terça-feira, 25 de novembro de 2014

Post nº 85

LORD  COCHRANE  -  O ALMIRANTE  CORSÁRIO  QUE  SE  TORNOU  HERÓI  DE  TRÊS  MUNDOS

Cochrane tornou-se famoso nas guerras napoleônicas, obtendo notáveis vitórias navais
contra navios de guerra franceses e espanhóis






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Ler os clássicos é sempre fonte de ilustração, mas é também fonte de preciosas lições sobre como agir face a difíceis circunstâncias do presente com base em situações ainda mais difíceis do passado. Parece ser uma fatalidade histórica que todos os séculos da Era Moderna comecem bem e logo entrem em crises de grandes proporções. O nosso começou eufórico, mas em 2008 mergulhou na pior crise econômica dos últimos 70 anos. O século XX começou tão bem que foi chamado de belle époque, porém 14 anos depois veio a catástrofe da 1ª Guerra Mundial. O século XIX não foi diferente: começou com o que se chamou de jeunesse doré usufruindo da riqueza e da paz trazida à Europa por Napoleão após a tempestade da Revolução Francesa e logo teve que enfrentar o tufão das Guerras Napoleônicas e das Guerras Latino-Americanas de Libertação.

É no sangrento cenário do início do século XIX que aparece o britânico lord Cochrane, notável capitão de navio de batalha nas guerras napoleônicas e comandante naval de fundamental importância nas lutas de independência do Brasil e do Chile, cujas esquadras ele organizou e comandou no posto de almirante outorgado pelos governos dos referidos países. Tão extraordinária foi a sua vida que ele virou personagem de romances de aventuras, dos quais o mais famoso é Peter Simple de Frederick Marryat, seu antigo subordinado na marinha. Por óbvias razões literárias, em todos eles o lendário comandante aparece sob nomes fictícios e em Peter Simple ele é o capitão Savage, notável lobo do mar em torno de cujos feitos gira o núcleo da obra.

Mas esqueçamos o capitão Savage “herói do romance de aventuras” e vejamos o almirante Cochrane “herói da vida real”. Thomas Cochrane nasceu em 1775 em nobre família escocesa cujas raízes remontavam à Idade Média, tornando-se sir Thomas Cochrane ainda jovem e lord Cochrane, décimo conde de Dundonald, já homem maduro. Na época, consoante a ordem natural das coisas, o jovem aristocrata estava destinado à vida pacata de grande senhor rural como seu pai, porém “ordem natural das coisas” e “vida pacata” eram coisas fora do âmbito do caráter aventureiro de Cochrane. Ademais, há anos sua nobre família enfrentava sérias dificuldades econômicas e muitos dos seus membros haviam escolhido a carreira militar como meio seguro de vida e de manter o elevado status social através da conquista de altos postos nos forças armadas. Um dos seus tios era almirante e graças a ele entrou na marinha em 1793 aos 18 anos de idade como suboficial, passando a oficial após rápido treinamento. Como todas as marinhas da época, a Royal Navy era depósito de rebotalho social da pior espécie, somente superado por prisões e colônias de criminosos, mas Cochrane sentiu-se à vontade nesse meio bizarro e perigoso, logo se destacando por sua notável eficiência profissional e grande liderança, qualidades que cedo lhe deram o comando de um navio de guerra.

Cochrane ainda jovem nas guerras napoleônicas. Mais tarde lutaria pela liberdade
de novos países no Pacífico, no Atlântico e no Mediterrâneo

Tivesse Cochrane entrado na marinha em tempos pacíficos teria sido apenas mais um burocrático capitão de navio sonolento criando lodo nos portos, mas creio que se na época este fosse o caso ele não teria sido marinheiro. Para os bravos e aventureiros os tempos ideais são aqueles onde o tumulto e os perigos substituem a pasmaceira da vida pacífica e bem ordenada, pois são os que permitem seus talentos e qualidades destacarem-se e serem apreciados. Os tempos de Cochrane foram desse tipo, pois havia permanente guerra com a França desde antes da rebelião das colônias americanas ocorrida há décadas. A Revolução Francesa a agravou e o advento de Napoleão a levou aos quatro cantos do globo. Para um voraz lobo do mar como Cochrane isso era “sopa no mel” porque nas marinhas da época reinava o sistema do “butim”, pelo qual, em operações navais singulares, o vencedor ganhava os despojos do inimigo e os dividia com seus homens, cabendo-lhe a melhor parte. Isto levava capitães ousados como Cochrane a operar como “piratas”, atacando e roubando tudo que pertencesse ao adversário. O nome elegante para esse tipo de pirataria legalizado era “guerra de corso” e ao capitão não se dava o nome de pirata, mas de “corsário”.  

