamentos de primos em 1º grau) a questão da consangüinidade, coisa que lhe permitiria anular o casamento de Ricardo no caso de futuras disputas legais. Já o rei Eduardo era um promíscuo bon-vivant que se ocupava mais com mulheres e farras do que com o reino, jogando o fardo das tarefas mais pesadas sobre os doloridos ombros do seu competente e puritano irmão caçula. Isto deve ter criado em sua mente já enferma, embora ninguém o percebesse, a convicção de que a coroa deveria ser sua, acordando a doentia ambição que perverteu-lhe os sentimentos e o fez considerar tolo o seu lema sobre “lealdade”. Para usar expressão muito popular após o sucesso da série cinematográfica “Guerra nas Estrelas”, poder-se-ia dizer que Ricardo aderiu ao “Lado Negro da Força” e virou escravo do seu demônio interior, sucumbindo ao “Império do Mal”.


   Eduardo IV , tela de autor anônimo da época. Incapaz e mulherengo, punha
           sobre Ricardo o fardo do governo, fazendo-o ambicionar-lhe a coroa

Sobre a doentia ambição que passou a dominá-lo há uma pista em seus livros, onde sempre escrevia seu nome na página título, pois em várias delas escreveu também um novo lema: Tant Le Desiree (Tanto a tenho desejado). Apesar de ter tido filhos bastardos, coisa comum aos nobres da época, ele não era dado a aventuras galantes e, certamente, o lema escrito em livros como O Guia dos Príncipes e A Arte da Guerra não se referia a mulheres, mas à coroa real.

Metodicamente, eliminou todos os que poderiam se por em seu caminho, agindo sempre de forma disfarçada e indireta, pois na época conspirações pululavam e como Constable of England estabeleceu eficiente serviço de informações que o mantinha a par de tudo. Assim, valendo-se dos seus cargos policiais e judiciais, à primeira suspeita prendia os pretensos “conspiradores”, julgava-os e os decapitava, pois a pena para o crime de traição era a morte. Suas primeiras vítimas foram os parentes próximos da rainha Elizabeth, que pertencia à família Woodville, partidária da Casa de Lancaster, tradicional rival da Casa de York. Muitos dos seus membros tinham participado de revoltas contra o rei e eram notórios partidários de outros candidatos ao trono. Alguns haviam sido executados, mas outros foram perdoados devido à paixão que Eduardo tinha pela linda esposa. Apesar de ser considerada a mulher mais bela da Inglaterra e pertencer à nobreza, ela não tinha sangue real e era viúva de um simples cavaleiro que morrera combatendo o rei. Por isso o casamento fora muito discreto, mas ao tornar-se público os yorkistas ficaram indignados com a cretinice de Eduardo e também porque os Woodville passaram a gozar de grande prestígio na Corte. Ricardo era menino na época e ao ficar adulto manteve-se calado, mas ao adquirir imenso poder tratou de corrigir o erro do irmão, prendendo e executando por “conspiração” vários membros da família Woodville e de outras famílias rivais, muitas vezes através de provas forjadas.

              Elizabeth de Woodville, esposa de Eduardo IV e na época considerada a mulher
                                       mais bela da Inglaterra. Tela de autor anônimo (séc. XV)

Quando terminou a “limpeza”, voltou-se para a sua própria família, primeiro eliminando parentes distantes e depois parentes mais próximos, até chegar ao seu próprio irmão Clarence, único que se interpunha entre ele e o rei numa possível linha de sucessão colateral. Clarence era um bêbado idiota de caráter fraco que já traíra o irmão mais velho e tentado prejudicar o irmão mais novo, sendo sempre perdoado pelo bom gênio de Eduardo e sem sofrer maiores reprimendas do "gentil caçulinha" Ricardo, nem, muito menos, perder sua fraternal amizade. Confiante na costumeira tolerância dos irmãos, meteu-se em mais uma conspiração contra a coroa, que Ricardo logo descobriu e tratou de aumentá-la aos olhos do rei por meios indiretos, pois não queria ser visto como principal causador da desgraça do irmão. O resultado é que Clarence foi preso e condenado à morte "em privado" (longe do público). Desesperado, apelou para que o “justo” Ricardo interviesse em seu favor, coisa que ele fez abertamente a fim de afastar de si quaisquer suspeitas enquanto forjava provas e mais provas contra o irmão idiota. Porém Eduardo não estava disposto a manchar as mãos com o sangue do próprio irmão e confidenciou a Ricardo que iria perdoá-lo. Isto o fez agir rápido e, enquanto o indeciso Eduardo demorava-se a emitir o decreto de perdão, Clarence "sumiu" dos seus aposentos de prisioneiro na Torre de Londres. Nunca se soube ao certo o que aconteceu, pois Ricardo nada investigou, como competia ao Chefe de Polícia do Reino, e um manto de silêncio foi estendido sobre o assunto. Tudo indica que Eduardo conformou-se com a ação dos "desconhecidos" assassinos de Clarence, achando que eles tinham feito a coisa certa, e deu o caso como fato consumado sobre o qual não convinha fazer estardalhaço. Melhor o silêncio!

   Clarence era um bêbado que traiu o rei várias vezes e por fim foi morto, mas ao invés de
                    decapitado foi afogado em barril de vinho. Tela de Richard Godfrey (1700)
             
Tempos depois boatos circularam de que ao invés de ser formalmente decapitado em seus aposentos, como mandava a lei no caso dos nobres, alguns "amigos" o embriagaram a pretexto de festejarem o "próximo perdão do rei" e o afogaram em um barril de vinho. Depois puseram o cadáver dentro e o fecharam, retirando o barril da Torre sem despertar suspeitas e enterrando o corpo em cova anônima na abadia de Twiksbury. Todos acharam que o boato era uma piada alusiva ao alcoolismo de Clarence, porém concordaram que ele não teria sido executado, mas morto a facadas por ordem de alguém poderoso e enterrado em segredo. Como a intervenção de Ricardo “em seu favor” era notória, as suspeitas voltaram-se contra o próprio rei, pois dizia-se que não queria aparecer perante os demais como matador do irmão alcoólatra e assim procedera para que se pensasse ter o traidor fugido para o continente. Os insistentes boatos de que ocorrera não uma execução decente, mas um infame assassinato, fizeram o rei romper o silêncio e encerrar o assunto de uma vez por todas, certamente a conselho de Ricardo, informando ao Parlamento que Clarence "fora executado nos termos da lei". Ninguém sentiu falta do beberrão traidor e no violento panorama da época o assunto logo foi esquecido. Anos depois sua ossada foi descoberta em cova rasa e nela não se achou sinais de decapitação, como era próprio à execução de um príncipe, nem de golpes com arma branca, o que reforça a tese do afogamento no barril de vinho. Depois dos exames forenses, a ossada foi dignamente sepultada na mesma abadia.
             
Só uma mente doentia e perversa poderia ter concebido forma tão bizarra e humilhante de vingança e, sabendo-se o que depois se veio a saber da monstruosa crueldade de Ricardo, poucas dúvidas podem restar de ter sido ele o autor da inédita proeza.

