segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Post nº 19

AÉCIO  UNIFICA  OS  EXÉRCITOS  OCIDENTAIS  E  ATACA  ÁTILA  
Enquanto Átila assolava a Gália quase sem encontrar resistência, Aécio tentava coligar as potências
ocidentais para enfrentá-lo numa batalha decisiva (451 DC)


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No início de abril de 451 Átila atravessou o rio Reno na confluência do rio Necker e devastou o nordeste da Gália como uma praga. Aécio ainda estava em Lion organizando o exército com as poucas legiões que dispunha e os seus aliados burgundos tentaram sozinhos deter o invasor, mas foram derrotados e o seu rei Godofredo foi morto na batalha. Por isso os combatentes restantes retiraram-se para os vastos pântanos do baixo Reno e uniram-se aos francos de Meroveu na Bélgica.

Após essa significativa vitória inicial de Átila, as poucas legiões couraçadas de Aécio limitaram-se a lutas de guerrilhas contra o feroz inimigo, pois os 50.000 galo-romanos, mesmo contando com os 40.000 mil franco-burgundos de Meroveu, com os quais ainda não haviam feito junção, não teriam como enfrentar em campo aberto os 200.000 cavaleiros de Átila, mais do dobro do que Aécio reunira até então.

Quando Átila arrasou Trier em maio, Aécio viu que o momento da verdade se aproximava e raspou o fundo do tacho, chamando ao continente a última grande legião ainda aquartelada na Britannia. Dessa forma, aumentou substancialmente o seu poderio militar, mas deixou a ilha sem qualquer proteção. Ele estava tendo sérios problemas para concluir as alianças que lhe permitiriam enfrentar Átila em uma batalha decisiva, pois Teodorico, rei dos visigodos, não havia superado as divergências que ambos tinham tido no passado, apesar das posteriores demonstrações em contrário. Assim, Teodorico declarou que só combateria os hunos se eles atacassem o seu reino no sudoeste da Gália.

Os visigodos eram fundamentais, não somente pelo seu grande e bem organizado exército, mas porque várias tribos germânicas menores esperavam eles se definirem para só então escolherem o lado onde lutar. O apoio de Teodorico traria cem mil guerreiros à coalizão e definitivo equilíbrio de forças, permitindo a decisiva batalha em campo aberto.

Em desespero, Aécio apelou para o príncipe galo-romano Avito, homem rico e refinado que gozava da amizade dos dois. Avito aceitou a missão e, como bom diplomata, disse ao rei que se Átila vencesse Aécio as tribos germânicas adeririam em massa ao vencedor, pois ninguém quer ficar do lado perdedor. Quando Átila atacasse os visigodos, estaria com força dobrada e eles sem aliados. Finalmente Teodorico curvou-se à lógica dos fatos e aderiu à aliança.

O riquíssimo príncipe galo-romano Avitus era amigo pessoal de Aécio e Teodorico e fez este aderir à
aliança contra Átila. Mais tarde seria imperador e acabaria assassinado (457 DC)

Enquanto isso, Átila destruía a corajosa cidade de Metz após ela se recusar a render-se para ser saqueada e ter suas mulheres violentadas em troca da vida da população. A recusa da “generosa oferta” e a sua épica resistência provocou em Átila tal acesso de fúria que ele ordenou não somente o saque da cidade e o estupro das mulheres, mas também a sua destruição e o extermínio de todos os seus habitantes.

O mesmo aconteceu em Tongres, mas Toises e Paris escaparam após lhe pagarem valiosos resgates e curvarem-se humildemente ao seu poder.

No interregno de suas terríveis façanhas, ele se pavoneava, rindo e troçando diante do seu estado-maior: “Onde está o bravo Aécio? Por que ele não aparece e luta como homem? Por que está se escondendo como um rato? Por que não está cantando como um galo? Mas eu sei a razão da sua covardia: isto se deve ao fato dele ter virado uma galinha depois que a bruxa Placídia, que agora está no inferno, o castrou”! Os generais hunos, muitos deles conhecendo bem Aécio, riam para agradar o brutal tirano, mas no íntimo sabiam que o jogo estava só começando. Mais cedo ou mais tarde "o tigre mostraria as suas garras"!