Cochrane era rematado “corsário” e seu alvo principal eram cidades médias do litoral da França e da Espanha. Ele ancorava próximo de uma delas durante a noite e mandava botes espiões verificar se havia navios inimigos mercantes ou de guerra no porto. Conforme a informação, traçava seu plano e ao amanhecer atacava de surpresa para apreender o maior número possível de barcos e levá-los como “presa de guerra” à Inglaterra, onde os vendia e embolsava sua parte após a divisão com seus homens. Quando a apreensão não era possível, saqueava e incendiava o navio assaltado. Às vezes atacava mesmo quando não havia navios que valessem à pena e saqueava armazéns e lojas da área portuária, de sorte que de um modo ou de outro suas operações traziam grandes lucros e faziam marujos com vocação para o perigo, o roubo e a pirataria adorá-lo.

Embora os moralistas e alguns membros do almirantado fizessem sérias restrições aos atos de Cochrane e dos seus iguais, “violadores de elementares princípios de ética e cavalheirismo”, o povo o tinha como “herói”, pouco ligando para sua ladroeira e vítimas civis. Diziam que “guerra é guerra” e “na guerra vale tudo”, nela não havendo lugar para tolices como “cavalheirismo” e “considerações éticas”. Suas façanhas deram-lhe o título de cavaleiro, indo a sua bandeira adornar uma das naves da abadia de Westminster, e sua popularidade o elegeu ao Parlamento em 1807, onde se integrou à ala reformista do Partido Liberal chamada de liberal radical. Muito atuante, logo se destacou, mas era homem de caráter difícil, duro e com enorme facilidade para fazer inimigos. Assim, aos muitos desafetos que tinha na marinha somou os desafetos que fez no Parlamento, sobretudo no Partido Conservador, cujo reacionarismo e oposição às reformas ele não cessava de vergastar em discursos cáusticos e até mesmo insultuosos.

A esquadra inglesa colheu grandes vitórias contra as esquadras coligadas da França e da Espanha,
dando importante contribuição para a derrota final de Napoleão

As sessões parlamentares duravam poucos meses e o resto do ano ele passava no mar combatendo ou saqueando navios mercantes e portos inimigos. Seus hábitos não mudaram nem mesmo quando casou por amor em 1812 com uma bela jovem plebeia contra a vontade da sua nobre família, coisa que o obrigou a casar apenas no civil. Somente anos mais tarde ambos casaram também na Igreja Anglicana, único tipo de casamento aceitável pela nobreza da época. A noiva, além de bonita, era muito mais moça e Cochrane estava tão apaixonado que dela não se separava um só instante, levando-a consigo em suas perigosas viagens, fato naquele tempo comum entre os oficiais de alta patente. Os riscos eram enormes para as esposas e isso hoje nos parece absurdo, mas testemunhos da época nos informam que o perigo era aceito de bom grado pelos cônjuges, sobretudo quando se tratava de uniões por amor. Como diz o ditado, “mudam os tempos, mudam os costumes”!