Com Clarence fora do caminho, Ricardo se tornou o "1º irmão" e, sendo astuto e instruído, viu que o domínio da nobreza, com suas eternas brigas e rivalidades, era prejudicial à nova sociedade burguesa que surgia na Europa em conseqüência da Revolução Comercial, ainda em seus estágios iniciais. Viu também que a nova classe era muito devota e puritana e por isso procurou adotar procedimento mais puritano do que aquele que já possuía. Quanto à devoção, que quase não tinha, tratou de fingi-la com a mais refinada hipocrisia e percebeu que o dinheiro deslocara-se da mão dos nobres latifundiários para a mão dos burgueses comerciantes. Aqueles ainda eram os donos das grandes fortunas, mas estas eram constituídas por terras, riqueza de mínima liquidez e de pouca utilidade nos casos de grave necessidade política e econômica, enquanto que a muito menor fortuna dos mercadores plebeus das cidades era constituída por dinheiro sonante, coisa que realmente tinha valor e funcionava nas horas de crise. Assim, aproximou-se da burguesia e a fez sua aliada. Muito cauteloso, ia pouco a Londres e quase não frequentava a corte, preferindo exercer suas altas funções militares, administrativas, policiais e judiciais a partir de York, no extremo norte do país. Embora fosse o 1º ministro de fato, ele se esforçava para não aparecer como tal aos olhos dos demais e isto lhe fortalecia a fama de modesto, o que não só o mantinha longe dos invejosos como lhe dava ampla liberdade de ação, conservando-o a salvo das suspeitas de alimentar desmedidas ambições e de intrigas de cortesões. Todavia não descuidava do contato constante com o rei através de intensa comunicação epistolar, mantendo-o a par de tudo que se passava no país e dando-lhe contas detalhadas das suas ações em prol da prosperidade e maior glória do reinado de Eduardo.

Porém o que mais agradava ao tolo monarca eram as gordas rendas que Ricardo pontualmente lhe mandava. Para ele aquele irmãozinho caçula eficiente, gentil, modesto, bravo e dedicado, cujo lema era lealdade a qualquer custo, constituía motivo de alegria e gratidão e não de cuidado e preocupação.

  Eduardo IV era alto e bonito, amante de festas e mulheres. Deve ter morrido
                por excessos e não por venenos. Tela de autor anônimo (séc. XV) 

Em abril de 1483 Eduardo morreu após breve enfermidade e correram boatos de envenenamento, mas estes logo sumiram porque os prováveis aspirantes ao trono tinham sido eliminados pela eficiente mão de Ricardo e o falecido rei tinha sucessores legais nos seus dois filhos homens ainda meninos. Portanto, não havia à vista qualquer beneficiário da morte do rei. O modesto Ricardo era apenas o terceiro na linha de sucessão no improvável caso da morte dos dois saudáveis herdeiros legítimos e nenhum benefício imediato lhe poderia advir do “duvidoso envenenamento” do rei. Ademais, vivia modestamente longe da corte, sua “lealdade” ao irmão era patente e sua decência e devoção eram tais que o tornavam o mais improvável dos suspeitos. Por isso o Parlamento deu a morte como natural e aclamou novo rei o garoto de doze anos Eduardo V.

Sendo ele ainda menino, a regência caberia à rainha-viúva sua mãe, porém ela era de família partidária da Casa de Lancaster, rival da Casa de York, e não gozava da simpatia do Parlamento, sobretudo da Câmara dos Comuns, formada por burgueses fartos de guerras civis e disputas dinásticas que davam grandes prejuízos à economia, esfolavam os contribuintes e prejudicavam os negócios. Em conseqüência, sem sequer consultar Ricardo, que se achava prudentemente longe em York, os parlamentares o aclamaram regente sob o título de Lord Protetor da Inglaterra. Não se exclui a hipótese de que ele tenha manipulado tudo à distância, pois o controle da Polícia e da Justiça lhe permitia fazê-lo e os seus amigos burgueses dominavam a Câmara dos Comuns, sem falar na quase ausência de oposição na Câmara dos Lordes, porém o mais provável é que o astuto príncipe tenha ficado ausente, evitando manipulações que poderiam prejudicar sua reputação se viessem a público. Certo de que os fatos não poderiam ter outro desfecho e o poder lhe viria às mãos naturalmente, manteve-se discreto, observando com calma o desenrolar dos acontecimentos.

Eleito Lord Protetor da Inglaterra, deslocou-se para Londres e constatou o que previra e temera: os Woodville, parentes da rainha-mãe, haviam tomado conta do palácio real e agora mandavam na corte, sobretudo um irmão e um filho do primeiro casamento de Elizabeth. Porém, dispondo da Polícia, da Justiça e do Parlamento, Ricardo não perdeu tempo: pôs a rainha em prisão domiciliar e executou sumariamente o seu filho e o seu irmão! Por fim, alegando que era para a segurança do rei-menino e do seu irmão mais novo, ambos cercados por inimigos ostensivos e "ocultos", os mandou para a Torre de Londres, fortaleza que funcionava como prisão para os membros da alta nobreza.

O rei-menino Eduardo V e o irmão caçula presos na Torre de Londres
     por ordem do tio Ricardo. Tela de John Everett Millais (séc. XIX)


Até então todos julgavam que Ricardo agia corretamente porque os meninos tinham realmente muitos inimigos e era inconcebível que uma família da nobreza de segunda linha, como era o caso dos Woodville, se apoderasse do poder, mandando e desmandando, sobretudo sendo ela tradicional aliada da Casa de Lancaster, inimiga da dinastia reinante, mas quando surgiram boatos de que o novo rei Eduardo V e seu irmão duque de York eram filhos bastardos, inaptos para o trono, a Câmara dos Lords, reduto da nobreza, agitou-se e houve acerbos debates. Como sempre, Ricardo estava por trás de tudo e dava curso ao seu velho e oculto plano de apoderar-se da Coroa. Assim, fez um jurista amigo levar ao Parlamento contrato pré-matrimonial secreto que provava estar o falecido Eduardo IV comprometido com outra mulher ao casar discretamente com Elizabeth Woodville. Isto era bem do feitio do falecido rei mulherengo e ninguém duvidou da autenticidade do documento, mas os opositores alegaram que sua existência e posterior violação acarretava danos civis por quebra de contrato perante a família prejudicada, mas não invalidava o casamento do irresponsável Eduardo com a bela Elizabeth.

Foi quando um “santo frade” apareceu e jurou sobre a Bíblia que o contrato fora cumprido e ele próprio oficiara em segredo o casamento do falecido rei com a outra mulher antes do casamento com Elizabeth, coisa que o invalidava totalmente. Como tal modo de proceder era típico do promíscuo falecido rei, cujo próprio casamento com Elizabeth fora quase secreto, ninguém pôs em dúvida o depoimento do “santo frade”, fazendo o Parlamento declarar inválido o “segundo casamento" e bastardos os príncipes presos na Torre de Londres. Em conseqüência, Ricardo foi aclamado rei em meio ao grande júbilo político e popular, pois todos achavam que as suas virtudes e méritos o faziam talhado para o trono. Com fingida “humildade”, aceitou a decisão do Parlamento e quase que imediatamente se fez coroar na abadia de Westminster.