Em junho, após receber polpudo resgate para poupar Paris, Átila marchou para o sul e cercou a estratégica cidade de Orleans nas margens do rio Loire. A cidade resistiu bravamente sob o comando espiritual e político do valente bispo Aignan, que na igreja, nas ruas e nas muralhas encorajava o povo a lutar contra os invasores pagãos. A igreja onde o heróico bispo discursava eloquentemente aos fiéis ainda existe e hoje é anexa a um seminário junto aos restos das antigas muralhas.

Meroveu, rei dos francos, era tradicional aliado de Aécio e esteve ao seu lado desde o início da
campanha. Auto relevo em bronze de Jean Dassier (1720)

No início de julho, Aécio concluiu os termos finais da coalizão e o seu exército juntou-se ao exército visigodo de Teodorico e ao exército franco-burgundo de Meroveu, assim como também aos muitos batalhões das tribos menores que somente decidiram lutar ao seu lado depois da adesão de Teodorico à aliança. Tendo agora um imenso exército e o apoio dos poderosos reis Teodorico e Meroveu, Aécio marchou sobre Orleans, onde esperava encurralar Átila contra as altas muralhas da grande cidade cercada que resistia bravamente ao seu assédio. Mas Átila era astuto e não daria chance a Aécio, que conhecia desde menino e cujo valor militar respeitava: somente lutaria no momento que desejasse e no campo que escolhesse! Por isso levantou o cerco de Orleans e retirou-se para o leste.

Aécio contava agora com duzentos mil homens, o mesmo número do gigantesco exército de Átila, mas ele tinha uma grande vantagem: as suas dez legiões couraçadas que, apesar de constituírem apenas um quarto do imenso exército aliado, eram treinadíssimas e agiam como uma máquina no campo de batalha. Embora fossem "romanas" no nome, na verdade eram compostas quase inteiramente por soldados profissionais gauleses, germânicos, britânicos, ibéricos e balcânicos; isto mostra que na época a Itália deixara de produzir soldados para produzir apenas burocratas. Por isso é estranho que ainda permanecesse à testa do Império. De qualquer forma, Aécio não perdeu tempo com as festividades pela libertação de Orleans e partiu célere em perseguição de Átila.

A hora da decisão chegara!

(Adaptação de trecho do romance histórico “Memórias Íntimas de Flavius Marcellus Aetius”)


Notas:

1) o número de tropas envolvidas no gigantesco confronto, tendo de um lado os aliados romanos Aécio-Meroveu-Teodorico e do outro lado os aliados bárbaros  Átila-Arderico-Clodion são os citados pela maior parte dos historiadores, mas as possibilidades logísticas da Gália na época os tornam por demais exagerados. Os antigos gostavam de aumentar desmesuradamente os combatentes das batalhas importantes e por isso a metade, ou mesmo um terço, dos números citados seja mais razoável.

2) Aécio e Átila se conheciam desde a adolescência e tinham sido aliados no passado. As ligações entre os dois eram antigas, pois Aécio residira como refém na Hungria durante dois anos na corte do rei huno Roua (também chamado Rugila), tio de Átila. Este, por sua vez, também residira como refém em Ravena na casa do general Gaudêncio, pai de Aécio. Ainda jovens participaram juntos de algumas campanhas militares e o radical rompimento entre  ambos na maturidade jamais foi bem explicado.

3) Calcula-se que cerca de vinte nacionalidades europeias participaram da batalha, de um ou do outro lado. Porém a grande maioria combateu com batalhões inferiores a mil homens. Os maiores contingentes nacionais foram os hunos, hérulos, ostrogodos, alanos (divididos), gauleses, visigodos, francos (divididos) e burgundos. Por isso a Batalha dos Campos Catalúnicos é também chamada de "A Batalha das Nações".


Um comentário:

  1. Fantástico Virgílio, texto com gosto de quer mais, está me fazendo caçar aqui no Google as referências e conhecer um pouco mais deste átimo de nossa história.

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