Com a derrota de Napoleão e seu exílio na ilha de Elba, as guerras napoleônicas pareciam ter acabado e parte da Royal Navy foi desmobilizada, sobretudo os “corsários”, mas Cochrane já estava riquíssimo e mostrando que era corsário tanto no mar quanto em terra pôs-se a especular na Bolsa de Valores e ganhou muito dinheiro. Foi quando em 1814 circulou o boato de que Napoleão tinha morrido e o perigo que ele representava acabara. A bolsa subiu às alturas e alguns especuladores ganharam fortunas porque compraram barato grande volume de títulos pouco antes do boato e os venderam caro quando a Bolsa chegou ao pico. No dia seguinte o boato foi desmentido, os preços caíram, perderam-se fortunas e suspeitas de manipulação surgiram, instaurando-se processo para apurar possível fraude. Entre os que lucraram muito estava Cochrane e as provas contra ele eram fracas, mas o juiz que presidia a Corte era seu desafeto e ele foi condenado à prisão e a pagar pesada indenização e multa. Perdeu o título de cavaleiro, o mandato de deputado, a patente de oficial e além da pena de prisão recebeu também a pena infamante de exposição no pelourinho, mas o povo protestou e grandes manifestações tomaram conta das ruas de Londres, fazendo com que esta última fosse anulada por temerem revoltas populares mais graves do que as já ocorridas.

Porém a solidariedade do povo não evitou que Cochrane fosse para a cadeia. Quando dela saiu, estava arruinado e alguém de espírito mais fraco teria ido para a casa ancestral no interior da Escócia e lá vivido recluso até que a morte misericordiosa viesse buscá-lo. Mas abandonar a vida do mar era coisa que não passava por sua cabeça e ele saiu em busca de emprego. Foi quando a sorte lhe sorriu de novo. As guerras napoleônicas e a ocupação francesa tinham desagregado o império da Espanha e revoltas eclodiram assim que seus enviados chegaram às colônias para repor a antiga ordem de coisas. Várias proclamaram sua independência e agora travavam dura guerra de libertação. Entre estas estava o Chile, cuja forma geográfica fazia crucial a guerra naval, por isso tentava construir frota que lhe permitisse enfrentar à poderosa esquadra espanhola que lhe devastava o extenso litoral, onde ficava o que havia de relevante no país. Cochrane estava ansioso para voltar à ação e assim que foi lavrado o contrato ele alistou muitos marujos da sua antiga tripulação, navegou célere com a esposa para o Pacífico e lá chegando em 1817 caiu sobre os espanhóis como águia faminta.

A frota chilena comandada por Cochrane em operações de guerra contra os espanhóis no
litoral sul-americano do oceano Pacífico

No início sua frota tinha poucos navios apropriados ao combate, pois a maioria era de pequenos barcos cargueiros adaptados, mas, à medida que com suas táticas corsárias apreendia vasos de guerra espanhóis, sua frota crescia e em breve estava apta a travar grandes combates. Porém era ainda muito inferior e preferiu evitá-los, pois não queria arriscar tudo em uma única cartada; por isso continuou a fustigar o inimigo com a sua ousada “guerra de corso”. Até porque era esta que lhe dava os maiores lucros.

Descrever as incríveis façanhas de Cochrane nos anos em que lutou no Chile daria um livro e lembraremos apenas uma: a captura do poderoso navio de batalha Esmeralda, nave capitania da frota espanhola! Informado de que o inimigo concentrara-se em porto peruano de onde partiria para operações no litoral chileno, ele usou o método que usava no litoral francês e ancorou secretamente a uma distância segura da frota inimiga. À noite, mandou dezenas de escaleres com os seus “piratas” até os barcos espanhóis, dos quais se aproximaram silenciosamente, lançaram ganchos de abordagem em suas amuradas e as escalaram rapidamente, capturando vários navios que estavam com quase toda tripulação adormecida ou em terra. Aqueles onde houve luta e não puderam ser capturados foram incendiados e os assaltantes nadaram de volta aos botes, indo para os barcos já em poder dos seus companheiros. Ao amanhecer, diversos vasos de guerra, inclusive o Esmeralda, tinham caído em suas mãos e outros estavam em chamas. Quando se retirou, a esquadra espanhola praticamente deixara de existir e ele dominava o Pacífico Sul, com o poder de sua frota duplicado graças aos navios apreendidos.