                       Os príncipes aterrorizados ouvem os passos dos assassinos e o cãozinho late para as sombras
                                         abaixo da porta. Tela de grande dramaticidade de Paul Delaroche (séc. XIX)
             
Tudo poderia ter terminado aí e ele feito longo e profícuo governo se continuasse agindo com a habitual astúcia e não se entregasse ao lado mais negro do seu coração, mandando matar covardemente os seus dois sobrinhos meninos presos na Torre. Possuído pela paranoia, os julgou perigosos à sua segurança por achar que rebeldes poderiam se unir em torno do garoto Eduardo V alegando ser ele "o rei legítimo", destituído do poder por manobras escusas do tio!

Fosse Ricardo homem de mente saudável, teria achado solução menos radical e cruel, que não somente afastasse perigos de rebeliões como agradasse a todos. Uma dessas seria destinar os meninos à carreira eclesiástica, internando-os em mosteiro na distante Roma sob a guarda do Papa. Quanto a Elizabeth, agora reduzida à condição de viúva de um simples cavaleiro, poderia tê-la internado em mosteiro português sob a guarda do rei de Portugal, com quem a Inglaterra possuía ótimas relações comerciais e diplomáticas. Com mãe e filhos presos em mosteiros de países longínquos, separados por grandes distâncias e sob severa guarda de seus governantes, ninguém de bom coração e corretas intenções veria maldade nisso e conspirações urdidas em torno dos "bastardos" se tornariam improváveis. Mas o demônio se apoderara de sua alma e antes de assassinar seus inocentes sobrinhos resolveu livrar-se dos seus poderosos aliados, os duques de Hastings e de Bukingham, que haviam incorrido no seu desagrado ao se oporem à destituição do jovem rei . Após rápido julgamento por “traição”, realizado sob sua presidência na própria Torre de Londres, Hastings foi decapitado. Bukingham só escapou porque fora avisado das malévolas intenções do rei e não atendeu ao seu "convite" para ir à Torre, sabiamente fugindo para a França.

Depois de removidos parcialmente estes dois obstáculos, ele deu continuidade ao seu perverso plano livrando-se dos príncipes-meninos da forma mais infame que se possa imaginar: sufocando-os com travesseiros durante o sono e sepultando-os secretamente em cova rasa sob as lajes de escadaria de pedra na própria Torre de Londres. A nefanda sepultura, sobre a qual todos os dias transitavam pessoas, ficou ignorada por mais de século e meio, até que em 1643 foi descoberta durante reformas no sinistro prédio e consertos na centenária escadaria. Só então as infelizes crianças receberam enterro digno!

                     Os príncipes meninos dormem enquanto os carrascos de Ricardo se preparam para asfixiá-los
                                                                      com travesseiros. Tela de Pedro Américo (1880)

Julga-se que os príncipes foram assassinados no final de agosto de 1483, pois foi a última vez que foram vistos brincando no pátio da sombria fortaleza. Daí em diante não mais se soube deles e o primeiro boato foi que tinham fugido e estavam escondidos sob a proteção de opositores de Ricardo. Mas quando nenhum desses opositores foi localizado e nenhuma notícia do paradeiro das crianças surgiu, o boato passou a ser de que elas tinham sido assassinadas e secretamente enterradas pelo perverso tio. A partir daí o seu apoio popular evaporou e o seu suporte no Parlamento enfraqueceu, sobretudo porque ele não fez qualquer pronunciamento sobre o sórdido assunto e não ordenou qualquer investigação para apurar o misterioso sumiço dos sobrinhos. Isto reforçou na mente das pessoas a crença no crime e na culpa de Ricardo, que virou certeza quando ele não fez nenhum esforço para negá-la. Tudo indica que uma espécie de loucura e de sentimento de onipotência tenha se apoderado dele e a crescente indignação da nobreza foi seguida pelo geral desprezo do povo ao até então querido monarca, fazendo com que em novembro de 1483 estourasse rebelião que convulsionou o reino durante meses. Mais uma vez Ricardo mostrou seu grande talento militar e derrotou os rebeldes, executando-os em massa. Entre os mortos estava o poderoso duque de Bukingham que poucos meses antes lhe havia escapado ao fugir para a França. Depois disso Ricardo se tornou totalmente paranoico, suspeitando de tudo e de todos e vendo traições em toda parte. A feroz repressão que ordenou fez do seu reinado um dos mais tirânicos da história da Inglaterra, embora ele se esforçasse para readquirir o apoio do povo editando ótimas leis que protegiam a economia, incentivavam a prosperidade e, curiosamente, reforçavam os direitos civis e políticos dos cidadãos plebeus (commoners). Isto fez com que muitos ilustres juristas e historiadores escrevessem mais tarde que ele fora um tirano torpe, mas promulgara excelentes leis que beneficiaram o país e o povo!

Cerca de 20 anos após o seu sórdido reinado, um dos assassinos dos príncipes foi preso e revelou os nomes dos cúmplices, todos homens da confiança de Ricardo. Jurando que tinham agido sob ordens do Rei, disse que o enterro dos meninos fora feito por terceiros seus desconhecidos após os criminosos deixarem o local do crime. Por isso não sabia dizer onde ficava a sepultura secreta.

      Batalha de Bosworth - Gravura de Philip de Loutherbourg (séc. XVIII). Ricardo lutou até o fim, mas o pouco
                          entusiasmo dos seus homens, que não queriam lutar pelo "assassino de crianças", o derrotou


O reinado de Ricardo continuou de mal a pior e em agosto de 1485 estourou nova rebelião chefiada pelo conde de Richmond, líder da Casa de Lancaster. O exército real era superior ao dos rebeldes, porém tudo indica que faltou aos seus soldados entusiasmo para lutar em favor do assassino de crianças e ele foi morto na batalha de Bosworth após ser traído por importantes aliados. Mas não se rendeu e combateu quase sozinho até o fim com inexcedível bravura. Diz a tradição que durante a batalha várias das suas montarias foram mortas e substituídas, mas quando a última tombou sob os golpes inimigos ele manteve-se de pé lutando valentemente e abrindo claros entre os muitos atacantes que o cercavam enquanto bradava: Um cavalo! Tragam-me um cavalo! O meu reino por um cavalo!

Nunca um cavalo valeu tanto e um reino valeu tão pouco!



                    

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Post nº 61

CAVALEIROS  TEUTÔNICOS  -  A  SINISTRA  ORDEM  MILITAR  MEDIEVAL  QUE  SE  TORNOU  UM  IMPÉRIO


A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos foi a mais letal da Idade Média. Através do cinema de Eisenstein inspirou as figuras de lord Vader, do imperador e das tropas do "Império do Mal" da série "Guerra nas Estrelas"

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I
A  FUNDAÇÃO  NA  PALESTINA  DA  ORDEM  DOS
CAVALEIROS  TEUTÔNICOS


Nos primeiros anos das cruzadas o grosso dos seus participantes vinha da Europa Ocidental e o reino católico de Jerusalém era essencialmente francês, mas nos anos 1130 começaram a chegar grandes levas de peregrinos e militares alemães da Europa Central, chamados na época de teutônicos. Como não tinham sido parte do Império Romano, poucos falavam latim e quase todos ignoravam as línguas neolatinas, o que lhes tornava difícil a comunicação com os não alemães na Palestina, onde a língua usada pelos católicos era o francês. Assim, um grupo de sacerdotes e cavaleiros alemães criou uma instituição para hospedar e dar assistência aos seus compatriotas, por eles batizada “Casa de Santa Maria dos Teutônicos” (“Domus Sanctae Mariae Theutonicorum”). Durante meio século a instituição desempenhou relevante papel assistencial e tornou-se uma espécie de “embaixada alemã” em Jerusalém, mas com a reconquista do sultão Saladino em 1187 a Casa de Santa Maria dos Teutônicos mudou-se para outra cidade da Palestina ainda em mãos dos cruzados. Na III Cruzada (1189-1193) o próprio imperador alemão veio à frente de numeroso exército, que não chegou a ter papel importante nas lutas devido à morte acidental do poderoso monarca ainda nos seus estágios iniciais e regressou, mas muitos cavaleiros ficaram para continuar lutando contra os muçulmanos ao lado dos reis Felipe Augusto e Ricardo Coração de Leão, que segundo voz geral estavam se preparando e em breve chegariam à Terra Santa.

Em 1192 os cruzados alemães fizeram da Casa o seu quartel-general e fundaram uma Ordem Militar a que deram o nome de “Ordem da Casa de Santa Maria dos Combatentes Teutônicos” (Ordo Domus Sanctae Mariae Vexillum Theotonicorum) . Pouco depois seus estatutos foram aprovados pelo Papa e eles adotaram como brasão a cruz teutônica negra em campo branco, séculos mais tarde tornada a mais alta condecoração militar alemã com o nome de “Cruz de Ferro”.

Inspirada na cruz negra Teutônica, o reino da Prússia criou a "Cruz de
                                        Ferro", alta comenda militar.

Logo o seu extenso nome foi abreviado pelo povo e a Ordem ficou conhecida como Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, cujos membros chegaram a cerca de quinhentos durante os combates que se seguiram. Porém o fim da III cruzada fez a maioria regressar à pátria e apenas uma centena deles ficou na Palestina para prosseguir na luta. A partir daí o seu número voltou a crescer muito lentamente, o que não os impediu de destacarem-se nos combates por sua invulgar disciplina e por construírem sólidos castelos na Terra Santa.

   Hermann von Saltza, eleito 4º grão-mestre da Ordem em 1208 e a governou
               por mais de trinta anos. Tela de artista anônimo do século XVI
           
O seu número havia se estabilizado em torno de trezentos quando em 1208 o barão Hermann Von Saltza foi eleito grão-mestre e deu enorme impulso ao progresso da Ordem, pois tinha forte liderança e altas conexões políticas. Estas fizeram o rei da Hungria convidá-lo para sediar a Ordem no seu principado vassalo da Transilvânia na Romênia e ajudá-lo a controlar os seus rebeldes súditos, todos eles cristãos ortodoxos que repudiavam o domínio católico dos nobres húngaros e dos mercadores alemães estabelecidos no país.

II
O  DOMÍNIO  TEUTÔNICO  DA  TRANSILVÂNIA


Em 1211 o poderoso barão Von Saltza e os seus excelentes cavaleiros, que a essa altura tinham dobrado de número e já somavam mais de seiscentos, disseram adeus à Palestina e rumaram para o leste europeu, abandonando de vez os objetivos cruzados que tinham motivado a criação da Ordem a que pertenciam. Transformados em “defensores” de interesses econômicos destituídos de motivações religiosas, os Cavaleiros Teutônicos implantaram na Transilvânia um regime de puro terror e a Ordem da Casa de Santa Maria tornou-se ela própria rica dona de terras e maior exploradora dos recursos locais, oprimindo e massacrando a população cristã ortodoxa romena. Desde então a sua espada não mais se voltaria contra os muçulmanos, mas apenas contra os pagãos e os “hereges” cristãos ortodoxos.

          Os cavaleiros devotos queriam reconquistar Jerusalém e não saquear a Romênia, por isso abandonaram a
                         Ordem Teutônica e juntaram-se à Ordem Templária na Palestina. Iluminura do século XII

Essa nova postura a fazia poderosa senhora feudal e incansável construtora de castelos no território ocupado, mas também a tornava carente de princípios e sem atrativos para os jovens cavaleiros alemães devotos, os quais sonhavam com a gloriosa reconquista dos lugares santos na Palestina e não com roubalheiras na Romênia. Por isso deixaram os Teutônicos para se juntarem aos Templários e aos Hospitalários, que tinham ficado fiéis aos seus estatutos, lutando com ardor contra os muçulmanos na honrosa tentativa de reconquistar Jerusalém. As muitas defecções do que havia de mais idealista em seus quadros obrigaram a gananciosa Ordem Teutônica a contratar grande número de mercenários e por volta de 1220 eles já eram maioria em suas fileiras. O resultado foi que ela ficou militarmente ainda mais forte, porém ainda mais insensível e voraz.

         Para solidificar seu domínio na Transilvânia, os Cavaleiros Teutônicos construíram vários castelos, mais
                          tarde usados pelo Conde Drácula em suas guerras contra os turcos. Este é o mais famoso.

Sempre proclamando-se a serviço da Igreja de Roma, poucos anos depois o seu excessivo poder, fome de riquezas e completo domínio da Transilvânia começaram a inquietar o rei húngaro até que ele se viu forçado a adotar medidas drásticas quando foi informado que Von Saltza pleiteava secretamente junto ao Papa fosse o principado reconhecido como “Estado Eclesiástico” de propriedade dos Cavaleiros Teutônicos e vassalo unicamente da Igreja. Mobilizando poderoso exército, muito superior ao da Ordem, o rei intimou Von Saltza a entregar-lhe todos os magníficos castelos que construíra no principado e dele retirar-se imediatamente.

III
O  IMPÉRIO  DOS  CAVALEIROS  TEUTÔNICOS 
NO  NORTE  DA  EUROPA


Diante da inércia de Roma, que nada fez para ajudá-lo, Von Saltza viu que cometera um clamoroso erro de cálculo e que não poderia resistir às superiores tropas húngaras. Assim, aproveitando-se de um providencial convite do católico rei polonês, em 1225 rumou para o norte com o tesouro da Ordem e os seus cavaleiros. Chegando à Polônia, o rei Konrad I o fez ciente dos graves problemas que o país enfrentava no norte, onde os pagãos lituanos, que habitavam o litoral nordeste do mar Báltico, tinham ocupado a Prússia Oriental e ameaçavam Varsóvia.