Enquanto Cochrane derrotava os espanhóis no mar o general O'Higgins, chefe do governo
chileno, derrotava os espanhóis em terra

Seu trabalho no Chile terminara e poderia tê-lo adotado como nova pátria, lá ficando como chefe da esquadra e eminente cidadão, vivendo rico e feliz o resto da vida, mas ele era aventureiro por instinto e inclinação, não sendo do seu feitio ter vida sedentária, próspera e pacata, sonho da grande maioria das pessoas. Sem o mar profundo abaixo e as ondas furiosas ao redor, ele era como peixe fora d’água, e sem combates à frente ele era como ave migratória que perde o rumo e voa sem destino até morrer de desespero e cansaço. Ademais, a despeito de ser um mercenário, era um patriota que nunca deixara de sonhar com o seu país que o tratara tão mal e buscara sempre estar ao seu serviço, mesmo quando lutava por outros países, como no caso do Chile. Antes de aceitar o contrato, informara-se da posição da Inglaterra e ficara aliviado ao saber que era do seu interesse o fim do império colonial espanhol, seu rival. Sua ligação com representantes diplomáticos ingleses na região, que agiam discretamente para não ofender a Espanha e oficiosamente por não ter sido ainda reconhecida a independência dos novos países, era estreita e lhe dava a curiosa condição de ser ao mesmo tempo agente pago de país estrangeiro e agente gratuito de seu próprio país, sem que houvesse contradição entre as duas coisas.

Em uma de suas muitas audazes operações corsárias na costa do Pacífico durante a guerra de libertação
do Chile, os marinheiros de Cochrane capturam o porto de Valdívia

Com o fim da guerra no Chile, ele tentou se juntar a Bolívar no norte, mas a guerra que este travava era basicamente terrestre e dispensava operações navais. Foi quando em 1822 recebeu convite para comandar a esquadra do recém criado Império do Brasil. O príncipe herdeiro do Reino de Portugal era príncipe regente do Reino do Brasil e, instigado pelo ministro José Bonifácio e por sua esposa, a arquiduquesa Maria Leopoldina, filha do imperador da Áustria e mulher muito culta que secretamente articulava o apoio europeu à causa brasileira, rompera com Portugal, proclamando a separação dos dois reinos e promovendo-se de príncipe regente a imperador do Brasil sob o nome de Dom Pedro I. O rei de Portugal seu pai, Dom João VI, não aceitara a separação e a guerra eclodira. Os dois países ficavam frente a frente, tendo o Oceano Atlântico no meio, e o litoral brasileiro era duas vezes mais extenso e mais rico que o chileno, o que fazia da guerra naval um imperativo estratégico.

A frota ficara ao lado de Portugal e o imperador teria de criar nova frota se não quisesse ficar sem o trono de Portugal e sem o trono do Brasil. Assim, pegou velhos navios de guerra portugueses ancorados no porto do Rio quando da separação e os juntou com cargueiros adaptados às pressas, dando-lhes o pomposo título de “frota imperial”. Cochrane quase desesperou ao ver o seu péssimo estado, mas não se intimidou e velejou para a Bahia, então a mais importante província brasileira e que estava em poder dos portugueses. Intensos combates se travavam em terra, com clara vantagem para Portugal, pois sua esquadra bloqueava o porto da capital baiana, impedindo a vinda por mar de socorros aos separatistas enquanto os portugueses recebiam reforços de soldados, armas e munições.

Após proclamar a dissolução do Reino Unido do Brasil e Portugal, o príncipe herdeiro do trono dos
dois países se fez coroar imperador do Brasil com o título de Dom Pedro I