              Expulsos da Transilvânia, os Cavaleiros Teutônicos foram para a Prússia Oriental,  onde construíram                                                                                      magnífico castelo para sua sede na cidade de Marienburg, hoje na Polônia  

Von Saltza e os seus treinados batalhões de cavaleiros pesadamente couraçados lançaram-se ao combate, conseguindo em poucos anos expulsar os invasores pagãos da Polônia e dominar largas faixas de território, dos quais se tornaram proprietários por direito de conquista. Entre os seus novos valiosos domínios estava toda a Prússia Oriental, o que lhes permitiu estabelecerem-se firmemente no que seria o seu lar definitivo durante séculos. As grandes vitórias obtidas em pouco tempo contra os pagãos nórdicos deram aos Cavaleiros Teutônicos não somente fama e vastas propriedades, mas também a hegemonia política e militar no nordeste da Europa, fazendo com que suas fileiras aumentassem substancialmente devido ao grande número de nobres alemães que correram a se alistar sob sua bandeira. Isto fez do seu imponente castelo na cidade de Marienburg movimentado quartel e sede do incontrastável poder econômico e militar da Ordem na região. Quando Von Saltza morreu em 1239, após exercer durante décadas o seu grão-mestrado, ele e os seus principais oficiais tinham sido elevados à categoria de príncipes e a Ordem conquistara vastos territórios no litoral do mar Báltico, incluindo a Lituânia ao norte e partes mais a leste da Prússia Ocidental ao sul. Façanhas tão notáveis em tão curto espaço de tempo fizeram-na grande potência militar e lhe deram enorme prestígio político, conferindo-lhe voz ativa nos negócios do Sacro Império Romano-Germânico. Isto a colocou no mais alto nível internacional, com posição igual ao da Polônia e da Hungria, os dois reinos católicos mais importantes do leste europeu.

O exército da Ordem era pequeno, mas era o melhor da Europa. Sua semelhança com as tropas do Império
                                                                        do Mal na série "Guerra nas Estrelas" é marcante

Com sua soberania firmemente assentada sobre cidades nórdicas importantes como Dantzig, Koëningsberg e Riga, ela também se estendeu para o sul, tornando-se senhora de grandes feudos na Tchecoslováquia e na Áustria. Mas o seu objetivo principal era a conquista de toda a costa oriental do mar Báltico até o Golfo da Finlândia e, sob o pretexto de promover uma "cruzada para converter os pagãos bálticos ao cristianismo" devidamente endossada pelo Papa, marchou para o norte na primavera de 1240 varrendo a ferro e fogo toda e qualquer oposição.

IV
OS  CAVALEIROS  TEUTÔNICOS  TENTAM  EXPANDIR  O  SEU
IMPÉRIO  E  INVADEM  A  RÚSSIA


Até então as guerras da Ordem tinham motivação aparentemente religiosa, alegando combater para submeter e converter pagãos ao cristianismo, porém um ano após iniciada sua ofensiva rumo ao norte os seus batalhões conquistaram a Letônia, na época chamada de Livônia, e infletiram para o leste, invadindo o ducado russo de Novgorod, governado pelo devoto príncipe cristão-ortodoxo Alexandre Nevski. Isto deixou claro que o seu alegado propósito de natureza religiosa era apenas pretexto para cruel guerra de conquista e rapinagem desenfreada de outros povos, fossem eles pagãos ou cristãos.

           O príncipe russo Alexandre Nevski foi o primeiro general que infligiu enorme derrota aos  poderosos                                                                                              Cavaleiros Teutônicos. Cena do filme de Eisenstein "Os Cavaleiros de Ferro"

Após derrotarem os russos nos combates iniciais, os cavaleiros ocuparam a cidade de Pskov e implantaram cruel regime de terror, tal como já tinham feito anos antes na Transilvânia e mais recentemente na Lituânia e na Letônia. Os seus métodos eram terríveis e tinham por finalidade aterrorizar o inimigo que buscavam subjugar definitivamente, o que fazia os seus feitos atrozes serem comentados de boca em boca e lhes conferiam a pouco invejável fama de "agentes do demônio". Entre as suas muitas façanhas nesses anos de guerra feroz estava o de reintroduzir a escravidão no nordeste da Europa, pois faziam das regiões conquistadas feudos de sua propriedade e aboliam os direitos dos servos, fazendo-os voltar à condição de escravos sob a alegação de que “pagãos” e “hereges ortodoxos” não possuíam direitos. Muitas vezes deslocavam populações inteiras de regiões cuja exploração lhes parecia antieconômica para outras mais rentáveis, porém carentes de mão de obra. Assim, incendiavam vilas inteiras e deportavam os habitantes para os seus feudos onde eles eram mais necessários.

        Ao ocuparem a cidade russa de Pskov os Cavaleiros Teutônicos fizeram absurdos autos-de-fé, executando                                                                        líderes da resistência e clérigos ortodoxos para aterrorizar o povo. Cena do filme de Eisenstein
             
Outra de suas cruéis façanhas era quebrar o espírito de resistência dos povos dominados com absurdos autos de fé, nos quais prisioneiros e clérigos ortodoxos eram torturados e levados à fogueira. Embora não se saiba ao certo se verdade ou mentira, dizia-se que até mesmo velhos e crianças, inaptos para o trabalho, eram queimados vivos pelos “Cavaleiros de Ferro”, nome como eram eles chamados pelo povo aterrorizado.

               Pskov foi quem mais sofreu com os absurdos autos de fé promovidos pela brutal ocupação Teutônica
             
Uma singular característica contribuía ainda mais para o terror que a Ordem inspirava: o exclusivismo étnico! Ao contrário das demais Ordens religiosas militares medievais, que fiéis ao universalismo cristão aceitavam em seus quadros guerreiros das mais diversas nacionalidades, a Ordem da Casa de Santa Maria somente aceitava candidatos etnicamente teutônicos, dizendo que se assim não fosse a Ordem deixaria de ser "dos teutônicos". Isso por um lado lhe dava coesão e fortaleza,  mas por outro a tornava exclusivista e lhe dava o anti-cristão sentimento de superioridade étnica sobre os povos dominados, fazendo-a ainda mais cruel e indiferente ao sofrimento dos não teutônicos. O fato de adicionar o terror político e racial ao terror religioso e militar talvez explique por que ao aderir séculos depois à Reforma Protestante ela não conseguiu levar consigo outros povos do leste europeu, como os poloneses, os tchecos e os eslovacos. Quase como se fora uma resposta étnica ao exclusivismo prussiano, estes povos eslavos rejeitaram o protestantismo e se tornaram ainda mais católicos do que eram antes.

           Dizia-se que os Cavaleiros Teutônicos queimavam crianças russas na fogueira para aterrorizar o povo e
                        melhor dominá-lo, mas é possível que fosse apenas boato. Cena do filme "Alexandre Nevski"
             
Porém, fossem quais fossem os motivos inspiradores dos métodos da Ordem, eles eram bastante eficazes, pois o terror espalhou-se na Rússia e o príncipe Alexandre Nevski viu-se às voltas com o pânico generalizado dos seus súditos, que largavam tudo e fugiam para lugares que julgavam mais seguros. Isto fez com que ele tivesse grande dificuldade em mobilizar um exército minimamente capaz de oferecer batalha ao invasor com alguma chance de êxito, pois suas tropas, embora numericamente muito superiores, não dispunham nem da sua excelente técnica de combate nem das suas ótimas armaduras e espadas, segredos da invencibilidade dos Cavaleiros Teutônicos.