Na sua rota, Cochrane capturou um cargueiro português, mas quando tentou entrar na baía de Todos os Santos o inimigo lhe infligiu pesada derrota. Só a sua habilidade permitiu-lhe escapar com metade dos seus barcos e voltar ao Rio, onde fez amargo relato ao governo acerca do miserável estado da “frota imperial”: barcos desconjuntados, que ameaçavam se desmanchar apenas com a vibração dos próprios disparos, velas apodrecidas rasgando-se com ventos fortes, canhões mal conservados explodindo e matando os artilheiros, pólvora velha ou falsificada produzindo tiro chocho ou nenhum, e por aí vai. Porém sua maior queixa era das tripulações compostas por negros libertados da escravidão para servirem na armada, marinheiros portugueses ancorados no Rio quando da separação e malandros recrutados nas ruas. Os únicos que tinham treino eram os marinheiros portugueses, mas não mereciam confiança porque estiveram a ponto de se amotinar e de apoderar-se de vários navios para aderir ao inimigo durante a batalha. Os outros eram quase inúteis e todos eram indisciplinados e sujos, recusando-se a fazer qualquer trabalho de limpeza dos próprios alojamentos e latrinas. Mostrando seu liberalismo radical, que tinha como um dos seus pontos programáticos a abolição da escravatura, dizia que um dos piores efeitos do regime escravocrata, amplamente vigorante no Brasil, era a criação de uma cultura avessa ao trabalho manual e à disciplina que lhe é inerente, fazendo as pessoas tê-lo como "coisa de escravos" e julgá-lo degradante, mesmo quando trabalhavam em seu próprio benefício. À essa perversa "cultura" gerada pela escravidão devia-se a ausência de indústrias no país, para as quais é essencial o trabalho manual e a disciplina, assim como a ela devia-se também a preguiça, o relaxamento e a imundície reinantes na frota, mero reflexo do que ocorria na sociedade brasileira. 

Sua posição extremamente crítica não lhe causou maiores incômodos porque na época o imperador Pedro I e o ministro José Bonifácio eram maçons e liberais radicais que não defendiam a escravidão, apenas tolerando-a como mal necessário às especiais condições econômicas do país, mas tanto nos encontros oficiais como nas conversas pessoais Cochrane deve ter sido muito mais incisivo no que se referia à frota porque navios novos foram adquiridos, velhos foram reequipados, antigas tripulações dispensadas e muitos marujos ingleses e americanos contratados. Daí em diante Cochrane só teve vitórias e quando os portugueses finalmente retiraram-se da Bahia ele os perseguiu até o meio do oceano Atlântico, capturando vários dos seus navios. Após fustigar ao máximo o comboio inimigo, fez meia-volta e seguiu para o Maranhão, outra grande província insubmissa, onde com um ardil obteve a rendição e retirada dos ocupantes tanto do Maranhão quanto do Pará, província até então também fiel a Portugal. Orgulhosamente, oficiou ao governo comunicando que os últimos inimigos tinham sido varridos do litoral brasileiro e o país agora estava em paz.

Muitos têm criticado o comportamento de Cochrane em São Luís, capital do Maranhão, pois a bombardeou e saqueou após ocupa-la militarmente, mas isto estava em seu contrato e as ordens do Imperador eram tratar com dureza os reinóis impenitentes. Ademais, não há notícia de que lá houvesse lojas maçônicas ou um partido liberal pró-independência, tendo a cidade ficado firme ao lado da antiga metrópole e das suas carcomidas instituições absolutistas e fradescas. Isto talvez explique a diferença entre o tratamento que o maçom liberal Cochrane deu a São Luís e o que mais tarde daria ao Recife.  

A imperatriz Maria Leopoldina era filha do imperador da Áustria e mulher muito culta. Junto com
o ministro José Bonifácio ela articulou o apoio europeu ao novo Império do Brasil

Ao voltar recebeu grandes homenagens e o imperador lhe outorgou o título de marquês do Maranhão. Pedro I era muito irônico e gostava de fazer piadas, por isso a cota d’armas correspondente ao título era decorada com cabeças de ferozes lobos diabólicos, certamente em alusão aos apelidos Loup de Mer e El Diablo que franceses e espanhóis lhe deram. Nos meses de paz que se seguiram Cochrane se dedicou a fazer da imperial marinha brasileira uma marinha de verdade, agregando novos barcos, modernizando os antigos e treinando os marinheiros na tradição, disciplina e eficiência britânicas. Foi com certeza o seu trabalho que possibilitou ao Brasil meio século depois ter a terceira maior esquadra do mundo, superior às esquadras russa, alemã e americana.