          O príncipe Alexandre Nevski já os combatera e sabia que não teria chances contra eles em uma batalha                                                                                       clássica, mesmo tendo muito mais soldados. Cena do filme de Eisenstein

O seu número sempre fora pequeno e nunca passara de três mil, divididos em uma dúzia de batalhões de em média duzentos e cinquenta cavaleiros cada um, mas o seu ótimo comando tático, excelente treino, férrea disciplina e primoroso armamento os capacitavam a vencer exércitos dez vezes maiores de desorganizados camponeses sem comando adequado. Pode-se dizer que eles possuíam o melhor e mais bem armado exército europeu da época, pois os grandes recursos da Ordem eram empregados basicamente em treinamento e armas, sobretudo em sofisticadas armaduras para cavalos e cavaleiros. Claro que o número médio de três mil homens refere-se apenas aos cavaleiros consagrados, não incluindo o outro tanto de mercenários bem armados que quase sempre combatiam a pé. Estas tropas de infantaria geralmente ficavam na retaguarda e só intervinham na batalha após a cavalaria destroçar a linha inimiga. Quando o trabalho dos cavaleiros terminava, os mercenários avançavam e massacravam o que sobrara dela.

Investimentos pesados em armas, armaduras, escudos e treinamento intensivo deram aos Cavaleiros
                                                       Teutônicos enorme superioridade bélica sobre os seus adversários
             
Porém o armamento dos mercenários era de tão boa qualidade quanto o dos cavaleiros, sobretudo as armaduras. Estas podiam ser mais grossas que suas congêneres europeias do sul graças ao clima muito mais frio da região onde lutavam e à estatura mais robusta dos nórdicos, tanto de homens como de cavalos. Elas eram menos incômodas e protegiam melhor infantes e cavaleiros, tornando apropriado o apelido de “Cavaleiros de Ferro” que lhes davam as populações em pânico.

A moderna tática de atacar em massa com a cavalaria blindada apenas um ponto da linha de infantaria inimiga lhes permitia penetrá-la como um raio, dispersá-la e cercá-la pela retaguarda, destruindo-a completamente ainda que lhe fosse dez vezes superior em número de combatentes.  Essa tática pensada de batalha, que hoje seria chamada de "guerra relâmpago", era desconhecida das indisciplinadas hordas de guerreiros nórdicos, o que permitia aos Teutônicos infligir-lhes enormes derrotas com apenas umas poucas centenas de cavaleiros couraçados.

Os russos eram superiores em número, mas inferiores em técnica militar e equipamento bélico
             
Nevski já testara o poderio dos Cavaleiros Teutônicos emboscando alguns dos seus destacamentos menores e tendo depois que recuar face à flagrante superioridade técnica e tática dos invasores, embora sempre estivessem em menor número. Diante dos insucessos localizados, ele viu que mais cedo ou mais tarde teria que lançar todo o seu exército ao combate em uma grande batalha que decidiria o destino do principado de Novgorod. Não tendo suas tropas treino adequado nem, muito menos, armas e armaduras que se comparassem às dos temíveis invasores, ele sabia que seria inútil usar flechas e lanças contra os cavalos e cavaleiros inimigos pesadamente blindados e que, mesmo contando com grande superioridade numérica, só poderia vencê-los pela astúcia. E foi o que fez.


V
A  BATALHA  DO  LAGO  GELADO

            
O inverno de 1241-42 lhe deu uma trégua, mas ainda em fevereiro os teutônicos reiniciaram suas operações e ele concluiu que teria de vencê-los no início da primavera ou perder tudo. O inverno terminava no final de março, mas no noroeste da Rússia o degelo só começava em meados de abril, embora as placas de gelo que cobriam rios e lagos afinassem a partir do início do mês. Com muita perspicácia, calculou que até o meado do mês elas ainda seriam bastante fortes para suportar o peso de homens portando armas leves, mas não para suportar o peso da infantaria russa acrescida da pesada cavalaria couraçada teutônica caso ela atacasse em massa. Se o fizesse, como sempre fazia, o gelo se quebraria e os russos com armadura leve alcançariam facilmente a margem próxima, mas isso seria impossível aos cavaleiros teutônicos vestindo pesadas couraças.

             Durante semanas Alexandre Nevski e o seu estado-maior esperaram a hora certa para a batalha vendo a
                                devastação que os Cavaleiros Teutônicos faziam em sua terra. Cena do filme de Eisenstein

Com o plano pronto após discuti-lo em detalhe com o seu estado-maior, o príncipe russo escolheu lugar apropriado nas margens do lago Peipus para a batalha que planejara. Durante semanas negaceou e driblou o inimigo com pequenas escaramuças para espicaçar sua imensa arrogância e atraí-lo para onde queria, fazendo-o aproximar-se cada vez mais do local da armadilha enquanto esperava o momento decisivo.

Habilmente o príncipe russo atraiu os Cavaleiros Teutônicos para a armadilha. Na série "Guerra nas
                                Estrelas" é flagrante a semelhança de Lord Vader com o líder teutônico do filme de Eisenstein
            
Por fim, posicionou no momento certo suas bem orientadas tropas sobre as margens do lago gelado e para lá habilmente atraiu o inimigo. Este se jogou na batalha com o ímpeto que já lhe dera inúmeras vitórias, atacando em forma de flecha para romper a linha adversária num ponto determinado e depois envolvê-la por trás, cercando-a e aniquilando-a. Os russos ficaram firmes esperando a temível onda de cavaleiros aproximar-se veloz e ao sinal combinado correram para os lados, dando-lhes passagem na hora exata. Impossibilitada de frear pela velocidade em que vinha, e sem entender direito o que se passava, a cavalaria teutônica adentrou a superfície do lago em carga avassaladora fazendo o gelo quebrar e centenas de cavaleiros se afogarem, tal como Nevski previra. O golpe de misericórdia foi dado pelas pontas da linha russa de batalha, que rapidamente se adiantaram e fecharam-se em tenaz sobre a retaguarda inimiga, espancando a traseira dos cavalos que vinham em furioso galope e impedindo-os de frear, fazendo com que também caíssem nas águas geladas onde tiveram o mesmo destino.

A superfície gelada do lago Peipus rompeu-se e centenas de cavaleiros teutônicos afogaram-se
                                               com seus cavalos. Cena do filme "Alexandre Nevski e os Cavaleiros de Ferro"
            
Ao contrário da mortandade registrada entre os cavaleiros teutônicos na batalha do lago gelado, quase todos os russos escaparam do ataque da cavalaria e suas grandes perdas se deram quando atacaram e aniquilaram a infantaria inimiga após os cavaleiros afogarem-se, mas não se sabe quantos russos nela lutaram, calculando-se o seu número entre quatro e cinco mil. Também não se sabe quantos cavaleiros combateram e pereceram, mas julga-se que eram cerca de cinco batalhões somando pouco mais de mil e duzentos homens, dos quais parece não ter havido sobreviventes, pois mesmo os que se desviaram a tempo da armadilha foram derrubados dos cavalos a pauladas e mortos a facadas pelos camponeses furiosos, mostrando que a cavalaria é arma de guerra fragílima quando é detida e os cavaleiros são cercados e agarrados por grande número de guerreiros a pé.

A derrota na batalha do lago gelado afastou os Teutônicos da Rússia mas eles continuaram se expandindo
                                            e dominaram todos os chamados países bálticos. Cena do filme de Eisenstein
            
Devido à falta de registros confiáveis, até hoje discute-se o número de cavaleiros mortos na batalha, uns afirmando que eram bem mais e outros bem menos, alguns chegando a dizer que não passavam de quinhentos. Todavia é difícil acreditar que militares experientes como os Teutônicos pudessem cometer a estupidez de se lançarem na imensidão da Rússia com tão poucos combatentes, por melhores que fossem. O número de mil e duzentos é o mais provável porque os registros dizem terem eles desfechado sua ofensiva deixando dois batalhões em suas bases e avançando com dez, o que significa aproximadamente dois mil e quinhentos cavaleiros. Dizem também que após entregarem a guarda das terras conquistadas a padres e mercenários prosseguiam sua marcha, tudo indicando que na Letônia se dividiram em duas colunas com cerca de mil e duzentos homens cada uma, embora disso não haja registro. Todavia a lógica sugere que tendo a primeira coluna avançado para o norte sobre a Estônia, que veio posteriormente a conquistar, e a segunda para o leste sobre a Rússia, esta teria sido a coluna destruída na batalha. Portanto, o número de mil e duzentos cavaleiros mortos no lago Peipus é bastante razoável face aos elementos históricos de que dispomos. Entre os mortos teutônicos não estão computados os mercenários que constituiam a infantaria do exército invasor e que se posicionavam atrás da cavalaria, só avançando após esta dispersar a linha adversária, mas não é exagerado pensar que igualassem o número de cavaleiros, ou seja, mil e duzentos. Destruída a cavalaria, a infantaria ficou só no campo de batalha para enfrentar os russos muito mais numerosos e foi igualmente massacrada.

A muito mais numerosa infantaria russa esmagou a infantaria teutônica após o lago gelado "engolir" a
                                                                  sua poderosa cavalaria.  Cena do filme de Eisenstein
             
O número de mortos deve ter ficado em torno de dois mil para cada lado, com a diferença de que do lado teutônico estava toda a sua esplêndida cavalaria, até então considerada invencível. Mas qualquer que tenha sido o número de teutônicos mortos na batalha, a derrota teve efeito arrasador sobre o moral da Ordem, pois ela jamais tentou novamente invadir a Rússia depois da catástrofe, na qual é correto supor ter perdido um terço dos seus efetivos. Assim, os seus batalhões restantes pararam na Letônia e na Estônia, abandonando  projetos de novas conquistas ao norte, mas continuaram a exercer férreo controle das regiões já dominadas, acumulando enorme riqueza e prestígio político mesmo perdendo completamente o pouco que lhes restava do antigo apelo religioso, essencial às ordens militares medievais.


VI
GRANDEZA  E  DECADÊNCIA  DO  IMPÉRIO
DOS  CAVALEIROS  TEUTÔNICOS

             
A derrota nas margens do lago Peipus fez os Cavaleiros Teutônicos retirarem-se do território russo e os enfraqueceu bastante, mas eles logo se recuperaram e acresceram ao seu domínio na Lituânia também o domínio da Letônia e da Estônia. Não satisfeitos, ocuparam as ilhas do mar Báltico próximas ao seu litoral leste e avançaram a oeste sobre a Prússia Ocidental, anexando a Pomerânia. Por fim, expandiram-se para o sul, adquirindo vastos feudos na Saxônia, Tchecoslováquia e Áustria. Meio século após a humilhante derrota frente aos russos, eles eram agora donos do maior império do leste europeu e tornaram-se parceiros do Sacro Império Romano-Germânico.

Império dos Cavaleiros Teutônicos na segunda metade do século XIII. Mas o seu apogeu somente ocorreu
                               no século XIV, quando dominaram também a Prússia Ocidental e uniram as duas Prússias
            
Com o fim do fervor religioso que a criara e sua metamorfose em poderoso império, a Ordem tornou-se um poder temporal como outro qualquer e adquiriu seus mesmos vícios, envolvendo-se nos conflitos militares apenas por razões políticas e econômicas. Aos poucos ser sagrado cavaleiro teutônico virou honraria almejada pelos membros das famílias principescas do leste e a incômoda tarefa de guerrear, não para expandir a fé, mas para aumentar riqueza e poder, foi deixada aos mercenários, limitando-se os cavaleiros à comandá-las de confortável ponto na retaguarda, tal como fariam todas as cabeças coroadas europeias a partir do fim da Idade Média. Sempre intervindo nos negócios do leste europeu com suas tropas mercenárias comandadas por hábeis cavaleiros versados em tática e estratégia militares, a Ordem Teutônica tornou-se rival e acerba inimiga da coroa polonesa, mordendo a mão que a acolhera e alimentara no seu alvorecer nórdico. Cada vez mais forte após recuperar-se da desastrosa batalha do lago Peipus contra os russos, ela continuou a desfrutar de enorme poder por mais de século e meio, até ser esmagada por coalizão de poloneses e lituanos na batalha de Tannemberg em 1410.

Em 1410 os Cavaleiros Teutônicos foram esmagados pelos poloneses coligados com os
                                                     lituanos na batalha de Tannemberg. Tela de Jan Matejko (séc. XIX)
             
Após a derrota a Ordem perdeu não só força e prestígio, mas também o pleno domínio da Prussia Oriental, a qual virou ducado  vassalo do rei da Polônia, dando-se início ao lento desmembramento do seu império. Mas ela fortaleceu-se na Prussia Ocidental e em 1525 as duas Prussias foram unificadas de novo quando o rei Albrecht Hohenzollern obteve do rei Sigismund da Polônia sua elevação a príncipe feudatário do ducado da Prússia Oriental. Para isso lhe pagaria vassalagem anual, mas seria o soberano de fato e de direito das duas Prússias, de uma a título de rei e da outra a título de duque vassalo do rei da Polônia, tais eram as peculiaridades do direito feudal europeu.

Em 1410 o império da Ordem Teutônica chegou à sua máxima extensão e era um dos maiores da Europa, mas
                                   os polacos-lituanos o abateram na batalha de Tannemberg e ele entrou em decadência
             
Com os novos arranjos políticos a Ordem deixou de existir na prática como pessoa jurídica autônoma de direito público e tornou-se entidade meramente simbólica. Para o seu declínio e gradual desaparecimento muito contribuiu o fato de que, dentre todas as ordens militares medievais, ela fosse a única a utilizar-se largamente de mercenários, coisa que outras ordens de grande prestígio, como os Templários e os Hospitalários, jamais fizeram por terem candidatos de sobra aos seus quadros. Todavia, o escasso ardor religioso que movia os Teutônicos lhes tornava difícil o recrutamento de jovens bravos e devotos da nobreza, os quais não viam razões éticas para colocarem o seu idealismo a serviço de uma organização que se afastara dos ideais espirituais motivadores da sua criação para se dedicar totalmente à conquista de bens materiais. Isto fez com que em meados do século XV o número de seus cavaleiros-membros tivesse se reduzido a cerca de quinhentos e no final do século fosse ainda menor, sem contar que eram em sua maioria aristocratas oportunistas sem fortuna que viam na Ordem apenas meio de obter glória e riqueza.
            