Em 1824 a importante província de Pernambuco proclamou sua separação do Império e com outras províncias menores circunvizinhas formou uma república com o nome de Confederação do Equador. Porém tratava-se mais de um protesto de liberais radicais contra a dissolução da Assembleia Nacional Constituinte e outorga autoritária de uma Constituição pelo imperador do que de movimento realmente separatista, para o qual não havia apoio popular nem reais condições sociais e econômicas. Mas o governo não hesitou e Cochrane bloqueou o porto do Recife, capital da província rebelde e QG da revolução, sem, todavia bombardeá-lo ou ocupá-lo, podendo-se dizer que o seu papel foi apenas tático. Até então, tanto no Chile como no Brasil, ele lutara ao lado de liberais contra opressores, mas agora via-se lutando contra liberais que se rebelaram contra um imperador que era liberal e se tornara opressor. É possível que a conduta moderada de Cochrane no episódio deva-se à sua secreta simpatia pelos rebeldes, maçons e “liberais radicais” como ele, mas não há evidência disso. De qualquer forma, mesmo sem ações mais violentas, o bloqueio impediu os revolucionários de receberem suprimentos por mar e teve grande impacto psicológico, enfraquecendo-os bastante. Todavia a provável desconfortável situação de Cochrane não durou muito porque, enquanto sua esquadra permanecia ameaçadora defronte ao porto do Recife, exército vindo da Bahia por terra invadiu Alagoas e Pernambuco, derrotou os rebeldes em vários combates e eles renderam-se.

A repressão foi sangrenta, mas Cochrane nela não se envolveu porque tão logo os imperiais ocuparam Recife ele voltou ao Rio com o seu dever cumprido, apesar de não haver registro dele ter lutado durante a campanha. É até mesmo possível que a duríssima repressão ordenada por Pedro I contra os rebeldes tenha sido uma das causas do posterior rompimento entre ambos, pois vários dos liberais radicais executados eram maçons e o imperador fez ouvidos moucos aos apelos dos mais eminentes membros da Maçonaria, da qual era Grão-Mestre, para que os perdoasse. 

Cochrane em seu apogeu no comando da esquadra imperial do Brasil durante
a vitoriosa guerra de separação travada contra Portugal

Depois de pacificado o país nada mais havia a fazer, porém fosse porque o casal gostasse do Rio, onde a colônia inglesa era grande, fosse porque não queria partir antes de arranjar novo emprego, fosse porque o governo relutava em pagar o que lhe devia, ele deixou-se ficar cuidando dos afazeres rotineiros na marinha brasileira e entretendo-se com os amigos. Mas seu caráter irrequieto o levou a sérias desavenças com o imperador, que lhe era de caráter muito semelhante, pois ambos eram valentes, brigões e sem papas na língua. Houve insultos de lado a lado, com Cochrane chamando o imperador de caloteiro e este chamando-o de ladrão, o que fez ambos romperem definitivamente suas conturbadas relações. O resultado foi que Cochrane não recebeu o que julgava ter direito por contrato e decidiu deixar o Brasil. Mas parece que na briga ele tinha razão, tudo indicando que foi apenas mais uma vítima do hábito latino-americano de desrespeitar ajustes e não pagar dívidas, pois apesar do caso se arrastar durante décadas nos escaninhos da burocracia e não se saber até onde a diplomacia inglesa influiu na final decisão, cerca de meio século depois suas pretensões foram atendidas e seus herdeiros receberam polpuda quantia do governo brasileiro.

Mas muito tempo antes, cansado do “devo, não nego, pago quando puder” das autoridades imperiais, Cochrane rompeu o contrato com o Brasil sem dar quitação e partiu para outras aventuras, agora no leste do mar Mediterrâneo, onde a Grécia lutava contra os turcos após separar-se do Império Otomano. Por indicação do governo inglês, mostrando o quanto suas mútuas relações tinham melhorado desde a sua infame condenação, a Grécia contratou Cochrane para comandar a sua frota e ele não decepcionou, derrotando os turcos em várias batalhas e assolando os seus portos na Europa e na Ásia Menor com suas táticas corsárias. Finalmente a Grécia obteve a sua independência e Cochrane encerrou sua missão mais rico e glorioso do que nunca.  