Assim, para manter seguras suas imensas possessões e continuar travando suas guerras destituídas de conteúdo religioso, ela era obrigada a recorrer a tropas de aventureiros assalariados, cabendo aos seus poucos cavaleiros apenas os postos de administração dos quartéis e de comando dos batalhões. Suas tropas mercenárias eram valentes, eficientes e bem treinadas, mas estavam sempre dispostas a trocar de lado caso lhe oferecessem mais, disto se aproveitando os seus adversários para reduzir-lhe o poder combativo e derrotá-la em momentos decisivos.

VII
O  FIM  DO  IMPÉRIO  DA  ORDEM  DOS  CAVALEIROS  TEUTÔNICOS 
COMO  POTÊNCIA  POLÍTICA  E  MILITAR

           
Em 1525, o grão-mestre teutônico Albrecht Hohenzolern aderiu à Reforma Religiosa e tornou-se um dos mais poderosos príncipes protestantes da Europa, dando decisivo impulso ao movimento reformista por governar diretamente a Prússia Ocidental, até então apenas uma província da Ordem, porém a maior e mais rica de todas. Há séculos o poderoso grão-mestre deixara de ser um monge-guerreiro e tornara-se um príncipe secular com nível de duque, o que muito facilitou ao titular do cargo na difícil época da Reforma fazer-se coroar rei do país que governava e dar início a dinastia dos Hohenzolern, os quais seriam promovidos a imperadores da Alemanha no século XIX.

Com a derrota de Tannemberg a Prussia Oriental ficou sob a suserania do Rei da Polônia como
                                   ducado vassalo, mas a Ordem manteve sua independência na Prussia Ocidental
             
Logo em seguida ele obteve do rei Sigismundo da Polônia a devolução da Prussia Oriental a título de ducado feudatário e o novo reino se tornou quase tão poderoso quanto durante o apogeu da Ordem Teutônica no século XIV, o que deu enorme força ao movimento reformista. Mas apesar da adesão maciça das províncias teutônicas do norte ao credo luterano, as províncias do sul romperam com o Grão-Mestrado protestante e permaneceram católicas, estabelecendo nova sede em Viena e colocando-se sob a proteção do Sacro Império Romano-Germânico. Isto as fez proclamarem-se “única e verdadeira Ordem dos Cavaleiros Teutônicos”, porém representavam menos de um quinto dos seus efetivos e propriedades, o que lhes retirou significado e importância maiores. Dessa forma, enquanto no norte a Ordem era absorvida pelo Estado Prussiano e tornava-se Ordem Militar Honorária, no sul ela era absorvida pela Igreja Católica e tornava-se ordem religiosa igual às demais.

Em 1525 o grão-mestre teutônico Albrecht Hohenzollern coroou-se rei da Prússia Ocidental e foi aceito como
                       duque feudatário da Prússia Oriental pelo rei Sigismund da Polônia. Quadro de Jan Matejko (1882)

No início do século XIX o imperador Napoleão Bonaparte derrotou a coalizão austro-prussiana e, tal como já fizera na França, exigiu que os monarcas vencidos abolissem em seus territórios as ordens religiosas militares. O resultado foi a legal extinção tanto do ramo católico austríaco como do ramo protestante alemão da “Ordem dos Cavaleiros Teutônicos”. Porém, após a queda do império napoleônico em 1815, ela foi restaurada e subsistiu com idas e vindas até ser novamente extinta pelos revolucionários que aboliram os impérios austríaco e alemão no final da Primeira Guerra Mundial. Em 1931 o Papa Pio XI corretamente a restaurou como ordem estritamente religiosa com finalidades assistenciais, mas em 1938 ela sofreu suprema injúria quando o enlouquecido ditador Adolfo Hitler a transformou numa espécie de “ordem maçônica” de caráter cabalístico, ligada às aterrorizantes tropas SS, apelidadas de "morte negra" por usarem uniforme preto e uma caveira no quepe. Sob a liderança do sórdido Henrich Himmler, chefe das SS, rituais pagãos e insensatas sessões de ocultismo passaram a ser realizados secretamente no Castelo de Marienburg com o mistificador propósito de "revitalizar" um nunca existente "antigo espírito teutônico da Ordem". A absurda mistificação prosseguiu até o final da Segunda Guerra Mundial, quando só então a "ordem apócrifa" desapareceu junto com os seus repulsivos mentores.

Os nazistas elegeram os Cavaleiros Teutônicos símbolos do poder alemão
                       tolhido por sinistros inimigos. Cartaz de propaganda do NSDP
            
Finalmente, em 1947 o Papa Pio XII a restaurou nos termos corretos em que o fizera o seu antecessor dezesseis anos antes e desde então a "Ordem da Casa de Santa Maria dos Combatentes Teutônicos” tem sua sede em Viena e presta bons serviços assistenciais, mas para evitar atrozes equívocos e sórdidas mistificações só podem dela fazer parte e atuar nos seus trabalhos membros do clero católico expressamente convidados.
Os nazistas recriaram a Ordem dos Cavaleiros Teutônicos como organização ocultista secreta vinculada
                                             às sórdidas SS. Suas sinistras reuniões eram no antigo castelo-sede da Ordem
            
Porém a indecente "refundação" da Ordem pelos nazistas, associando-a aos carrascos das SS, trouxe-lhe enormes prejuízos, pois fez os europeus orientais relembrarem não o seu recente passado benemerente, mas o seu antigo passado sombrio, trazendo de volta à memória de suas vítimas históricas todas as crueldades que a Ordem praticara em seus países vários séculos antes. Isto motivou o ditador soviético Joseph Stalin, que já previa a eclosão da II Guerra Mundial, a encomendar ao cineasta Sergei Eisenstein um filme sobre o assunto, mas que servisse de restaurador dos brios patrióticos russos e de propaganda anti-alemã. O resultado foi o filme “Alexandre Nevski e os Cavaleiros de Ferro”, obra-prima cinematográfica hoje incluída entre as mais perfeitas de todos os tempos. O filme é notável não pelo tema, mas pelo excelente roteiro, ótima atuação dos atores, inusitados efeitos especiais, trilha musical primorosa e, sobretudo, pela sua magnífica fotografia em preto e branco. A repercussão e influência do filme têm sido duradouras, pois muitos cineastas nele se inspiraram. O caso mais notável é o do diretor americano George Lucas em seu seriado “Guerra nas Estrelas”, pois lord Vader, o imperador e as tropas do “Império do Mal” são claramente inspirados no Chanceler, no Grão-Mestre e nos Cavaleiros Teutônicos do filme de Sergei Eisenstein. Também é grande no seriado de George Lucas a semelhança do idealismo, bravura e altruísmo dos Cavaleiros Jedi com as virtudes patrióticas do príncipe Alexandre Nevski e dos seus oficiais na obra do diretor russo.   

Tudo bem examinado, verifica-se que apesar dos decentes esforços da Igreja Católica a “Ordem da Casa de Santa Maria dos Combatentes Teutônicos” realmente deixou de existir em termos militares, políticos e históricos ainda durante a Reforma Religiosa no século XVI e subsiste apenas como reminiscência de um cruel passado distante.