Tendo recebido dos gregos tudo que fora acertado e duplicado sua fortuna saqueando os portos turcos no litoral da Ásia Menor, ele voltou à Inglaterra após muitos anos de ausência e foi surpreendido ao ver que se tornara uma “celebridade”. A única mídia existente na época era a imprensa e esta padecia da falta de notícias que despertassem o público da sua madorra, pois os anos que se seguiram à queda de Napoleão foram incrivelmente aborrecidos para o ávido leitor de jornais que está sempre atrás de notícias capazes de lhe despertar a imaginação e a emoção. Nesse ambiente abúlico, depois de serem coloridas por penas talentosas, “as aventuras de lord Cochrane em mares distantes”, lutando pela liberdade de países remotos dos quais poucos tinham ouvido falar, era um tônico para as mentes românticas, enervadas pela falta de novidades excitantes.

O seu pai falecera há alguns anos e ele tornara-se o 10º conde de Dundonald e lord Cochrane. Assim, logo que voltou à Inglaterra tomou posse da sua cadeira na Câmara dos Lords e foi à luta para obter o que se tornara o seu principal objetivo: limpar o seu nome da infame condenação! Devido à popularidade que sempre teve e ao prestígio de que agora gozava nas altas esferas por seu papel no enfraquecimento dos impérios da Espanha, Portugal e Turquia, rivais do Império Britânico, a tarefa não lhe exigiu muito e em 1833 o rei lhe anulou a condenação, devolveu-lhe o título de cavaleiro e o reintegrou à marinha no posto de almirante. Só não lhe devolveu o mandato de deputado porque este há muito se extinguira e agora, como membro da Câmara dos Lords, não mais poderia exercer mandatos na Câmara dos Comuns. Mas foi plenamente reabilitado e o perdão real teve enorme repercussão militar, política e social. 

A marinha do Brasil homenageia Cochrane em seu túmulo na abadia de Westminster. De frente, na foto,
vê-se Joaquim Nabuco, então ministro do Brasil na Inglaterra

Ele estava com quase 60 anos de idade, muito cansado após 40 anos de aventurosa e intensa atividade no mar, sem igual entre líderes navais de sua época ou de qualquer outra época, e decidiu parar. Daí por diante levou vida de grão-senhor, mantendo atividade social compatível e desempenhando apenas funções rotineiras na Royal Navy. Devido à sua avançada idade, esta o usava apenas como blefe quando precisava incutir respeito em algum país rival que estava pensando em adotar medidas que não eram do interesse da Inglaterra, e divulgava uma nota mais ou menos assim: “dados os recentes acontecimentos, o almirantado em sessão desta data considerou seriamente a possibilidade de mandar uma esquadra sob o comando do almirante lord Cochrane a fim de garantir os interesses do governo de sua majestade”. Quase sempre isso era considerado ameaça de duríssima guerra e o agora avisado atrevido retirava-se calmamente antes que o pior acontecesse e ele tivesse que enfrentar os métodos letais do feroz “lobo do mar”. Mas Cochrane, elevado a “bicho papão”, não voltou a comandar frotas nem navios, pois o almirantado decidira que ele era idoso para isso e muito mais útil seria aproveitar sua imensa experiência e talento no próprio alto comando, onde sigilosamente formularia novas políticas e estratégias navais que seriam repassadas aos oficiais mais novos e promissores.

Rico, famoso e respeitado, Cochrane tornou-se personagem de livros de aventuras avidamente consumidos pelo público e morreu em 1860 aos 85 anos de idade durante cirurgia nos rins. Foi sepultado entre os heróis nacionais britânicos na abadia de Westminster, mas permanece na história como o único caso de herói que transcende as fronteiras de sua pátria para também ser herói de outros países situados em continentes, mares e oceanos diferentes. Enfim: herói de vários mundos!        


                        

2 comentários:

  1. Costumo dizer que tido 7 de setembro, teríamos que acender velas pra quatro 'santos': Napoleão I, João VI, José Bonifácio e Cochrane.

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  2. Costumo dizer que tido 7 de setembro, teríamos que acender velas pra quatro 'santos': Napoleão I, João VI, José Bonifácio e Cochrane.

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